As sombras e os destinos de Goeldi
Carta na Escola convidou o artista plástico Fabrício Lopez para elaborar uma oficina de gravura em madeira, técnica preferida de Goeldi. Confira na edição impressa da revista.
Pelas ruas de Oswaldo Goeldi (1895-1961) homens solitários caminham. Trabalham. Encontram a morte. Como escreve o crítico Rodrigo Naves, “por mais que estejam envolvidas em tarefas rotineiras – os afazeres miúdos de prostitutas, pescadores, transeuntes ou ladrões –, as figuras de Goeldi não conseguem ocultar uma solidão de fundo que seus papéis sociais tendem a amenizar”.
Há algo mais contemporâneo? As cidades e homens que o artista desenhou podem pertencer a qualquer lugar, a qualquer tempo. “Isolamento, incomunicabilidade e ausência de sentido mostram-se por meio de formas graves e econômicas”, anota Naves, no livro Goeldi.
É esse universo de figuras encurvadas, vermelhos episódicos, caveiras e urubus que marcará a reabertura do escritório de arte Estúdio Buck, em São Paulo. A partir da quarta-feira 22, o colecionador André Buck mostrará, no espaço, 40 gravuras feitas entre 1927 e 1957 e 14 livros ilustrados por Goeldi.
“Eu herdei, do meu pai, duas gravuras do Goeldi pelas quais eu era apaixonado. Queria comprar outras, mas não conseguia. Até que um dia me ofereceram um lote de 14 gravuras. Comprei e fiquei enlouquecido. Virou mania mesmo”, relata Buck, goeldiano carimbado.
Filho do zoólogo Emilio Goeldi, que veio para o Brasil a convite de dom Pedro II, em 1894, para trabalhar no Museu Nacional, Oswaldo nasceu no Rio de Janeiro, mas aos 6 anos foi morar na Suíça. Apenas aos 24 anos, após a Primeira Guerra e um breve período como guarda de fronteira, nos Alpes, retornou ao Brasil. Já era então desenhista.
Fortemente influenciado pelo austríaco Alfred Kubin (1877-1959), Goeldi exercitou uma criação que ia buscar nos recantos adormecidos da mente, nos pensamentos atormentados, a revelação do real. Foi essa busca que, de maneira contraditória, acabou por levá-lo também à xilogravura. “Comecei a gravar para impor uma disciplina às divagações a que o desenho me levava. Senti necessidade de dar um controle a essas divagações”, declarou certa vez. Para nossa sorte, nunca chegou a controlá-las.

