Document Actions
Edição 21

Adeus ao giz

Tendência mundial, os quadros negros virtuais ganham espaço, aos poucos, nas escolas brasileiras

A professora de Biologia Juana Gismero, do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo, não precisa mais recorrer a grandes mapas de papel do corpo humano ou desenhar órgãos e esqueletos com giz. Juana, agora, tem um corpo humano tridimensional na lousa para ensinar o sistema digestivo, circulatório, a movimentação de um vírus ou qualquer outro conteúdo que precisar. Isso ocorre graças à implantação da lousa digital nas salas do colégio. “O recurso tem uma carga motivadora muito grande, podemos assinalar, sublinhar, mostrar animações, vídeos”, conta. Segundo a professora, a motivação dos alunos aumentou muito.

“Todas as salas do colégio estão sendo equipadas com uma lousa digital, um projetor, um computador para o professor e outros quatro para os alunos, além de um home theater”, relata a professora de informática Viviane Gabriel, responsável pela área de tecnologia do colégio paulistano.

O exemplo de sala high tech do colégio Miguel de Cervantes, no entanto, é uma realidade distante da maioria das escolas brasileiras. O tradicional quadro negro com o giz e apagador ainda está longe de desaparecer da sala de aula. Os preços dos quadros interativos ainda estão altos, em torno de 10 mil reais. Segundo Paulo Roque, presidente da Divertire, empresa que importa um dos modelos de lousa digital para o Brasil, a tendência é de que o preço caia somente nos próximos anos.

“No ano passado, vendemos 1.300 lousas, o que corresponde a 65% do mercado nacional, segundo o nosso levantamento. Este ano, certamente, as nossas vendas cresceram, mas ainda não temos um número consolidado”, afirma Paulo.

A lousa digital é composta de um quadro afixado na parede da sala – o tamanho-padrão é de 78 polegadas – e um projetor instalado no teto. Estes, por sua vez, conectam-se do computador equipado com um software responsável por todas as funções da lousa. O quadro, que exibe todo o conteúdo do computador, é sensível a uma caneta especialmente produzida para ser empregada no equipamento. Alguns modelos chegam a dispensar qualquer objeto e são sensíveis ao próprio toque do dedo.

No Activeboard, um dos três tipos mais usados, o software que acompanha a lousa é produzido conjuntamente com professores, pedagogos e psicólogos, que desenvolvem conteúdo para ser utilizado na sala de aula. O programa possui um grande banco de imagens, com animações interativas, mapas e instrumentos para todas as disciplinas.

Para aulas de Matemática, há transferidores, réguas, planos quadriculados e com perspectivas e até dados virtuais para se ensinar probabilidade. Para Química, apresentações animadas de experimentos com tubos de ensaio e béqueres e, em Física, simulações de fenômenos e movimentos facilitam a aprendizagem dos conteúdos.

No ensino de Geografia, o professor conta com mapas do mundo inteiro e a possibilidade de dar um zoom em determinada região. Quando necessário, o professor pode recorrer ao Google Earth ou a algum site específico. Mesmo recurso que pode ser utilizado no ensino de História, acrescentando a opção de exibir a imagem de algum quadro ou documento relevante. Em Biologia, o professor pode examinar um corpo humano com efeito tridimensional, todos os seus sistemas e simulações de formação de células. Para Língua Portuguesa, o professor realiza uma leitura com os alunos na sala de aula e destaca algum trecho do texto que deseja ressaltar.

Nativos digitais
Além dos recursos específicos para cada disciplina, os professores têm acesso à internet. Com isso, podem preparar uma apresentação animada com links para serem acessados rapidamente na hora da aula. Outra vantagem é a possibilidade de toda a matéria lecionada na lousa digital ser gravada e repassada aos estudantes, bem como ser usada novamente em outra aula.

Para que uma lousa digital cumpra a sua função de melhorar a dinâmica da aula e prender a atenção dos alunos é fundamental que o software utilizado tenha recursos para todas as matérias e que seja fácil de usar. “Ao adquirir o equipamento, os professores recebem um treinamento de oito horas para que possam manusear e explorar todos os recursos”, explica Paulo.

Para a professora Rosária Nakashima, pesquisadora do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas à Educação (Lantec), da Unicamp, a capacitação inicial dos professores é fundamental. “Qualquer tecnologia necessita de adaptação. É normal que, inicialmente, os professores encontrem alguma dificuldade, mas com o tempo tende a facilitar. O importante é que haja uma troca de experiência entre eles”, comenta. Outro ponto fundamental destacado por Rosária é o comportamento e a disposição do professor em relação à tecnologia. “A diferença será feita com o trabalho do professor”, enfatiza.

No Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, as lousas digitais estão apenas nos laboratórios de informática e com isso há até uma “disputa” entre os professores que têm de reservar horário no laboratório para levar suas turmas. “A recepção dos professores em todas as disciplinas foi muito boa, todos querem usar”, conta a professora Valdenice Minatel, coordenadora do departamento de tecnologia educacional do colégio paulistano. Valdenice, contudo, ressalta que “um grande monitor de 72 polegadas não garante por si só uma boa aula. É preciso ter clareza na metodologia para fazer bom uso da tecnologia.

“Os alunos já são nativos digitais, para eles a lousa é algo natural. Cabe a nós, professores, reaprender e ir nos apropriando aos poucos da tecnologia”, opina.

A aceitação dos alunos também foi positiva. “A lousa é um artifício extra. Acho muito boa, não tem nenhum ponto negativo”, aprova o aluno Rodrigo Bianchi, do primeiro ano do Ensino Médio. Rodrigo conta que, com seus colegas, já usou a lousa digital para realizar a apresentação sobre um projeto de meio ambiente.

No exterior, as lousas digitais estão num estágio bem mais avançado do que no Brasil. No Reino Unido, por exemplo, o equipamento está em praticamente 100% das escolas. A maior fabricante mundial, a canadense Smart Board, que está no Brasil há nove anos e vendeu cerca de 3 mil lousas no País, já atingiu a marca de 1 milhão de quadros interativos no mundo – correspondente a 70% do mercado mundial de lousas, segundo estimativas da própria empresa. A diretora-executiva da Scheiner, empresa que importa as lousas para o Brasil, Claudia Scheiner, ressalta que o sucesso das lousas digitais se deve principalmente à acessibilidade do produto e à inclusão proporcionada.

“Por ser sensível ao toque de qualquer parte do corpo, a lousa pode ser utilizada também por pessoas com necessidades especiais e até por professores com mal de Parkinson”, explica. “Temos o caso de uma universidade em que toda aula dada é gravada e transformada para a linguagem de alunos com deficiência visual”, exemplifica. “É interessante pensar que todo o conteúdo ensinado em sala de aula pela lousa digital é gravado, ou seja, uma boa aula é preservada e pode ser utilizada até mesmo por outro educador”, completa.