Navegue no esgoto
Projeto leva pais, professores e alunos ao Tietê para engajar escolas na luta pela despoluição do rio
Navegar no rio Tietê não é exatamente um programa tentador, muito menos numa manhã de sábado, com o sol estalando 37ºC. Ainda assim, no último 31 março embarcaram nessa canoa 360 pessoas, entre pais, professores e alunos da escola paulistana Santo Inácio. A missão, paradoxalmente ecológica, estava clara para todos: navegar, durante uma hora e meia, por 10 quilômetros daquele que há mais de seis décadas foi um rio de fato navegável, bem distinto do esgoto a céu aberto que recebe a visita diária de 3 bilhões de litros de detritos.
Divididos em dois grupos de 180 pessoas, os navegantes chegam, em ônibus fretados, às 8h45 e às 10h45, ao Cebolão, na marginal Tietê, onde está aportado o Almirante do Lago, barco de 27 metros de comprimento por 7 de largura. De lá, vão até a ponte Atílio Fontana, principal acesso da capital à rodovia Anhangüera. O roteiro, já percorrido por 4 mil pessoas de escolas públicas e particulares, faz parte do projeto não-governamental Navega São Paulo, que pretende “resgatar a identidade do Tietê promovendo ações educativas com crianças, jovens e adultos”.
Eufóricos com o passeio e acompanhados dos pais, crianças e adolescentes, com idades de 4 a 14 anos, parecem não se incomodar com o mau cheiro do rio. Animam-se para fazer fila e embarcar na segunda navegação do dia. Em meio às demonstrações de consciência ecológica e cidadã, diálogos entre pais e filhos deixam emergir valores típicos da classe média: “Que legal vai ser esse o passeio”, diz o garoto de 8 anos. O pai logo se lembra do porquê de estar ali: “É bom você ver isso, já que quer ser prefeito”. O outro pai acompanhante não se segura: “Imagina esse aqui (referindo-se ao filho), que vai ser presidente. Tem de prestar muita atenção”.
11 horas. Todos a postos, adultos e crianças dividem-se no barco de três andares. No primeiro ficam os pais, acomodados em cadeiras, num ambiente com ar-condicionado. “Vocês estão aqui para olhar o Tietê de forma inusitada e pensar no que podemos fazer para revitalizá-lo. Somos formadores de opinião e precisamos articular ações futuras”, explica a diretora do Santo Inácio, Adriana Cury Sonnewend. Trata-se do primeiro passeio do colégio ao rio, mas o tema preservação do meio ambiente está presente nas atividades de todas as séries, do ensino infantil e fundamental, segundo ela.
Enquanto, no andar de cima, acompanhadas de monitores, as crianças expressam em desenhos a imagem que têm do Tietê, o idealizador do Navega São Paulo, João Quimio Nojiri, dá início a uma apresentação de 45 minutos em que fala sobre a importância histórica do Tietê, mostra exemplos de outros rios despoluídos, como o Sena, em Paris, e tenta “sensibilizar” os pais ali presentes: “Ninguém tem orgulho do Tietê. Temos de levantar a auto-estima do rio”.
Nojiri é engenheiro e sua empresa, a Básico Engenharia e Construções, foi contratada para aprofundar as calhas do Tietê, obra cuja finalidade era evitar as desastrosas enchentes na marginal. Foi nesse trabalho que teve a idéia de explorar o rio como meio de transporte humano e de cargas. Segundo conta, percebeu que antes disso era preciso realizar um projeto educativo por meio das escolas. Em dezembro de 2005, o Colégio Nossa Senhora das Graças, onde estudou, inaugurou as navegações, pelas quais são cobradas R$ 48 por pessoa, incluindo o ônibus da escola até o local do embarque. Salgado, o preço pode ser negociado dependendo do número de alunos e de passeios que a escola pretenda realizar.
11 horas e 45 minutos. Acaba a apresentação e os pais podem circular pelo Almirante do Lago. Sem o teto, é no último andar que se percebe a diferença de estar dentro do rio e não às margens dele. Ali, é possível inalar sem as barreiras de vidro dos carros o cheiro fétido do Tietê. “Todos deveriam sentir o mal que fizeram e que muitos continuam fazendo ao rio”, ressalta Nojiri.
Mas o que, de fato, muda no Tietê tais excursões? A rigor, nada. A não ser a conscientização de que ações governamentais e civis podem dar vida nova ao rio. É nisso, ao menos, que precisa acreditar o marinheiro civil Francisco Dias Bazan, de 59 anos, que acompanha o passeio e monitora o maquinário do barco, um local quente e barulhento onde entra de dez em dez minutos. “Quanto mais limpo ficar, melhor para todos. Inclusive para mim que fico mais na água do que terra.”
Há cinco anos, o tripulante deixou a família em Epitácio Pessoa, interior de São Paulo, para trabalhar nas obras das calhas do Tietê e agora reveza com dois companheiros a guarda do Almirante do Lago. Fica, na maioria das vezes, no turno das 23 às 7 horas. A cada 30 dias tira uma folga de quatro dias e viaja para a cidade natal. O marinheiro já navegou o Tietê “todinho”, diz ele, o que representa 1,1 mil quilômetros, de Salesópolis, na Serra do Mar, onde nasce, até o município de Itapura, na divisa com o Mato Grosso do Sul. Nas águas sujas da região metropolitana, viu de tudo ser retirado do rio: carro, motor de geladeira, arma de fogo, corpos de gente, inclusive mutilados. Mas o que o deixou mais admirado foi uma aliança: “Deve ter dado uma briga feia pro moço atirar o anel aqui”. Hoje, segundo conta, o que ainda se vê é “gente passando de carro e jogando saco de lixo no rio”.
No próprio local de embarque do passeio, garrafas de plástico e lixo orgânico bóiam às margens do Tietê, aviso límpido do cenário que se encontrará no restante do percurso, que deve ser feito a partir de visitas de grupos agendadas. Um programa que não purifica o rio, mas deixa as consciências mais limpas.
Saiba mais
Internet
http://www.navegasp.com.br

