Document Actions
Edição 16

Crescer com os erros

By Sócrates

Ter autocrítica é muito importante para mudar os rumos de nossa vida. Quando a bandeira Ana Paula assumiu ter errado ao anular um gol no clássico entre Santos e São Paulo, estava fazendo exatamente isso

O texto a seguir serve de base para uma atividade relacionada à orientação educacional. Veja na edição impressa de Carta na Escola.

Errar é humano! Este é um ditado mais que conhecido por todos nós. Ele, de alguma forma, tenta encobrir as limitações que todos temos, o que sempre gera conseqüências negativas. Muitas vezes nos apoiamos nessa pequena frase para tentar justificar atitudes grosseiras e falhas inexplicáveis, sem nos dar conta ou nem sequer tentar avaliar o que elas podem nos mostrar. A acomodação naquilo que somos em determinado momento nos impede de evitar que esses desvios voltem a acontecer. O que, convenhamos, não é muito inteligente.

Todos nós podemos aproveitar falhas como um lembrete de que é necessário buscar respostas para as nossas incapacidades. Buscar aprender para crescer como profissional e ser humano.

Eu já pensei assim dezenas de vezes, principalmente na minha juventude. A situação mais clara foi quando me preparava para o vestibular, 37 longínquos anos atrás. Recém-saído da adolescência e tendo tido uma dura educação, que incluía grandes restrições às saídas noturnas, já que, inevitavelmente, eu deveria estar em casa às 9 da noite, resolvi que naquele ano faria o cursinho no período noturno para poder ter acesso aos prazeres da noite. Com isso, obviamente, coloquei em segundo plano os meus estudos e a possibilidade de entrar na faculdade que queria.

Passei meses gazeteando as aulas para ir ao cinema, tomar umas cervejas com os amigos ou prestigiar alguma festa de arromba. Só me dei conta de que estava jogando fora a possibilidade de passar no vestibular poucos meses antes de ele acontecer. Tentei, então, recuperar o tempo perdido, mas foi em vão. Mesmo dedicando muitas horas do dia para atualizar meus conhecimentos, não consegui a qualificação necessária para me classificar.

Ao final de cada prova (eram sete e nenhuma eliminatória), no que correspondia à Fuvest de hoje, percebendo que as notas que conquistaria seriam precárias para qualquer pretensão que tivesse, eu me escondia na velha máxima de que errar é humano. Mas a frustração de, alguns dias depois, não ver o meu nome na lista de aprovados devolveu-me à realidade. O choque foi grande o suficiente para uma mudança de conduta. Decidi que investiria tudo o que pudesse no ano seguinte para poder realizar o sonho de estudar em uma grande universidade.

E assim fiz. Resolvi me organizar, algo que até ali poucas vezes conseguira, e montei uma programação diária com direito a conquistar resultados a cada estágio dos estudos que fizesse. O objetivo era atingir o máximo de excelência nas matérias que eu já tinha mais facilidade e conhecimento, tentando alcançar a utópica nota 10, e melhorar o quanto fosse possível naquelas que tinha mais dificuldades.

Passei o ano sem deixar de estudar nem um dia sequer por no mínimo quatro horas e com um grau de concentração absoluto para que pudesse aproveitar ao máximo o tempo disponibilizado. Por outro lado, os fins de semana eram dedicados ao descanso, ao namoro e às festas. Assim eu teria condições de evitar um processo de saturação que só poderia me prejudicar.

Cheguei ao mês de dezembro sem nenhuma dúvida de que entraria na faculdade, graças à confiança adquirida pelo grau de conhecimento conquistado. O primeiro vestibular escolhido foi para a Faculdade de Medicina de Catanduva e me serviria como teste de valor. Os resultados das provas saíam no mesmo dia e todos os concorrentes podiam saber como estavam em relação aos demais. Conquistei o primeiro lugar nas provas de química, física e matemática, o que já permitia antever, mesmo antes das provas finais, que eu me classificaria em primeiro lugar.

E assim aconteceu mais ou menos em todos os vestibulares de que participei, e escolhi a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo para fazer o meu curso. Foi um dos períodos mais felizes que eu tive na vida, fruto da satisfação de ter podido mostrar a mim mesmo que tudo é possível desde que queiramos. Reconhecer um erro é fundamental, mas ter autocrítica é muito mais importante para mudar os rumos de nossa vida.

Quando a bandeira Ana Paula assumiu o seu erro ao anular um gol no clássico entre Santos e São Paulo, ela estava fazendo exatamente isso, o que representa o primeiro passo para que os erros deixem de existir ou se tornem mais raros. Eles até podem ser humanos, mas não podemos aceitá-los resignadamente.