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Edição 16

O PIB cresce, mas não aparece

By Márcia Pinheiro

O IBGE aperfeiçoa o cálculo da produção brasileira, mas o País contunua abaixo da média mundial

O texto a seguir serve de base para uma aula sobre economia e discute um pouco a metodologia de cálculo do PIB. Veja na edição impressa de Carta na Escola.

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 3,7% no ano passado, segundo a nova metodologia de cálculo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelas contas antigas, o aumento havia sido de 2,9%. Não é motivo ainda de comemoração. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), na média, o mundo cresceu 5,1% em 2006. Os países em desenvolvimento cravaram 7,3%.  Na América Latina e no Caribe, o Brasil só se saiu melhor do que Belize (2,7%) e Haiti (2,5%).  Empatou com a Nicarágua (3,7%).

Também não é o caso de leituras políticas do porcentual mais alentado. No fundo, a realidade não foi alterada. Houve apenas um aperfeiçoamento estatístico das contas nacionais. Na nova série do IBGE, com base no ano 2000, o Brasil é a décima economia mundial por ter produzido 2,322 trilhões de reais em bens e serviços em 2006. O PIB per capita teve comportamento mais tímido, com aumento de 2,3%, para 12.437 reais.

A velocidade das mudanças na produção e no consumo contemporâneo explica o motivo pelo qual o IBGE alterou a metodologia do cálculo do PIB. Até o ano passado, as contas do montante que o País produziu baseavam-se, principalmente, no Censo Econômico de 1985 e na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 1995/96. Todos sentem, no próprio bolso, que as despesas pessoais, das empresas e do governo mudaram de perfil nos últimos 20 anos.

Os exemplos são variados: televisão por assinatura, antena parabólica e banda larga, por exemplo, fizeram crescer o setor de Serviços na composição do PIB. Conforme análise da LCA Consultores, foram incluídas nas contas, sob a ótica da oferta, serviços de armazenamento, atividades de informática, serviços cinematográficos, de vídeo e de rádio e televisão. Mudou, portanto, a ponderação, o peso, do que a economia começou a oferecer à população.

O Brasil econômico passou a ser, fundamentalmente, um país dedicado a atividades ligadas a comércio, transportes, informação e intermediação financeira. A participação do setor no PIB subiu de 56,3%, pelo cálculo antigo, para 66,7% pelo novo. O crescimento foi de 3,7% em 2006, ante os 2,4% estimados anteriormente. Na avaliação de Rebeca Palis, gerente da equipe técnica que recalculou o PIB, o grande destaque foi o crescimento do setor financeiro. Subiu 6,1% no ano passado, depois de ter avançado 6,5% em 2005, principalmente em razão do aumento da oferta de crédito.

Já a agropecuária emagreceu. O peso no produto nacional caiu de 7,7% para 5,6%. No entanto, o setor mostrou mais vitalidade no ano passado. Pela nova série do IBGE, cresceu 4,1%, quase um ponto porcentual a mais do que o registrado nos cálculos anteriores.

A indústria também viu cair a participação no PIB, de 36,1% para 27,1%, algo que vem sendo sistematicamente alertado pelos representantes do setor. Em 2006, o crescimento da indústria brasileira foi revisado de magros 3% para menores 2,8%. Na visão do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o subsetor mais afetado foi o da indústria de transformação, cujo crescimento revisado caiu de 1,9% para 1,6%. “O coração da economia, que ainda é a indústria, pulsou pouco em 2006 e ainda não há sinais de significativa dinamização em 2007”, dizem os economistas do Iedi.

O fenômeno da desindustrialização brasileira deve-se ao lento ajuste da taxa básica de juro (Selic), que não acompanha a melhora das demais variáveis macroeconômicas do País, na avaliação do instituto. Mas, se o Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central precisava de um motivo para ser mais agressivo, as novas contas do IBGE trazem uma boa nova. Os investimentos cresceram 8,7% no ano passado, ante a estimativa anterior de 6,3%. Não há, por ora, por que se preocupar com gargalos na produção, que possam pressionar a mais inflação.