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Edição 22

Hegemonia em xeque

By Márcia Pinheiro

Novas análises indicam que os EUA perderão o posto de líder global, com o surgimento de pólos alternativos de poder

Veja na edição impressa de Carta na Escola: o sociólogo e professor da UFRJ José Luis Fiori analisa o declínio do poder imperial norte-americano e a movimentacão de outros blocos e países nesse cenário


A república, na origem, foi idealizada cuidadosa e abertamente nos Documentos Federalistas: Nós não seremos uma monarquia e não teremos uma democracia. Não tivemos nada, portanto. Por 200 anos, vivemos um sistema oligárquico, no qual os homens ricos se dão bem e os outros são deixados à própria sorte.

Gore Vidal,
The Decline and Fall
of the American Empire, 1992


Um alerta de um observador insuspeito pode ter abalado setores do establishment americano: “Há similaridades fortes entre a situação atual dos Estados Unidos e de outro grande centro de poder do passado: Roma. O Império Romano durou mil anos, mas apenas metade deste tempo como república. A República Romana caiu por muitas razões, mas três merecem ser lembradas: o declínio dos valores morais e políticos, o excesso de confiança, a ostensiva invasão de terras estrangeiras e a irresponsabilidade fiscal do governo. Isso soa familiar? Em minha opinião, é hora de aprender com a história e tomar medidas para que os EUA passem pelo teste do tempo”.

Apesar do amargo diagnóstico, o texto acima não é de um pensador heterodoxo, antiglobalização ou esquerdista. Os neomacarthistas deveriam pôr as barbas de molho. Trata-se de um trecho da apresentação ao Federal Reserve de David M. Walker, controlador-geral dos Estados Unidos, uma espécie de braço investigativo do Congresso. Como o próprio site do órgão se define, “um cão de guarda das atividades dos parlamentares”. Entre as funções, estão supervisionar os programas federais, sugerir formas de tornar o governo mais eficiente e ético, além de prever tendências e desafios de longo prazo.

Walker diz que os EUA estão à beira de uma situação insustentável. Ele destaca como principais desafios o forte desequilíbrio fiscal, a deterioração da saúde pública, o nível educacional em declínio, a sofrível condição do meio ambiente, a guerra desastrada com o Iraque e a política errática de imigração. Segundo disse à CartaCapital, “o país está atado a valores velhos, dos tempos da Guerra Fria, e perdeu-se por completo no processo de globalização”.

O controlador-geral americano é mais uma voz respeitável a integrar o coro dos críticos da hegemonia dos EUA e dos que prevêem o fim do império, hoje comandado por George W. Bush. Recentemente, o sociólogo Immanuel Wallerstein, professor da Universidade Yale (Boston), lançou O Universalismo Europeu, no qual aponta o desgaste da retórica ocidental. Em textos complementares, Wallerstein afirma que, em uma década, novos pólos de poder no mundo estarão sólidos o suficiente para fazer frente à onipresença dos EUA, entre os quais, Europa, China e Rússia. Tanto o sociólogo como o funcionário público destacam a perda de dinamismo da economia americana como um dos sinais de que o império vive, se não os últimos dias, um inequívoco ocaso.

Para Walker, infelizmente, apesar dos desafios da nova ordem mundial que põem em xeque inclusive a superioridade americana na expertise tecnológica, “a maioria dos órgãos governamentais mantêm-se superburocratizados, míopes, com erro de foco e com o olhar para o passado”, quando existia a Cortina de Ferro. O fiasco dos EUA no Iraque foi apenas uma amostra de que até mesmo o poder de polícia do mundo foi desmoralizado, diz. Para contextualizar os dizeres de Walker: o último imperador romano do Ocidente, Romulus Augustus, foi destituído do poder no ano 476, marcando o fim de uma hegemonia de quase um milênio. Bush precipitou a decadência da supremacia americana.
Wallerstein afirma que três forças empurraram o país para a atual crise, todas engendradas entre 1960 e 1970. Primeiro, houve uma acirrada concorrência econômica entre o Japão e a Europa, que afetou a produção americana. Em segundo lugar, completou-se o ciclo de descolonização do Terceiro Mundo com a conseqüente rejeição ao status quo imposto pela ordem americano-soviética. Por fim, proliferaram organizações civis de reação ao liberalismo e ao American Way of Life (entrevista à pág. 40).

A consultoria nova-iorquina MD SASS mostra, em números, o que ocorre na sociedade americana. Há seis anos, o dólar representava 72,6% das reservas globais internacionais. Hoje, a participação caiu a 64,7%. O euro já responde por 25,8%. Cerca de 80% dos títulos públicos dos EUA estão em mãos de estrangeiros. Mas nada assegura que os papéis americanos sejam para sempre o porto seguro global. A MD lembra que o dólar perdeu 35% do valor em relação ao euro nos últimos cinco anos. Os títulos americanos renderam 20% no período. Prejuízo ao investidor, que uma hora se cansa do discurso da suposta solidez norte-americana.

Há 77 milhões de cidadãos americanos entre 50 e 60 anos que se aposentarão em breve. De acordo com o Wall Street Journal, a típica família americana com chefe de família entre 55 e 64 anos tem cerca de 90 mil dólares em economias. Claro que há uma pequena complementação da Seguridade Social, mas a consultoria antevê pesadelos políticos e econômicos para breve, porque os EUA têm déficits gêmeos (interno e externo) na casa de 1 trilhão de dólares. Um buraco financeiro cavado por Bush, que reduziu os impostos e aumentou os gastos militares a níveis alarmantes.

De acordo com o Center on Budget and Policy Priorities, a participação dos salários na renda nacional dos EUA caiu ao menor nível desde a grande crise de 1929, e a dos lucros empresariais atingiu recordes de alta. Entre novembro de 2001 e dezembro de 2006, os salários cresceram à média anual de 1,9%, enquanto os resultados corporativos avançaram 12,8% anuais. Esse fenômeno está diretamente ligado aos modismos economicistas da globalização, como offshoring e outsourcing, que tiraram o emprego dos americanos. 

Houve um sensível aumento também no abismo da desigualdade entre a população. Os últimos dados disponíveis, do censo de 2005, mostram que 16 milhões de cidadãos vivem “em profunda pobreza ou miséria”. O critério é a renda de menos de 9,9 mil dólares anuais para uma família de dois adultos e duas crianças. Os miseráveis são as famílias com proventos menores que 5 mil dólares/ano. Segundo a pesquisa, o número de pobres americanos cresceu 26% entre 2000 e 2005. A população americana é composta de 301 milhões de indivíduos, 45 milhões dos quais sem direito a nenhuma assistência médica pública.

Até os supostos avanços na regulação do livre mercado e nas garantias de concorrência, que levaram os EUA a se transformar na maior potência mundial, estão sob suspeita. Como relata Antonio Luiz M. C. Costa, a partir da página 42, a Europa, por ser mais rigorosa, tem ditado padrões superiores de qualidade.

Na questão política stricto sensu, o lingüista Noam Chomsky é taxativo. Em entrevista concedida em julho à TV Al-Jazira (disponível no YouTube), o intelectual diz existirem características de que os EUA estão em estado de falência. A falácia do slogan bushiano, de que a meta da guerra era provar que o país muçulmano produzia armas de destruição em massa, desmoronou. Tampouco o presidente convenceu a população de que o objetivo era promover a democracia na região. Atitudes como essa apenas reforçaram o ódio do mundo, não só o islâmico, contra a prepotência dos EUA, afirmou Chomsky.
Não fossem apenas as dificuldades internas, há os enormes desafios externos. A começar pelo front econômico. Nos dizeres de José Luis Fiori, professor de Economia Política do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “o que está em curso não é propriamente uma crise. É uma transformação ou mudança profunda e lenta do eixo geopolítico e geoeconômico mundial”. A análise faz parte do livro O Poder Global, a ser lançado em breve pela editora Boitempo. Fiori opina ainda que a recente crise do crédito imobiliário de qualidade duvidosa (subprime) gerou um tabuleiro de xadrez perigoso para a estabilidade global. “O maior medo que ronda o mundo é que a decisão americana (de proteger o sistema financeiro) desencadeie uma guerra de moedas” em que o dólar, eventualmente, possa perder a hegemonia de ser a reserva de valor global. Com conseqüências impossíveis de ser dimensionadas.

Um contraponto eminentemente econômico é feito por Mariano Laplane, do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais da Unicamp. Segundo ele, para o capital, a questão de Estados nacionais tem pouca ou nenhuma relevância. A partir dos anos 90, com a desregulamentação dos mercados financeiros e a queda do Muro de Berlim, surgiu um paradoxo. As instituições multilaterais criadas sob a égide dos EUA fragilizaram-se, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No entanto, não significa que os capitalistas americanos estejam mais pobres. Simplesmente eles operam em todo o mundo, assim como os investidores asiáticos ou latino-americanos.

De todo modo, pondera, a desvalorização do dólar e a dependência simbiótica que têm os EUA e a China, por exemplo, em algum grau revela a perda do poder americano. “Talvez, estejamos passando para uma nova etapa, em que a acumulação de capital está submetida a outra lógica”, diz, e sublinha que a análise desconsidera os aspectos políticos, geográficos e sociológicos do momento. Sobre o futuro, Laplane não arrisca previsões. A única certeza é que não mais será possível associar a riqueza a poderes nacionais. Um palpite relevante sobre o que está em xeque, principalmente para os EUA.




A queda começou há 35 anos

Para o sociólogo americano Immanuel Wallerstein, o mundo viverá muita turbulência nos próximos 30 anos


Immanuel Wallerstein é americano, sociólogo da Universidade Yale (Boston) e um dos maiores críticos da globalização e da política externa dos Estados Unidos. Ele sustenta que o império americano está em declínio há 35 anos e será substituído por blocos não hegemônicos, como o europeu, o asiático e, a depender dos entendimentos regionais, o sul-americano. Para ele, inegavelmente, o presidente George W. Bush precipitou o processo de perda de prestígio do país, por suas desastradas e cruéis incursões bélicas no Iraque.
A travessia para um novo mundo, contudo, não será amena. Wallerstein alerta que todo o processo de mudança implica turbulência e será difícil para os americanos aceitarem a idéia de que não terão mais a liderança global. Trata-se quase de um trauma psicológico coletivo. Mesmo a possível vitória de um candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos não mudará o cenário, porque os oposicionistas fundamentalmente repetem o discurso de Bush, afirma o sociólogo. Todos estão imbuídos de uma espécie de auto-estima exacerbada pelo poder que o país inequivocadamente teve após a Segunda Guerra Mundial até os anos 70. Segundo o intelectual, o multilateralismo será a palavra de ordem em cinco a dez anos. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu à CartaCapital.

CartaCapital: O senhor sustenta que o império americano está em declínio. Que sinais há da decadência?
Immanuel Wallerstein: O processo já dura mais de 35 anos. A revolução global de 1968, que foi muito além das revoltas estudantis na França, marcou o início da derrocada do poder americano. Do ponto de vista econômico, os países europeus ocidentais e o Japão tomaram fôlego. Esse processo foi acompanhado por uma menor influência política e cultural dos EUA no mundo. Foi um processo lento, que o país tentou reverter de todas as maneiras. George W. Bush fez uma tentativa audaciosa e lamentável, como a invasão do Iraque, e piorou muito a situação.

CC: A possível volta dos democratas à Presidência dos EUA não pode mudar o cenário?
IW:
Os democratas têm a ilusão de que podem retornar à era pré-Bush e restaurar a situação da década de 90. Isso é uma fantasia. A máquina está quebrada. A coisa mais desastrosa que Bush fez foi invadir o Iraque. Porque demonstrou ao mundo inteiro as limitações do poder militar americano. O fato é que os EUA não conseguem vencer uma guerra contra um país pequeno, fraco, com pouco equipamento militar. E, por razões políticas, o governo não pode enviar mais tropas, por causa da resistência do povo americano. Basicamente, os soldados são recrutados por dinheiro. Não há vontade, não há adesões voluntárias. Os EUA não conseguem mais meter medo na Coréia do Norte, nem no Irã, nem em ninguém. O país, claro, ainda é forte economicamente. Trata-se, contudo, apenas de mais uma nação entre outras muito importantes. E o quadro é radicalmente diferente do poder hegemônico que os americanos tiveram por 30 anos após a Segunda Guerra Mundial.

CC: Que países ou blocos dominarão o mundo em dez anos?
IW:
Nenhum. O que vemos hoje é uma situação de real multilateralismo. Há oito a dez grandes centros de poder. Eles devem se consolidar em grupos maiores e mais fortes, por meio de alianças. Mas nenhum país isoladamente vai dominar o mundo. Em 2020, por exemplo, os EUA não vão mais ser considerados o país mais poderoso do globo. A economia está mal e vai piorar em relação às demais nações. Não vou cair no exagero de que será um país tão fraco, digamos, como o Paraguai. Será grande, mas não terá o potencial de domínio, em razão das reações negativas que desperta no mundo todo.

CC: E, neste novo mundo, qual será o papel da Comunidade Européia e dos BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia)?
IW:
A Comunidade Européia é, obviamente, um grande centro de poder, assim como a Ásia e a Rússia. Também o Irã se torna importante. Outro grande pólo poderá ser o Brasil, na liderança do Mercosul. A questão é quão habilidosos conseguirão ser para se organizar. A Europa, a Ásia Ocidental e a América do Sul têm problemas políticos para moldar-se como entidades fortes e uníssonas. Por exemplo, o grande estresse no Mercosul ainda é a Venezuela. O Equador é outra incógnita na América do Sul. O que posso dizer é que em dez anos a Europa terá uma relevância maior. Note o que aconteceu nos últimos seis meses. A zona do euro absorveu mais dois países com acordos para a travessia de fronteiras, sem o problema da imigração. Somente a Grã-Bretanha e a Irlanda estão fora da integração. Essa foi uma conquista formidável. As forças políticas podem naturalmente mudar, mas os sinais são de união. Até a França está interessada em uma Europa mais forte.

CC: O senhor antevê alguma possibilidade de o Brasil tornar-se um país mais relevante na configuração internacional?
IW:
O Brasil é claramente o país mais poderoso da América do Sul, do ponto de vista econômico, militar e político. A política externa do presidente Lula tem sido um dos pontos fortes do seu governo. Mas será isso suficiente? Não sei. O Brasil terá de melhorar as relações com a Argentina, a Venezuela e a Bolívia. Ainda há problemas que precisam ser encarados. O Brasil reivindica ser o líder e tem desempenhado o papel de forma similar ao da unificação das Alemanhas e da unificação da Itália. Mas, em dois anos, Lula não estará mais no governo. A questão está em aberto. Quem será o seu sucessor?

CC: Muitos autores comparam o declínio do império americano ao romano.
IW:
Até certo ponto, são comparáveis. O Império Romano era mundial, mas operava de forma diferente. Os EUA têm o poderio financeiro, em um mundo capitalista. Um dos problemas em comum de ambos foi a falta de compreensão de suas próprias limitações. E isso contribuiu para a decadência. É difícil para os americanos aceitarem o fato de que eles não estão mais no topo do mundo. Eles têm uma auto-imagem muito positiva: são os mais livres do mundo, seu país é maravilhoso, todo mundo é adorável e a liderança americana é um direito natural que têm. Psicologicamente, eles vão precisar de algum tempo para entender a nova realidade. Uma evidência clara são os candidatos democratas à Presidência. Eles criticam Bush, mas essencialmente têm as mesmas idéias do papel dos EUA no mundo. Isso vai durar uns cinco ou dez anos. É uma aprendizagem para os americanos.

CC: Sem a hegemonia americana, o senhor acredita que todos viveremos em um mundo melhor?
IW:
Não sei. Uma das supostas vantagens de poderes hegemônicos é que eles asseguram a ordem no mundo. E isso é verdade. Os EUA foram capazes de manter uma ordem relativa na comunidade mundial entre 1945 e os anos 70, mas perderam esse poder. Eles têm de ser substituídos. E isso não será necessariamente um processo pacífico. Ao contrário. Considero que estamos ingressando em um período turbulento, nos próximos 20 a 30 anos. E haverá conflitos sociais extremamente sérios nos EUA, por causa do declínio do poderio americano, do padrão de vida da população, o que acirrará o conflito entre as classes sociais. Não haverá gentilezas no futuro.