Painel do descaso
Os murais Guerra e Paz, feitos por Portinari para a sede da ONU, há 50 anos, nunca foram devidamente inaugurados
Candido Portinari sabia que as tintas seriam fatais. Mas o que era a ameaça de intoxicação diante da idéia de construir, em tamanho grande e para o mundo, painéis capazes de condensar temas e traços de toda uma vida? “Em nenhum momento lhe passou pela cabeça desistir dos murais, até porque ele não tinha a visão do fim, achava que ainda trabalharia por muito tempo”, diz o crítico Israel Pedrosa, que acompanhou o passo a passo da obra destinada à sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
“Para um homem emotivo como ele, aquilo era a realização suprema”, arremata o artista plástico Enrico Bianco, auxiliar de Portinari na execução do trabalho. Em setembro deste ano, completam-se 50 anos da inauguração dos painéis Guerra e Paz, doados à ONU pelo governo brasileiro em 1957. Inauguração, em termos.
“O Portinari não foi convidado por causa da Guerra Fria. A cerimônia, no fundo, foi apenas formal. Não havia jornalistas, críticos, ninguém”, diz, não sem uma ponta de ressentimento, João Candido Portinari, filho do pintor. “No centenário dele, em 2003, já estava tudo acertado para a verdadeira inauguração, mas o embaixador Sergio Vieira de Mello foi assassinado e, claro, não havia mais clima para festa.”
Os tropeços dos painéis, feitos por Portinari (1903-1962) no Rio de Janeiro e pregados nas paredes da ONU, começam na própria viagem rumo aos EUA. Depois de chegar aos Estados Unidos, passaram um ano e meio encaixotados. “O descaso se estende por 50 anos. Eu sempre tomo conhecimento de brasileiros que vão visitá-los e ficam indignados. Um cientista nos escreveu dizendo que, na visita guiada, além de se ver apenas uma nesga de um dos painéis, o guia nem sequer sabia dizer o nome do autor.”
Bianco, de 89 anos, crê que a sina dos painéis é, de certo modo, um resumo da burrice da humanidade. “Sou um homem já muito velho, mas ainda me choco com a falta de sensibilidade para as coisas de valor. Parece que a sensibilidade está voltada apenas para a guerra”, reflete. “Tenho uma profunda desilusão em relação ao lugar onde as obras estão. Parecem tratadas como papel de parede.”
Pedrosa, de 81 anos, aluno e amigo de Portinari, também não disfarça certo desapontamento. “A apreciação dos painéis depende de injunções políticas”, observa o pintor. “Como a política norte- americana tem sido restritiva em termos culturais, eles não são mostrados como deveriam. As pinturas, de temas essenciais, estão na contramão da era dos extremos em que vivemos.”
Pois a briga de João Candido é para que a série Guerra e Paz seja devidamente homenageada ao completar meio século. A intenção do filho pintor, diretor do Projeto Portinari, é inaugurá-la, enfim, de maneira adequada. A idéia é que, em setembro deste ano, na abertura da Assembléia- Geral da ONU, o presidente Lula inaugure os painéis no momento do discurso. “Há interesse do presidente, mas ainda enfrentamos obstáculos na ONU”, diz.
Um dos argumentos da entidade é que, durante a Assembléia- Geral, os murais são cobertos por cortinas. O projeto, em fase de captação de recursos, prevê, além da reapresentação do painel, a exposição de maquetes e de parte dos 180 estudos feitos a grafite, nanquim e lápis de cor. “Não se trata de uma simples exposição.
É um ato político pela paz num momento em que as cidades estão dilaceradas pela violência”, defende João Candido. Imagens de mães com bebês mortos no colo, mulheres agachadas em desespero e mãos levadas à cabeça compõem a série Guerra. Em Paz, há mãos entrelaçadas, crianças em balanços, corpos a dançar.
“Como foram feitos numa época de plena maturidade, eles são significativos do que era o Portinari esteticamente no fim da vida. Ao representar a paz, ele coloca várias figuras da infância e expõe uma visão de mundo”, avalia Israel Pedrosa. “Ele adere a uma construção moderna, mas em busca da realidade e não apenas da forma. As imagens seguem a estética contemporânea, mas são realistas.”
Bianco, que subiu em escadas com latas de tinta, esticou os braços para ajudar o mestre e teve uma infecção renal de tanta limonada que tomou, volta os olhos para 1957 e ri: “Aquilo foi, literalmente, um parto. Nove meses de um trabalho maluco”. A limonada, esclarece, era para matar a sede infindável no calor de 42 graus do estúdio emprestado pelo empresário das comunicações Assis Chateaubriand.
Apesar de ferver, o espaço salvou Portinari. No ateliê do pintor, no Leme, nem com reza as imensas formas caberiam. “A materialização daquilo foi muito interessante. Imagine que eram 14 metros de altura com uma incrível argamassa de cores. É quase uma peça orquestral da pintura”, define Bianco. João Candido, que se lembra de, adolescente, ver o pai rabiscar os estudos dos painéis na casa da família, não deixa escapar o detalhe que dá torneados épicos ao trabalho. “Ele estava sendo envenenado pelas tintas e recebe a missão de pintar os enormes painéis. Ele sabia que, se usasse as tintas proibidas, iria morrer. Ele pintou tudo aquilo com os mesmos pincéis, a mesma tinta que usava nos quadros.”
Trabalho terminado, era hora de embarcá- los para os Estados Unidos. Por pouco, partiram sem que ninguém no Brasil os tivesse visto. Mas o presidente Juscelino Kubitschek propiciou a exibição, por alguns dias, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. No discurso, JK recordou os tempos em que ambos viveram em Paris e pensou em voz alta: “Quem diria, naquele tempo, que eu me tornaria presidente do Brasil e você, um pintor famoso, não?”
Quem diria também que, no cinqüentenário, os painéis ainda estariam à espera de uma inauguração digna. Mas João Candido sabe que lidar com arte é como água mole em pedra dura. A própria história do Projeto Portinari só se fez de obstinação em obstinação. O Projeto nasceu em 1979, no caminho da abertura política que começava a acender as luzes de salas mantidas escuras por anos a fio.
E nasceu de um susto. João Candido, que vivera dez anos no exterior, de repente deu-se conta de que a obra do pai estava num desses buracos negros em que a cultura brasileira falece. “Um dia, fui ao museu Van Gogh, na Holanda, que eu já tinha visitado várias vezes levado pelo meu pai. Aí houve como que uma ruptura em mim. Naqueles quatro andares do Van Gogh, pensei: ‘O que essa gente está fazendo aqui?’ Ora, eles estavam recebendo uma injeção de identidade na veia, estavam vendo o significado de ser holandês”, rememora.
“Me deu uma tristeza imensa de pensar que, no Brasil, tínhamos um artista como Portinari, que não possuía nem catálogo. É melancólico, mas o MoMA de Nova York tinha mais informações sobre o Portinari do que nós.” Ele concluía que, 17 anos após a morte do pintor, a obra que deixara não estava sequer catalogada.
Não havia museu. Os livros sobre ele estavam esgotados. Formado em matemática e doutor em Ciência da Computação, João Candido trabalhava, à altura, na PUC do Rio de Janeiro. Pediu uma licença de quatro anos e, com o pensar dos cérebros aptos para as ciências exatas, transferiu para os quadros o que fazia com átomos.
“Meu estudo científico era sobre o ‘problema inverso do espalhamento’”, tenta explicar. “O átomo espalha-se e, nesse momento, você tem partículas invertidas”, prossegue, com as mãos a imitar uma explosão. “Você parte do que foi espalhado para, assim, entender o átomo. O Portinari não deixa de ser um problema inverso do espalhamento. Pelo estudo de todas as obras espalhadas, você chega à alma de um País.”
O raciocínio, se escapa à compreensão de mentes menos afeitas a átomos e afins, diz muito sobre o Projeto. Aos 40 anos, João Candido largou tudo o que vinha fazendo e passou a reviver os passos artísticos do pai. Metódico como um cientista e obstinado como quem se vê imbuído de uma missão, conseguiu, em pouco tempo, reverter o “espalhamento” de Portinari.
Cinco mil obras foram levantadas, quadros importantes, dados como perdidos, foram encontrados, houve a primeira exposição retrospectiva do artista, as imagens foram digitalizadas e publicou- se o Catálogo Raisonné. João Candido faz questão de dizer que, não fosse a ciência, a idéia não teria vingado. Primeiro, porque muita gente da área cultural deu de ombros ao projeto, abrigado até hoje na PUC.
Segundo, porque só graças à pesquisa científica foi possível tornar as obras acessíveis, já que 95% do acervo está em coleções particulares. “Passamos 14 anos pesquisando o que seria o clone de uma pintura e, hoje, temos réplicas de alta qualidade de 85 obras.” João Candido tem orgulhos. E também um bocado de mágoas. Certas críticas feitas à obra do pai – como a de que fez pintura-oficial – e olhares desconfiados sobre o trabalho que toca, são capazes de elevar, um pouco, o tom de sua fala mansa.
“O fato de ele ser meu pai dificulta o trabalho porque no Brasil vive todo mundo pensando que há sempre uma mutreta por trás”, lamenta. “Mas eu não sou o dono do Portinari e o projeto sempre buscou ter uma feição pública. Portinari é uma personalidade fundamental para que se compreenda o Brasil do século XX. Ver sua obra é lidar com a essência da nossa nacionalidade.”
A reinauguração dos painéis Guerra e Paz fechará mais um capítulo da história que João Candido tenta reescrever. Como disse certa vez Portinari, “a memória é um antídoto contra a loucura”. E contra a ignorância também.

