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A força do que está ao alcance de todos

By Redação

A responsabilidade também é do poder público e das empresas, mas ir além da mera consciência e efetivamente mudar atitudes diárias é mais do que desejável. É fundamental

Sabemos o que acontece com o   planeta, sabemos que é preciso   mudar e já deveríamos estar   em processo de mudança.   Por que, então, parece tão difícil   modificar nossos hábitos   em favor do futuro do planeta? Evidentemente,   alterar o curso de ações globais   que minam o equilíbrio ambiental ou,   ao menos, adiar o desastre completo depende   de decisões conjuntas de governos   e empresas, os principais responsáveis   pelos danos ambientais. Mas, para a   equação ficar completa, é preciso envolver,   também, atitudes que estão ao alcance   de cada indivíduo.

São medidas   mais simples do que se imagina.   “A sociedade contemporânea chegou   a um momento de inflexão. Está evidente   que o padrão de consumo e produção   é inviável”, explica a coordenadora do   Programa de Consumo Sustentável do   Centro de Estudos em Sustentabilidade   da Fundação Getulio Vargas, Rachel Biderman.

Os resíduos que a Terra não   consegue processar voltam na forma de   poluição, doenças, contaminação da   água, aquecimento global, destruição de   ecossistemas e desaparecimento de espécies.   “O desafio é mudar e adaptar o atual   modelo produtivo e de consumo”, diz.  

Se atuar diretamente no arranjo político   entre nações é impossível para o   cidadão comum, o impacto de pequenas   mudanças de hábito é   maior do que se pensa.   Dar um passo além da   mera consciência e efetivamente   mudar de atitude,   economizar água e   energia, usar melhor o automóvel,   escolher melhor   a comida e pensar no destino   do lixo é mais do que   desejável. É fundamental.   “Pequenas determinações, se regulamentadas,   trariam muitos benefícios.

Por   exemplo, deveria ser estipulado o consumo   máximo de energia no modo stand by   dos aparelhos eletrônicos”, aponta Lisa   Gunn, socióloga e gerente de informação   do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor   (Idec). Em stand by, o gasto de   energia chega a alarmantes 25% do total   usado quando o aparelho está ligado. “Cidadania   não se limita a fechar a torneira.   Cidadania é cobrar”, diz Lisa.   A ligação entre meio ambiente e sociedade   também é profunda e intrincada.   Ladislau Dowbor, pesquisador   do Núcleo de Estudos   de Futuro da PUCSP,   diz que esse é um enorme   desafio para o Brasil:   “A desigualdade está intimamente   ligada ao meio   ambiente. É difícil falar   para quem não tem saneamento   básico não poluir   uma represa, ou para o pobre   comprar uma geladeira mais econômica   e mais cara. Nas grandes cidades,  por exemplo, a escassez de empregos na   periferia obriga grandes massas a grandes   deslocamentos para trabalhar”.

O Instituto Akatu pelo Consumo Consciente  é referência em como mudanças   de hábitos de consumo afetam meio ambiente   e sociedade. Hélio Mattar, diretor presidente,   explica a filosofia: “Sempre   haverá impactos no consumo e nós buscamos   o equilíbrio entre eles”.   Mattar defende a importância das   mudanças individuais. “Cada um acha   que seu impacto é pequeno, mas não é.   Um único automóvel a gasolina, que   rode 20 quilômetros ao dia, por um ano,   emite uma quantidade de CO2 que precisaria   de 260 árvores em crescimento   para ser anulada”, dimensiona.  

O Akatu tem iniciativas de consumo   consciente, como uma cartilha   em que propõe atitudes e mostra   as conseqüências. “Consumir   menos é uma das maiores   contribuições que se podem   dar”, resume Mattar, e pondera:   “É claro que dá trabalho mudar   de hábitos. Ser consciente exige   uma dose extra de atenção. Antes   de comprar, vale se perguntar:   ‘Preciso mesmo disso?’”   A distância entre ter consciência   de impactos do consumo e   mudar hábitos é alimentada, em   parte, pela idéia de que se perderão   conforto e facilidades. Não é   o caso, diz Mattar. “Não é preciso   abrir mão de bem-estar. É perfeitamente   possível tomar um banho   mais curto e ficar igualmente   limpo. Em alguns casos, mudar pode   dar trabalho no início, como buscar   transporte público, mas a longo prazo há   compensações”, diz. E provoca: “Também   é preciso ser dito que, se você não   muda de hábitos e não mobiliza outros   nessa direção, certamente vai viver em   um mundo pior. Mais destruído e mais   violento. Cada gesto consciente é também   um ato de solidariedade”.   A seguir, cinco mudanças de hábitos   acessíveis a qualquer um e os efeitos   diretos. As informações são do Instituto   Akatu (da cartilha Sou Mais   Nós), do Idec e também da ONG ambientalista   Greenpeace. 

ECONOMIZAR ENERGIA

Decretado o fim do ciclo   dos combustíveis fósseis   para a geração de energia,   a busca de novas fontes   energéticas é o desafio   seguinte. Na escala   individual, reduzir o consumo de energia   elétrica, além de relativamente simples,   traz o benefício de baratear despesas,   já que a eletricidade tende a se tornar   um serviço cada vez mais caro.   Uma série de dicas elaboradas pelo   Greenpeace sugere usar sempre a lavagem   de roupas a frio (economiza 92% de   energia), evitar máquinas de secar, usar   iluminação natural ao máximo e trocar   lâmpadas incandescentes por fluorescentes,   entre outras pequenas atitudes.   Em uma residência, o chuveiro elétrico   é o equipamento que mais gasta   energia. Uma estimativa do Akatu   aponta que quem reduz a ducha diária   de 12 para 6 minutos, economiza, por   dia, energia suficiente para manter   uma lâmpada acesa por sete horas. 

De acordo com o Idec, a substituição   dos chuveiros elétricos por aquecimento   solar possibilita a diminuição de 30%   a 50% na conta de energia do consumidor   residencial. A energia elétrica para   aquecimento de água corresponde a 6%   do consumo nacional, o dobro do destinado   à iluminação pública. O Idec destaca   que a Caixa Econômica Federal tem   linhas de crédito para aquisição e instalação   de equipamentos de aquecimento   solar certificados pelo Inmetro.  

A Associação Brasileira de Refrigeração,   Ar Condicionado, Ventilação e   Aquecimento (Abrava) tem dados sobre   aquecedores solares de água no Brasil.   No fim de 2005, havia cerca de 2,8 milhões   de metros quadrados de aquecedores   solares no País. Em 2006, foram adicionados   430 mil metros quadrados, totalizando   3,2 milhões de metros quadrados   de coletores solares. A metragem   aquece a água de 670 mil domicílios,   apenas 1,25% do total de residências   brasileiras. Ainda de acordo com a Abrava,   a área de coletores solares instalada   no Brasil evitou a emissão anual de mais   de 200 mil toneladas de CO2 na atmosfera   do planeta e retirou do horário de   pico a demanda energética equivalente   a uma usina hidrelétrica de 550 megawatts   (suficiente para iluminar uma cidade   de 2 milhões de habitantes).

USAR MENOS ÁGUA 

Hoje em dia, metade da   população mundial –   mais de 3 bilhões de habitantes   – enfrenta problemas   de abastecimento de   água. Embora o Brasil tenha   uma situação privilegiada em relação   à água, o abastecimento e o saneamento   básico ainda não são universais e   muitas fontes estão poluídas ou secaram.   A ONU estima que, no mundo, o suprimento   de água vai diminuir um terço em   20 anos, devido ao aumento da população,   à poluição e às mudanças climáticas.   No Brasil, o uso doméstico da água   consome cerca de 10% do total. De acordo   com o Greenpeace, o consumo médio   diário do brasileiro é de mais de 300 litros.   Novamente, pequenas observações   baixam o consumo. Desde obviedades como   consertar vazamentos, fechar a água   enquanto se escova os dentes, ou enquanto   se ensaboa no banho, até trocar a descarga   de válvula pela de caixa (optando   pela de 6 litros, mais moderna). 

De acordo com o Akatu, lavar louça   por 15 minutos com a torneira aberta   gasta 240 litros de água. Ao usar uma bacia   com água para ensaboar a louça e a   torneira somente no enxágüe, economizam-   se 160 litros de água. A economia é   ainda maior com duas bacias, uma para   ensaboar, outra para enxaguar. Assim,   apenas 20 litros de água lavam uma louça.   Se 1 milhão de famílias fizerem o   mesmo, a economia será suficiente para   abastecer 3 milhões de brasileiros.  

RECICLAR 

A maneira mais simples   de notar a importância   da reciclagem é pensar   no que acontece com o   lixo que se joga fora diariamente.   Para onde   vai? De acordo com o IBGE, em 64% dos   municípios brasileiros, é depositado em   locais sem nenhum controle sanitário ou   ambiental. Os resíduos sólidos, ao serem   decompostos, geram gases, principalmente   o metano, que é tóxico, e o CO2.   O lixo contamina o solo, o ar, as águas de   rios e lençóis freáticos, e, além disso, é um   problema de Saúde Pública por proliferar   parasitas causadores de doenças. 

Para ter idéia, em São Paulo, o saquinho   de supermercado corresponde a 40%   das embalagens jogadas fora. Leva 450   anos para se decompor e ocupa de 15% a   20% do volume de um lixão, embora corresponda   a apenas de 4% a 7% de sua   massa, informa o Akatu. Levar a própria   sacola ao supermercado é uma das mudanças   de hábito capazes de fazer diferença.   Procurar produtos com refil, recusar   embalagens desnecessárias, evitar comprar   objetos de plástico e reutilizar embalagens   de vidro e potes também ajuda.   No Brasil, o índice de reciclagem de   alumínio é maior que 90%.

A marca impressiona e, para   entendê-la, é preciso levar em conta que   coletar latinhas tornou-se fonte de renda   para quem não encontra oportunidades   no mercado de trabalho. Por trás dos   índices de reciclagem de papelão está   outra figura desprivilegiada, o catador.   De acordo com a Cáritas e o Movimento   Nacional dos Catadores de Recicláveis,   há 800 mil catadores no Brasil, cuja   renda média é de 1,5 salário mínimo.   O Compromisso Empresarial pela Reciclagem   (Cempre) calcula que, dentre os   327 municípios que reciclam, 43,5%   dos programas têm relação direta com   cooperativas de catadores.  

USAR O CARRO DE MODO RACIONAL  

 A cada quilômetro   rodado, um   automóvel lança   no ar 430 gramas   de dióxido de   carbono, 2 gramas de monóxido de carbono   (CO), que reduz a capacidade do   sangue de transportar oxigênio, e 0,6 grama   de óxido de nitrogênio (NOx), que irrita   olhos e nariz e pode provocar enfisema   pulmonar. O principal responsável   pela poluição nas grandes cidades é o   transporte. Deixar de usar o carro um dia   por semana (considerando um percurso   diário de 20 quilômetros), poupa emitir,   em um ano, cerca de 440 quilos de CO2.   Há alternativas para amenizar o impacto   dos automóveis.

Desde o rodízio   de veículos – como o de São Paulo ou   Bogotá nos horários de pico   – até o pedágio urbano   utilizado em Londres, Estocolmo   e Cingapura. O   valor cobrado do motorista   que queira circular em determinadas   áreas da cidade   é usado para novos investimentos   em transporte coletivo.   No centro de Londres,   por exemplo, as calçadas   foram alargadas para   receber mais pedestres.  

No âmbito individual, simples observações   já amenizam o impacto do automóvel.   Parece trabalhoso, mas é possível   oferecer e pegar carona com vizinhos e   colegas de trabalho. Se o carro for imprescindível,   prefira motores econômicos,   prefira o álcool à gasolina, use o ar-condicionado   apenas se realmente for necessário,   mude as marchas no tempo certo e,   por fim, mantenha o motor do carro   bem regulado, assim como a pressão dos   pneus, o alinhamento e o filtro de ar.  

CONSUMIR MENOS CARNE

 O consumo de carne   bovina tem forte   impacto ambiental   por, ao menos, duas   razões. O rebanho   bovino cresce todos   os anos e exige a abertura de grandes extensões   de terras para pastagem. Um estudo   do Banco Mundial aponta que, nos   anos 90, a pecuária foi a maior causa de   desmatamentos da região amazônica.   Também é preciso levar em conta as   emissões de metano. Herbívoros ruminantes, como bois e carneiros, produzem   metano no processo digestivo.

As emissões   globais geradas a partir da digestão   desses animais são estimadas em 80 milhões   de toneladas ao ano, o equivalente   a cerca de 22% das emissões de metano   geradas por ações provocadas pelo homem.   No Brasil, 68% da pecuária é de   bovinos (87% de corte e 13% de leite),   com pouco mais de 163 milhões de animais   em 1998, de acordo com o IBGE. O   rebanho bovino brasileiro é considerado   o maior do mundo com fins comerciais.   É crucial evitar o desperdício de qualquer   tipo de alimento. De acordo com o   Akatu, uma família de classe média joga   fora cerca de 500 gramas de alimentos   por dia. Em 20 anos, essa perda equivale   a 3,6 toneladas de comida.   A quantidade desperdiçada   seria suficiente para   fornecer um quilo de alimento   diário a uma criança   do zero aos 10 anos. Se   1 milhão de famílias reduzirem   pela metade esse   desperdício, 90 mil toneladas   de comida serão economizadas   por ano, o bastante   para alimentar 260   mil famintos.