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Edição 16

Além das fronteiras

By Deonísio da Silva*

Há 50 anos, o poema Morte e Vida Severina rompeu os limites regionais

O texto a seguir serve de base para uma aula de arte que relata uma experiência de encenar um texto literário. Veja na edição impressa de Carta na Escola.

“Calma ao copiar estes versos/ antigos: a mão
já não treme,/ nem se inquieta: não
é mais a asa/ no vôo interrogante do poema.”

João Cabral de Melo Neto,
O Autógrafo

 
Escrito entre 1954 e 1955, a pedido de Maria Clara Machado, Morte e Vida Severina: auto de natal pernambucano foi lançado em 1956. Em 2006, portanto, o poema completou 50 anos desde que pulou no mundo e ninguém acendeu as velas desse aniversário.

O pernambucano João Cabral de Melo Neto retomava em versos os temas e problemas da denúncia social, transfigurando na poesia a situação desesperadora da realidade nordestina, marcada pelo binômio devastador do latifúndio e da seca, magistralmente tratados na prosa em dois romances emblemáticos, ainda nos anos 30: São Bernardo (1934) e Vidas Secas (1938), do alagoano Graciliano Ramos.

Em São Paulo, Patrícia Galvão, a Pagu, lançava, em 1933, sob o pseudônimo Mara Lobo, Parque Industrial, face urbana, industrial e paulista da temática rural, agrária e nordestina do Romance de 30.

Nos anos 50, a referência de nossas letras já se deslocara do Rio e de São Paulo para outros arquipélagos literários, como o Nordeste e o Brasil meridional, especialmente o Rio Grande do Sul, onde tinham surgido autores como Erico Verissimo, Dyonélio Machado, Mario Quintana e Ivan Pedro Martins, este último objeto da fúria censória com o romance Fronteira Agreste, proibido “em todo o território nacional”. Distribuir livros por todo “o território nacional”, oferecendo-os ao distinto público, seria bem mais difícil...

 Freqüentemente, a inteligência das metrópoles do Rio e de São Paulo é instada a ver o que se passa para além de seus limites e fronteiras de influências, mas, quando o faz, não esconde o ar de soslaio e surpresa, realizando tardiamente os reconhecimentos.

A obra de João Cabral de Melo Neto teria obtido o reconhecimento que granjeou se o autor tivesse ficado no Recife? Convém trabalhar sobre essa hipótese, pois, no ano do lançamento de Morte e Vida Severina, a revelação de romance vem de Minas Gerais, com Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Se os dois autores não dispusessem, como diplomatas, da convivência entre reconhecidos intelectuais do Brasil e do exterior, provavelmente haveria muitas outras pedras no caminho. Benito Barreto, mineiro como Rosa, lançou os quatro romances de Os Guaianãs nas décadas de 1960 e 1970, mas até hoje continua esquecido. Quando, no ano passado, a revista Veja lembrou a literatura dos anos 70, pensou-se que ia, enfim, celebrar o boom literário daqueles anos, mas o fez apenas para falar mal do petista Tarso Genro, desqualificando um livro de poesias que ele tinha lançado em 1977.

O poema de João Cabral ganha o público apenas a partir de 1966, depois de levado aos palcos, nacionais e internacionais, pelo Teatro da Universidade Católica, num périplo que começa por várias cidades brasileiras. Depois do prêmio que arrebatou no Festival de Nancy e da apresentação no Théatre des Nations, em Paris, segue para Lisboa, Coimbra e Porto. Tinha destaque na encenação a música de Chico Buarque de Hollanda. Em 1969, a Companhia Paulo Autran volta a encenar o poema em várias cidades brasileiras. Em 1976, Morte e Vida Severina chega ao cinema pelas mãos de Zelito Viana.

Resumindo, tornou-se quase unanimidade depois que o público, até então reduzido, foi ampliado pelo teatro, pela música e pelo cinema. Unidas à poesia, as três artes deram a Morte e Vida Severina uma dimensão que, provavelmente, o livro jamais teria, pois o brasileiro médio, por motivos óbvios, mais ouve e vê do que lê. 

João Cabral de Melo Neto não gostava de seu poema, referindo-se a ele, não por falsa modéstia, como uma obra menor, opinião que reiterou quando sugeriu ao cineasta Zelito Viana que esquecesse Morte e Vida Severina, principalmente sua música – “impede a lucidez” – e desse mais atenção aos versos de outro poema, intitulado O Rio ou Relação da Viagem Que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade de Recife.

O caminho do rio é o mesmo do retirante Severino: “Para os bichos e rios,/ nascer já é caminhar,/ eu não sei o que os rios/ têm do homem do mar;/ sei que se sente o mesmo/ e exigente caminhar”.

Os homens precisam, entretanto, de mais coisas do que os bichos, e o poeta registra a pobreza das vilas às margens do Capibaribe: “Constam de poucas casas/ e de uma pequena igreja,/ como no Itinerário,/ já as descrevia Frei Caneca./ Nenhuma tem escola;/ muito poucas possuem feira”.

Frei Caneca será depois tema solar de Auto do Frade, em que o poder, devendo ser a alavanca para transformar a realidade e corrigir as injustiças sociais, é concebido como produtor das situações adversas narradas em Morte e Vida Severina, reconhecendo que “o mundo não é uma folha/ de papel, receptiva”, “mas o sol me deu uma idéia/ de um mundo claro algum dia”.

A caminho do Recife, o retirante diz a certa altura: “Pensei que seguindo o rio/ Eu jamais me perderia:/ Ele é o caminho mais certo,/ De todos o melhor guia”. E quando, no caminho, visita um recém-nascido, ouve versos que falam de outras perdas. Numa seqüência desconcertante, as visitas trazem caranguejos “pescados por esses mangues;/ mamando leite de lama/ conservará nosso sangue”. Outra, sem nada, diz que pode oferecer “somente o leite que tenho/ para meu filho amamentar”, que assim mesmo propõe-se a dividir, pois “aqui são todos irmãos,/ de leite, de lama, de ar”. Outra oferece papel de jornal “para lhe servir de cobertor;/ cobrindo-se assim de letras/ vai um dia ser doutor”.

Servindo no Consulado-Geral, em Barcelona, lê na revista El Observador Económico que a expectativa de vida no Recife era ainda menor do que na Índia. Escreve então, entre 1949 e 1950, O Cão sem Plumas, um de seus mais belos poemas, em que o rio Capibaribe continua presente: “Aquele rio/ jamais se abre aos peixes,/ ao brilho,/ à inquietação de faca/ que há nos peixes”.

Mudança essencial, entretanto, está se processando. As oligarquias norte-nordestinas perderam muito da força de impor o voto de cabresto ou de manter os mecanismos que levaram Frei Caneca a ser condenado à morte ou legiões de severinos a ser esquecidos, na literatura ou na vida, ainda que continue em vigor o dito do retirante: “É difícil defender,/ só com palavras à vida”. n


*Deonisio da Silva é romancista, autor de livros como Os Guerreiros do Campo, doutor em Letras e coordenador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá.