O Ibope na sala de aula
Programa ajuda professores a transformar as técnicas de opinião adotadas pelo grupo de pesquisa em instrumento pedagógico
Em 2006, durante a semana do adolescente na Escola Estadual João Dias da Silveira, em São Paulo, a professora de Matemática Dirce Noriko Okko aproveitou a discussão de temas levantados entre os alunos para propor uma pesquisa de campo. O assunto em questão, gravidez na adolescência, estava presente no cotidiano dos alunos – à época havia quatro garotas grávidas no colégio – e atraiu, no primeiro momento, o interesse de toda a sala.
Os estudantes, então, saíram a campo: entrevistaram cerca de 300 pessoas, entre alunos da própria escola, vizinhos do bairro e passageiros do Metrô. Mas, para chegar às conclusões finais da pesquisa, fizeram um trabalho mais amplo do que apenas colher depoimentos.
Tudo começou com discussões em sala de aula, em que os alunos se aprofundaram no tema gravidez na adolescência para elaborar um questionário. Só depois que todas as perguntas e as respectivas opções de respostas foram definidas, com o auxílio da professora, os estudantes saíram a campo. “Alguns alunos demonstraram grande interesse: montaram uma espécie de teatrinho e participaram também de oficinas para apresentar a experiência a outras escolas, onde fizeram até demonstrações de como usar camisinha corretamente”, lembra a professora Dirce.
Para que a atividade alcançasse um resultado pedagógico adequado, a professora aplicou o programa Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião (Nepso) – iniciativa do Instituto Paulo Montenegro (IPM), do Ibope, em parceria com a ONG Ação Educativa –, que tem o objetivo de utilizar as pesquisas de opinião como um instrumento pedagógico a ser trabalhado com os alunos dos Ensinos Fundamental e Médio.
Lançado em 2000, com projetos piloto em escolas da rede pública de São Paulo e do Rio de Janeiro, o Nepso foi ampliado. Criaram-se os chamados pólos multiplicadores para outros municípios brasileiros que são divulgadores da metodologia para novas escolas, também responsáveis pela formação dos professores e pela assessoria durante a execução dos projetos. Atualmente, estão presentes em sete estados brasileiros (Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro) e no Distrito Federal, quatro países da América Latina (Argentina, Chile, Colômbia e México) e, na Europa, em Portugal.
Técnicas do Ibope
A diretora-executiva do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, explica que a primeira etapa do programa aplicado nas escolas – referente à escolha do tema – é fundamental para o sucesso do trabalho: “O professor é orientado para debater os diversos interesses dos alunos e escolher o tema de forma democrática”.
Na fase seguinte, ocorre a qualificação do tema: apura-se o que os alunos já sabem sobre o assunto e complementa-se o conhecimento deles com pesquisas em livros, revistas, jornais e na internet. Além disso, dependendo do projeto, consultas a professores de outras matérias também servem de suporte pedagógico, o que reforça o caráter multidisciplinar do programa.
A próxima etapa é a elaboração de um questionário, em que os próprios alunos criam as perguntas e as opções de resposta. Um processo que deve levar em conta o que os alunos querem saber sobre o tema e as prováveis respostas dos entrevistados. “É nesse processo que se percebe que é muito mais fácil responder do que formular uma pergunta”, ressalta Ana Lúcia.
Simultaneamente, ocorre a definição do grupo de pessoas a ser entrevistado. Geralmente são colegas, pais ou pessoas da comunidade. “Isso afeta, inclusive, o tipo de vocabulário, de pergunta e o tom que vai ser dado ao questionário. É um exercício de como adaptar a linguagem para os diferentes públicos”, explica Ana Lúcia. A recomendação dada aos educadores é a de que os questionários contenham apenas perguntas com respostas fechadas e que não seja muito extenso, para que não dificulte a apuração dos resultados.
Com o caderno de perguntas pronto, os alunos realizam um pré-teste com um grupo pequeno para checar se não esqueceram de alguma pergunta e se as alternativas das respostas estão adequadas, para ajustes finais antes de ir a campo efetivamente. Realizadas essas etapas iniciais, é hora de ir às ruas.
Assim que voltam de campo ocorre a tabulação dos dados, etapa em que os alunos calculam a porcentagem das respostas. Nesse momento, é comum os estudantes receberem apoio do setor de Matemática. É, também, uma oportunidade para inserção de conceitos como proporções, regra de três e manuseio de gráficos, que os auxiliam nos cálculos dos resultados.
Depois dos cálculos vem a análise das respostas. “Pedimos que não deixem que esses relatórios fiquem simplesmente na forma descritiva, ou seja, tantos por cento acham uma coisa e só. É importante a interpretação desses dados, o porquê de determinados grupos responderem com mais freqüência uma coisa e não outra”, detalha a diretora do IPM.
Na parte final do trabalho, os alunos fazem uma apresentação pública, para a classe, a escola inteira ou até para a comunidade, e expõem as conclusões da pesquisa. Em cidades menores, os estudantes conseguem até mais visibilidade, pois chegam a fazer apresentações em igrejas, na prefeitura e em praças. Com isso, os entrevistados têm a chance de ver o resultado daquilo que responderam.
Os temas mais recorrentes nas pesquisas são: violência, drogas, sexualidade, meio ambiente, trabalho e saúde. Os tempos de duração de cada projeto são flexíveis, de acordo com a necessidade do grupo e do tema. No caso do trabalho de gravidez na adolescência, da professora Dirce, começou em abril e encerrou em novembro.
Os números dão a dimensão do sucesso do projeto. De acordo com o último levantamento, de 2006, participaram do Nepso 4.186 alunos, 273 professores, 94 escolas e instituições, em um total de 160 pesquisas realizadas. São Paulo e Rio Grande do Sul são os estados com o maior número de participantes. Segundo Ana Lúcia, a divulgação atualmente já é quase feita pelo boca-a-boca. “À medida que os professores experimentam e gostam, tornam-se os melhores porta-vozes para trazer novos colegas e envolver mais pessoas. A principal característica do projeto é que ele é absolutamente feito por opção, não é implantado de cima para baixo”, diz. “Os que vêem que aquilo vai contribuir no contexto das aulas que ele planejou aderem. E levam adiante.”

