"Leitura é o coração do currículo"
Para educador espanhol, o currículo deve se abrir à alfabetização audiovisual e desenvolver a competência leitora
O psicólogo espanhol César Coll tornou-se conhecido no Brasil na década passada, quando colaborou com suas reflexões sobre a função do currículo na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), editados pelo MEC em 1998. E para cá tem vindo regularmente, acompanhando os passos e percalços da educação brasileira. Mas sua base de trabalho é a Catalunha, mais precisamente a Universidade de Barcelona, onde é diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva da Faculdade de Psicologia. Por ocasião de sua última passagem pelo Brasil, em agosto deste ano, em entrevista concedida a Ricardo Prado, o educador fala sobre sua maior especialidade, a elaboração de currículos, o papel das novas tecnologias da informação, a leitura na grade curricular e, ainda, destrói um mito: o de que os jovens de hoje não gostam de ler.
Carta na Escola: A legislação brasileira propicia uma grande autonomia pedagógica às escolas, que podem e devem elaborar seus próprios currículos. O papel do governo é apenas sugestivo. Levando-se em conta a diversidade regional e social brasileira, esse aspecto de nossa legislação joga contra ou a favor de um currículo mais significativo?
CÉSAR COLL: Eu conheço a situação brasileira, porque participei da elaboração dos PCNs, como assessor do Ministério da Educação. Sei que os parâmetros não são obrigatórios e a preocupação é se esse caráter sugestivo não poderia gerar currículos muito diferenciados entre si e até contraditórios. Eu diria que esse risco é possível, mas não me preocuparia com isso. Há uma fantasia que muitos legisladores, políticos e até educadores têm: a de que, se tivermos um único currículo obrigatório para todo o País, isso asseguraria que ele fosse adotado na prática. Mas nunca é assim. Na escola, quando o professor fecha a porta da sua classe, só ele e seus alunos sabem o que ali se passa. Na maioria dos países de tradição francófona, com sistemas educativos muito centralizados, os currículos são obrigatórios. E os estudos demonstram que o currículo prescrito não é o currículo real, o que de fato se ensina na sala de aula. Creio que o melhor é que haja um currículo nacional mínimo, que inclua somente as competências básicas e imprescindíveis. De outra forma, como contemplar a extraordinária diversidade humana? De acordo com o contexto e o perfil dos alunos, as necessidades de aprendizagem são diferentes. E um dos instrumentos fundamentais para que se consiga adaptar a realidade dos alunos ao que se deve ensinar são os currículos. E que existam orientações curriculares para aquilo que estiver fora desse núcleo duro do currículo obrigatório mínimo, apoio dos poderes públicos para que os professores adquiram competência técnica e informações para adequar o currículo aos seus alunos. Se não existe esse apoio, os professores se segurarão nos livros didáticos e, assim, o currículo vira o livro didático.
CE: No Brasil, nos últimos dez anos, criou-se uma cultura de avaliação da educação que antes não havia, com o Enade, o Saeb e o Prova Brasil. Afora o governo federal, outros 14 estados da Federação fazem suas próprias avaliações. Mas pouco se consegue fazer além de constatar a precariedade do que é ensinado. Por que é tão difícil estabelecer parâmetros de qualidade?
COLL: Primeiro, é importante dizer que essa cultura de avaliação e a expectativa de que ela venha a melhorar a qualidade dos sistemas educativos são uma tendência mundial que, neste momento, encontramos em quase todos os países. Se observarmos as reformas educativas surgidas a partir das avaliações, vemos que elas têm um erro de partida: quando se constata um resultado, se pensa que é fácil atribuir esse resultado, bom ou ruim, a um único fator, e isso não é possível. Um resultado ruim de avaliação tem a ver com o professor, com o contexto sociocultural dos alunos, com o equipamento, com as estruturas de apoio pedagógico, até mesmo com o número de alunos em cada sala. Quer dizer, o que intervém em cada resultado são muitos fatores diferentes e a dificuldade, técnica e política, é estabelecer um “o que queremos” a partir daqueles múltiplos fatores que influenciam o resultado. Por outra parte, é bom que se diga que avaliações como a do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (feitas com estudantes de 15 anos, de 41 países, nas quais os brasileiros sempre se encontram nas últimas posições) não avaliam o desempenho dos sistemas escolares. O que o Pisa analisa são as competências desenvolvidas por determinados alunos em uma faixa etária específica. Mas essas competências em parte são desenvolvidas na escola e em parte não. A competência leitora de um jovem de 15 anos desenvolve-se tanto na escola quanto fora dela, como conseqüência de um conjunto de fatores. O capital cultural da família, por exemplo, é um dos elementos que estão mais fortemente relacionados com o que se espera como resultado da competência leitora. O resultado deve ser visto como o nível educativo que a sociedade brasileira consegue promover entre seus jovens de 15 anos, incluindo-se aqui a escola, mas não se pode dizer simplesmente se a escola funciona ou não funciona, pois ela é só um dos elementos que contribuem para o desenvolvimento desse tipo de competência. E com as novas tecnologias e a internet, cada vez existem mais elementos educativos ao alcance das pessoas.
CE: Dentre esses vários elementos que podem explicar o mau desempenho dos estudantes brasileiros nas avaliações, eu gostaria de destacar alguns, começando pelo tempo de permanência na escola, que no Brasil é muito baixo. Como isso influencia o mau desempenho dos alunos?
COLL: Todos os estudos que li sobre esse tema são absolutamente convergentes e se resumem numa única frase: o tempo conta. Quanto mais tempo de permanência na escola, maior a probabilidade de bons resultados. Mas não é o tempo em si que conta, e sim o que se faz nele. Apenas o incremento dele não explicaria uma melhora nos resultados.
CE: Em 2005, o poder de compra do salário de um professor, segundo o Dieese, era três vezes menor do que em 1979. Qual o papel que essa degradação tem no quadro geral da educação?
COLL: Não há uma relação direta entre salário e qualidade, embora seja possível afirmar que escassa remuneração, com escasso reconhecimento social, escassa motivação e, portanto, escassa dedicação geram maus resultados. Melhorar os salários é uma condição necessária para melhorar a qualidade da educação, mas não é suficiente.
CE: É possível atrelar o salário do professor ao desempenho de seus alunos?
COLL: Na minha opinião, é preciso motivar os profissionais competentes. Mas como medimos esses resultados? Aqui é que se encontra a cilada. Se medirmos o que os alunos sabem, como fazem normalmente as avaliações, um professor de escola pública que tenha alunos vindos das classes populares, de famílias com escasso capital cultural, terá resultados piores do que um professor que trabalhe em escola privada ou mesmo pública, mas que tenha alunos vindos de famílias mais favorecidas. Vai se pagar menos para aquele primeiro professor? Seria uma total injustiça. Portanto, o que temos a fazer, se quisermos diferenciar os salários gratificando o desempenho do professor, é criarmos uma avaliação dos alunos quando entram no colégio e a progressão que tiveram.
CE: O referencial, neste caso, seria a própria evolução do aluno, a partir do seu ponto de partida?
COLL: Claro, e ao final pode ser que, comparados aos que estavam no princípio da escolarização, esses alunos com pior desempenho tenham tido um progresso espetacular. Portanto, estou de acordo em premiar a eficácia profissional, mas com cuidado. Deve-se pagar mais para quem ensina melhor, mas levando-se em conta o ponto de partida dos alunos.
CE: Em relação às estratégias para desenvolver a competência leitora, na qual se insere o incentivo à leitura, na sua opinião ela deve perpassar o currículo, de maneira transversal, ou deve-se reservar um tempo para a leitura em sala de aula?
COLL: Acho que a leitura deve entrar em todas as disciplinas, não apenas em Língua Portuguesa e Literatura, pois se trata de desenvolver uma competência comunicativa essencial para todas as áreas. Quando se abordam a leitura e a escrita a partir das competências comunicativas, se está atingindo o coração do currículo. Não lemos somente por ler, lemos “para algo”. Isso vale para a escola e para a vida. Lemos para desfrutar, lemos para fantasiar, lemos para nos informar, para aprender; portanto, ler é um instrumento essencial para se aprender Matemática, Geografia, Ciências. A leitura não pode ser descontextualizada, mas sim ligada aos diferentes usos de textos, que possuem intenções determinadas. Não defendo, assim, a “leitura desencarnada”.
CE: Alguns municípios brasileiros estão criando horários de leitura em seus currículos. Qual sua opinião sobre essa estratégia?
COLL: Uma medida desse tipo pode ser útil, por exemplo, em uma fase inicial de um programa de apoio à leitura. Pode ter um efeito de que as pessoas se conscientizem e se motivem para a leitura, mas eu não confiaria nessa medida para obter muitos resultados. O fundamental é o ensino sistemático de usos da leitura, usos autênticos, reais, pois na vida ninguém lê apenas por ler.
CE: Há uma crença de que os jovens, hoje, lêem pouco. O senhor concorda ou vê isso como um mito?
COLL: Sempre haverá aqueles que não lêem nada, adultos ou jovens, mas não acho que os jovens hoje lêem menos. O que se passa é que lêem também outras coisas, estão diariamente diante de uma tela de computador, enviando mensagens pelo celular ou participando de chats. Não podemos tratar o texto escrito como se estivéssemos em um contexto semelhante ao que havia há 50 anos, quando os livros eram praticamente os únicos suportes do texto escrito. E sob o ponto de vista da alfabetização não podemos entender a leitura apenas como ler livros. É preciso entender os diferentes contextos comunicativos e seus diferentes tipos de textos. E tudo isso é leitura!
CE: Embora esse leitor seja, talvez, mais arisco, menos paciente...
COLL: Há muita gente que pensa que, nos novos meios de comunicação, haja um predomínio da imagem e que essa transformação estaria provocando uma série de mudanças cognitivas. Isso poderia significar, talvez, uma menor capacidade de abstração, além de uma série de mudanças na forma de aprendizagem. Mas creio que isso só aconteça a longo prazo. E se isso se sucede, não sei se será melhor ou pior, será uma mudança. Se analisarmos as mudanças que aconteceram nos sistemas de comunicação, ao longo da História, veremos que sempre emergem diversos tipos de fobias. Há textos de personalidades relevantes dos séculos XV e XVI, quando surgiram os primeiros livros impressos, que tratam a invenção da imprensa como uma desgraça. Eles entendiam que a facilidade de acesso aos livros poderia provocar grandes mudanças cognitivas, como diminuição da capacidade de memória das pessoas. E, se pensarmos que ao longo dos tempos houve, sim, mudanças na forma de aprender, muitas delas foram positivas. Naturalmente, algumas formas se perderam, mas sempre surgem outras.
CE: Em relação às imagens, a escola está muito ligada ao texto?
COLL: Sem dúvida, mas pouco a pouco isso vai se transformar, e eu creio que esta é uma das mudanças curriculares que vão acontecer. Por uma parte, há uma linguagem audiovisual que a escola precisaria fazer um esforço para absorver, até porque essas linguagens são tão presentes, hoje em dia, quanto os textos escritos. Mesmo que teoricamente seja discutível, talvez a escola precise pensar em termos de uma alfabetização audiovisual ou, então, como que a alfabetização letrada é influenciada pelo fato de que, nos dias de hoje, raramente os textos surgem sós, desacompanhados de imagens. Há muitos tipos de textos que aparecem com imagens, em suportes multimodais, acompanhados de imagens fixas ou em movimento, além de sons e músicas. Esses vários modos de comunicação que o computador integra atualmente exigiriam uma alfabetização diferente. Nada é novo, todos esses recursos já existiam, mas tê-los juntos é algo novo.
CE: Qual a sua avaliação sobre o papel do educador Paulo Freire? Sua obra continua atual?
COLL: Paulo Freire é um dos grandes pilares do pensamento educativo moderno. Assim como acontece com outros grandes pensadores, como, por exemplo, Jean Piaget, a obra de Freire evoluiu e teve muitos desdobramentos posteriores, novos cenários descortinados por seus seguidores. Muitas de suas idéias foram de tal forma amplificadas que até perderam a paternidade, e não há coisa melhor a acontecer a uma boa idéia do que se transformar em um acervo comum, compartilhado por muita gente. É o que aconteceu com a obra de Freire, em especial sua visão da língua escrita como ação de transformação social e de mobilização.
CE: O senhor diz: “Aquele que ajudar o aluno a avançar, é um professor de construção”. Partindo desta frase, o que, na sua opinião, faz um bom professor?
COLL: Todo aquele que consegue ensinar o outro a aprender é um bom professor. O que faz com que alguém seja um bom professor já é mais complicado, porque para isso intervêm muitas coisas. Penso que todos nós poderíamos ser bons professores porque todos temos a capacidade humana de aprender. O que nos diferencia de outras espécies do reino animal é que não temos de aprender tudo a cada vez. Entre os animais, cada indivíduo precisa reinventar sua cultura, construir seu conhecimento a partir do que a dotação genética da espécie permite. Entre os humanos, felizmente, cada novo indivíduo beneficia-se de tudo o que foi aprendido pelos que o antecederam. E se pode beneficiar porque os humanos podem fazer o que outras espécies não podem. E não é o aprender, porque isso os animais também podem fazer, mas a capacidade de ajudar alguém a aprender. Nesse sentido, acho que a profissão docente tem uma enorme vantagem e raramente nos damos conta disso. É que hoje sabemos muito sobre como as pessoas aprendem e, conseqüentemente, como ajudar as pessoas a aprender. A Psicologia, as didáticas específicas, a sociolingüística avançaram muito neste último século em termos de conhecimento profissional e científico. Sabemos hoje como fazer a criança construir seu conhecimento, como avaliar, como elaborar um currículo, muito mais do que sabíamos há 50 anos.

