Edição 20
A mitologia nos pés
By
Ugo Giorgetti
O medievalista Hilário Franco Júnior analisa o futebol como fato histórico e como mtáfora dos desejos humanos
Veja na edição impressa de Carta na Escola: o professor Marcos Garcia Neira, da USP, explica o que levou o futebol, esporte da elite européia, a se tornar a maior manifstação cultural de um país miscigenado como o Brasil
Só aceitei escrever alguma coisa sobre A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade e Cultura (Companhia das Letras, 448 págs., R$ 54) quando constatei que não havia nele nenhuma advertência sobre as qualificações intelectuais e profissionais requeridas de um possível leitor. Em outras palavras, aparentemente um livro para leitores comuns.
E é nessa categoria que me inscrevo. De outro modo, não poderia me atrever a abordar um livro escrito por um dos mais importantes historiadores brasileiros, por muitos considerado nossa maior autoridade em história da Idade Média. Com certeza, o livro seria mais bem apresentado por alguém cujo arsenal intelectual estivesse mais próximo do professor Hilário Franco Júnior e não por um mero diretor de cinema que traz como principal título de aproximação com ele apenas o interesse comum pelo futebol.
Por tudo isso, minhas observações estarão longe de esgotar toda a riqueza do livro e mesmo, talvez, a extensão completa de suas propostas e interpretações.
O que intriga de início é o motivo pelo qual um eminente latinista, professor de História Medieval da Universidade de São Paulo, se interessaria pelo futebol. Depois de ler o livro não excluiria, como primeira razão, o fato de o professor Hilário ser, ele mesmo, um torcedor, um amante do futebol, pura e simplesmente.
Outra resposta, porém, creio que já se encontra em outros livros seus, nos quais o entendimento e a análise da cultura popular no período de sua especialidade aparecem como tema recorrente. Falo, por exemplo, de Cocanha, a História de um País Imaginário, uma análise da utopia que, por séculos e séculos, esteve presente na cultura popular do Ocidente, inclusive o Brasil, ou A Eva Barbada, Ensaios sobre Mitologia Medieval.
Neste último, logo na introdução há uma frase que prefigura com exatidão o modo como o professor Hilário depois iria abordar o futebol. Diz ele: “Para esse estudo (cultura popular) o historiador recorre a um instrumental variado, tomado de empréstimo ao sociólogo, ao lingüista, ao psicólogo, ao folclorista, ao antropólogo”.
Como o mito é parte fundamental do futebol, fica fácil entender como o “instrumental variado” contribui, quando usado de maneira extremamente criativa, para examinar o que é o esporte e quais as razões de sua formidável aceitação em praticamente todas as regiões do mundo. O livro é isso, fruto de um curso de pós-graduação na USP, ministrado por três anos, o que explica a enorme quantidade e a incrível variedade do material utilizado.
Espero, contudo, que essa introdução não cause a suspeita de que se trate de um livro difícil, de impenetrável vocabulário técnico, em uma palavra, chato. Não é. Escrito de forma ágil e atraente, é, muitas vezes, divertido, carregado de fatos, dados e mesmo anedotas que, num certo sentido, ilustram e iluminam uma série de audaciosas propostas e hipóteses sobre o significado profundo do jogo de futebol.
Nunca se perde de vista o futebol mais visível e conhecido, aquele que se vê quando se vai a campo, que se acompanha pelos jornais, a que se assiste na televisão. Desfila pelo livro uma quantidade infinita de craques, times, estádios lendários, datas marcantes e partidas célebres, com a única diferença de que não aparecem nunca só como fatos isolados, meros acontecimentos desconexos, por mais impacto que tenham causado nos torcedores. O que distingue o texto é o fato de que os acontecimentos passam a ser matéria para uma investigação profunda, que os conecta à história contemporânea e aos costumes dos homens.
A primeira parte é histórica. Isto é, coloca o futebol, como o conhecemos, na História. Acompanhamos esse filho do Império Britânico, nascido para ajudar a “forjar elites aptas a governar”, sobreviver gloriosamente ao ocaso do império, espalhar-se pela Europa industrializada e urbana e viver, como agente importante, todas a vicissitudes do século XX, como guerras e revoluções ou os anos de chumbo no Brasil. Em resumo, o futebol não como causa, mas como “caixa de ressonância de acontecimentos mais amplos”.
A segunda parte do livro fala do futebol como metáfora, isto é, “o futebol sentido antes de ser compreendido”. O futebol tem uma parte significativa de sua existência confinada em regiões nebulosas do homem. Coisas que pertencem ao irracional, que não se explicam facilmente, mas que podem ser “analítica e criticamente examinadas”.
Nessa etapa do livro são esmiuçados, com a mesma profusão de exemplos e citações, fenômenos como a violência, a necessidade dos torcedores de pertencer a um clã, a ancestral atividade da dança como matriz do jogo (dança-se, sobretudo, com os pés), a religião (presente já na palavra “ídolo” para classificar um jogador que se admira) ou a psicologia do torcedor visitada num capítulo particularmente brilhante, do qual vale a pena citar uma frase. “Torcer supõe alterar a configuração de um evento, moldar psiquicamente um fato para adequá-lo ao espaço do desejo.” Bonito, não?
Pois esse mesmo capítulo se encerra com outra frase literariamente belíssima. “No futebol, o vencedor comemora e o perdedor justifica. Como na vida. Entretanto, o futebol apresenta um fator muito positivo do ponto de vista psicológico: cada partida, cada temporada, oferece a esperança de um novo recomeço. Reescrever periodicamente o script da vida só é possível no futebol.” E, finalmente, uma última parte, muito elaborada, onde o exame recai sobre o que fala o futebol por meio dos movimentos e gestos.
Esse é, sobretudo, um livro bem escrito. Obra de um pensador que sabe dosar com imenso talento uma citação de Santo Isidoro de Sevilha, do século VI, com uma declaração de um torcedor da Mancha Verde do século XXI. É esse, para mim ao menos, o maior encanto de A Dança dos Deuses, livro impossível de resumir. Qualquer simplificação, como a que estou fazendo, é injusta.
É preciso lê-lo. Quem gosta de futebol, e talvez principalmente quem não gosta. Quem ainda vê esse esporte com olhar vesgo e rançoso tem agora enorme oportunidade de rever as opiniões.
Aos que sempre se interessaram por futebol, não hesito em renovar o que disse antes, porque acho necessário. A dança dos deuses” é livro para qualquer leitor minimamente informado. Para torcedores, enfim. Não é qualquer livro que explica, apenas um exemplo entre muitos, de onde vem a palavra dérbi, empregada no Brasil especificamente para designar e distinguir os confrontos entre Palmeiras e Corinthians e Flamengo e Fluminense.
Eu não tinha a menor idéia. No entanto, passei a vida esperando pelo dérbi.

