Ainda no beco sem saída
Bush Jr. insiste na guerra, mas o Congresso reclama outra política
Na segunda-feira 9 de abril, dezenas de milhares de manifestantes, convocados pelo líder xiita Muqtada al-Sadr, marcaram o quarto aniversário da queda de Saddam Hussein com uma enorme passeata pela cidade sagrada xiita de Najaf, para exigir a saída das tropas anglo-americanas.
O mais espantoso foi ver sunitas e xiitas marcharem juntos sem incidentes violentos, apesar da tensão assinalada pela proibição da circulação de veículos, por 24 horas, nessa cidade e em Bagdá. Não foi surpresa alguma, por outro lado, ouvir os representantes da ocupação se esforçarem por apresentar a manifestação como prova de seu sucesso, se não como incentivo a permanecer por mais tempo. Disse à Reuters um de seus porta-vozes, o coronel Steven Boylan: “Os iraquianos não poderiam ter feito isso há quatro anos. Isto é o direito de reunião, o direito à livre expressão. Eles não tinham isso sob o regime anterior. Isso é progresso, não há duas maneiras de ver isso”.
Deveria haver alguma maneira de lembrá-lo de que já é de 1 milhão o número de iraquianos impedidos de se manifestar por terem sido mortos na invasão ou devido à ocupação, segundo a estimativa divulgada em março pelo australiano Gideon Polya, médico e editor do site MWC News. Outros 2 milhões estão privados de se reunir ou se expressar em seu país por terem sido obrigados a se refugiar no exterior, a maioria deles na Jordânia e Síria. Isso não inclui 1,8 milhão expulsos, por conflitos sectários, de seus lares para outras regiões do Iraque.
No Ocidente, há pouca consciência desses números e de seu impacto nesse país que tinha 24 milhões de habitantes às vésperas da invasão. Muito mais conhecido – e mais influente nos resultados eleitorais estadunidenses – é o número de soldados das forças de ocupação mortos nestes quatro anos: 3.558 até 11 de abril, 3.294 dos quais pertenceram ao Exército americano e 140 ao britânico.
A média aumentou de 2,4 mortes de soldados por dia, entre as eleições de dezembro de 2005 e janeiro de 2007, para 3,2 desde o início de fevereiro, quando Bush júnior anunciou a escalada (“surge”) da intervenção no Iraque. O jornal New York Times disse ter diminuído o número de vítimas encontradas a cada dia nas ruas de Bagdá, tudo indica que a violência no resto do país continua a aumentar. E, em 11 de abril, um homem-bomba explodiu no refeitório do Parlamento, dentro da superprotegida “Zona Verde” do centro de Bagdá. Matou oito pessoas, inclusive dois deputados, e feriu mais de 20 congressistas.
Idem quanto ao envolvimento dos EUA. Em 11 de abril, o secretário da Defesa, Robert Gates, anunciou a extensão de 12 para 15 meses do serviço no Iraque e Afeganistão prestado pelos soldados do Exército. Mais 13 mil membros da Guarda Nacional serão, em breve, notificados de que servirão no Iraque neste ano. Ao mesmo tempo, diz o jornal The Washington Post, três generais da reserva convidados a coordenar as políticas do Pentágono e Departamento de Estado no Iraque e Afeganistão em um novo cargo no Conselho de Segurança Nacional rejeitaram a oferta. “A questão é que os militares não sabem para onde diabos vão”, disse um deles ao jornal.
Já o primeiro-ministro do precário governo títere de Bagdá, Nuri al-Maliki, em visita ao Japão para pedir recursos, declarou que cabe a seu governo pedir a retirada quando a segurança estiver garantida e não há necessidade de um cronograma que determine a data exata. Admitiu, entretanto, que “pedir a retirada das tropas é um direito democrático que respeitamos e que está sendo praticado por organizações dentro do Iraque e pelo Congresso dos Estados Unidos”.
Seja qual for a importância que Al-Maliki atribua às manifestações de seu povo, deveria saber que o Legislativo de Washington tem mais recursos à disposição que o mero jus sperneandi. Em março, tanto o Senado quanto a Câmara condicionaram a um cronograma de saída obrigatório a aprovação de 100 bilhões de dólares em créditos extraordinários para continuar a guerra. O problema é que as casas definiram datas diferentes: 31 de março de 2008 no projeto do Senado, 1º de setembro do mesmo ano na versão da Câmara. Grande parte do tempo das lideranças do Legislativo tem sido dedicada a chegar a um acordo sobre o cronograma.
A equipe de Bush júnior, por sua vez, ameaçou quase todo dia vetar qualquer lei que cobre prazos. “Não se trata de uma negociação”, disse seu porta-voz, Dana Perino. Mas Harry Reid, líder democrata no Senado, pensa de outra maneira: “Vamos dar uma lei ao presidente. Se ele quer financiar as tropas (sob essas condições), isso é com ele”. Na terça-feira 10, o presidente convidou os congressistas a se reunir com ele na Casa Branca para discutir uma lei livre de “cronogramas artificiais”. No dia seguinte, Reid e três outros líderes democratas do Senado – com o apoio de Nancy Pelosi, a presidente democrata da Câmara – recusaram o convite em carta aberta e propuseram que, em vez disso, vá o presidente conversar com eles no Capitólio.
Nancy já iniciou uma diplomacia alternativa do Congresso no Oriente Médio: atropelou Condoleezza Rice com uma visita de dois dias à Síria, diariamente acusada de apoiar a resistência no Iraque, de apoiar o terrorismo do Hamas e do Hezbollah no Líbano e em Israel e de ser um dos membros do “eixo do mal”. A deputada se expôs à ira do American Enterprise Institute e de comentaristas conservadores, que a acusaram de violar a Constituição ao criar um “governo paralelo”, ou mesmo, na opinião de The Conservative Voice, de liderar uma “insurreição” a ser punida com impeachment e prisão.
Mesmo assim, o deputado Tom Lantos, sobrevivente do Holocausto que acompanhou Nancy nessa viagem, disse já estarem ambos prontos para visitar o Irã, apesar de a Casa Branca objetar e voltar a acusar Teerã de “interferir no Iraque com armas e treinamento que estão sendo usados para matar nossos soldados”.
Compreensivelmente, os democratas gostariam de fazer algo para amenizar a confusão que provavelmente herdarão de Bush júnior no início de 2009. Os esforços transmitem ao eleitor a mensagem de que a oposição acredita na diplomacia para abordar a crise do Oriente Médio, possivelmente em negociar com Síria e Irã para estabilizar o Iraque, como sugeriu o relatório bipartidário Baker-Hamilton, do Congresso, em 2006.
Não está claro, porém, como os democratas poderiam contribuir para superar os impasses do momento. É possível que a divergência entre os dois poderes leve as demais partes – inclusive Israel – a esperar a definição do próximo ocupante da Casa Branca antes de pensar em negociações sérias.
Enquanto isso, a crise do Irã se agrava. No dia 5, Teerã libertou os 15 marinheiros britânicos que capturara por violar suas águas territoriais, possivelmente em troca de um diplomata iraniano seqüestrado em Bagdá e também libertado, um e outros, vale anotar, disseram ter sido maltratados pelos respectivos captores – o iraniano teria sido torturado dias seguidos pela CIA, os britânicos, aterrorizados com ameaças de fuzilamento.
Mas no dia 7, em aparente represália à não libertação de cinco outros diplomatas iranianos capturados no Iraque, Teerã baniu de seu espaço aéreo o avião de Nuri al-Maliki, a caminho do Japão, obrigando-o a pousar em Dubai para fazer um novo plano de vôo. Dois dias depois, o presidente Mahmoud Ahmadinejad anunciou que o Irã iniciava a produção de combustível nuclear “em escala industrial”, operando cerca de 3 mil centrífugas e planejando instalar um total de 50 mil.
O anúncio foi posto em dúvida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rússia e França, mas marca a posição do Irã de não ceder à pressão. E as sanções da ONU têm eficácia limitada. A usina iraniana de Bushehr, cuja construção, suspensa pela Siemens em 1979, foi retomada por meio de parceria com a Rússia em 1995, está 92% completa e deve ser inaugurada em março de 2008, apesar dos atrasos devidos à suspensão do fornecimento de componentes por terceiros países que aderiram às sanções.
É verdade que Moscou ameaçou, em meados de março, deter sua colaboração na construção do reator de Bushehr, mas foi por desentendimentos sobre pagamentos mensais de 25 milhões de dólares devidos por Teerã desde janeiro e não a uma tentativa de intimidar o Irã a abandonar seu programa nuclear. A Rússia pressiona Ahmadinejad a permitir que a AIEA inspecione suas centrífugas e se certifique de que o urânio não está sendo enriquecido a ponto de poder ser usado em armas nucleares, mas também defende o direito do Irã a possuir essa indústria.
Um dos iranianos impedidos de sair de seu país por estar relacionado ao programa nuclear, o vice-ministro das Relações Exteriores e general da Guarda Revolucionária Mohammed Baqer Zolqadr, visitou a Rússia, de 4 a 9 de abril, oficialmente para negociar acordos de cooperação relativos à administração de catástrofes naturais e controle de fronteiras – embora a Rússia, junto com os outros membros do Conselho de Segurança, tenha aprovado essa sanção em 24 de março.
Segundo Radzhab Safarov, diretor do Centro de Pesquisa sobre o Irã em Moscou, o alcance da visita foi muito mais amplo: tratou-se de trocar informações sobre um possível ataque militar ao Irã que estaria sendo preparado pelos EUA, Reino Unido e Israel e discutir a coordenação de ações com a Rússia, que está interessada em evitar a desestabilização do país e cujo presidente, Vladimir Putin, atacou o intervencionismo de Washington na Conferência de Segurança de Munique, em 10 de fevereiro.
Moscou queixou-se, porém, dos exercícios de 6 de abril da artilharia antiaérea iraniana, perto da usina em construção: assustaram os 2 mil trabalhadores russos que, desprevenidos, chegaram a pensar que os dois porta-aviões estadunidenses no Golfo, ou Israel, haviam iniciado um ataque real.
Israel, por sua vez, parece depositar muitas esperanças na visita de Robert Gates, na terça-feira 17, para superar os desentendimentos na área militar que datam de 2005, quando Washington impôs restrições à transferência de tecnologia de ponta a Tel-Aviv e à sua participação no projeto do Caça de Ataque Conjunto (JSF, sigla em inglês), devido à venda de equipamento israelense à China – apesar de Israel se queixar, igualmente, da venda de armas dos EUA à Arábia Saudita e Emirados do Golfo.
Mas a visita cheira a abraço de afogados. O ocupante da Casa Branca é cada vez mais um “pato manco” (lame duck), ou seja, um presidente desprestigiado e em fim de mandato. E Israel também está em crise.
O presidente Moshe Katsav está suspenso para responder a acusações de estupro. O primeiro-ministro Ehud Olmert lidera um partido e um governo que perderam o rumo com a incapacitação de Ariel Sharon e o prestígio com o fracasso militar no Líbano, investigado por uma CPI. Em dificuldades para negociar tanto com os palestinos – apesar do longo bloqueio que impôs ao governo do Hamas – quanto com seus próprios radicais, parece não ter mais uma visão estratégica. Sua proposta de conferência regional com a Liga Árabe, como alternativa ao plano de paz dos EUA, foi desdenhada como tentativa de normalizar relações sem pagar qualquer preço por isso. Se a diplomacia dos democratas em Damasco é precoce demais para ter efeitos positivos, a dos republicanos e de Tel-Aviv não faz mais que se embrenhar em um beco sem saída.

