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Edição 22

Lugar de criança é na rua

Alunos de Belo Horizonte e Nova Iguaçu usam espaços da comunidade para participar de oficinas culturais e esportivas

As ruas do Morro do Papagaio, em Belo Horizonte, estão sendo invadidas pelos alunos da Escola Municipal Ulysses Guimarães. Eles promovem a ocupação sistemática da Igreja Velha, como é conhecida a pequena capela local, de salas até então desocupadas, de uma quadra da Polícia Militar e do prédio reservado ao programa social BH Cidadania, da prefeitura da cidade. Sem encontrar resistência, usam esses espaços para estudar e se divertir com atividades esportivas e culturais. A comunidade aprovou o projeto e se rendeu a um acordo de convivência pacífica: os estudantes apropriam-se dos espaços do bairro, e o bairro passa a colaborar com o trabalho da escola. É um projeto que atinge 12 mil alunos, em 50 escolas municipais da capital mineira, e que vem ganhando espaço como um modelo de educação comunitária que pode garantir aos alunos da rede pública passar mais tempo na escola.

Aumentar o período em que os alunos permanecem na escola, neste caso, não significa expandir a carga horária tradicional de aulas. As oficinas e as atividades de reforço escolar funcionam também como um espaço de convivência, no qual os alunos da rede pública brincam e aprendem, sem fazer nenhum sacrifício para isso – ao  menos para os alunos da E. M. Ulysses Guimarães. Por que eles gostam de ficar mais tempo na escola? As respostas de três estudantes de 10 anos estão na ponta da língua: “A gente não fica mais vagabundeando na rua”, “Desenvolve mais a cabeça, deixa mais inteligente”, “Aprende a ter postura”.

Em Belo Horizonte, o programa que “deixa mais inteligente” leva o nome de Escola Integrada. No interior fluminense, e com os mesmos objetivos de se tornar uma cidade educadora, Nova Iguaçu colocou em prática o projeto Bairro-Escola. Já são 23 mil alunos cadastrados em 31 escolas municipais. As duas experiências municipais de ensino em tempo integral completam um ano no fim de 2007. A adesão das escolas é voluntária e os projetos ainda não atingem a rede completa das escolas de Belo Horizonte (220 escolas e 181 mil alunos) e Nova Iguaçu (102 escolas e 66 mil alunos).

Da mesma forma, a decisão de matricular o aluno no programa é dos pais. Como não há vagas para todos, os critérios são comuns entre as escolas: alunos com dificuldades e em risco social. Mesmo com limitações de vagas e de instituições cadastradas, já há o que comemorar.
Os motivos variam de acordo com a comunidade e com o tempo em que as instituições estão desenvolvendo as atividades extracurriculares. Na Escola Ulysses Guimarães, por exemplo, o programa teve início em abril deste ano. E o que mais chama a atenção é a intervenção urbana que os alunos causaram com suas oficinas de arte. As casas de tijolos sem reboque e os postes sujos que compunham o cenário do bairro agora estão ganhando cores e desenhos nas mãos da criançada. 

Já na primeira escola cadastrada no Escola Integrada, a melhoria no rendimento, principalmente entre os alunos que deveriam estar alfabetizados, é notável e tida como o maior avanço do programa. “Tínhamos duas turmas e meia de alunos que deveriam, mas não estavam lendo nem escrevendo. Hoje, um ano depois, eles estão alfabetizados”, conta Helena Graciana de Assis, coordenadora do programa da Escola Municipal Consuelita Cândida.

A extensão da escola

Na escola em que Helena é professora há 20 anos fazem parte do programa 40% dos 563 alunos das turmas do primeiro e do segundo ciclos (que vão da primeira à quinta série). Sob o comando de estudantes de Pedagogia e de agentes culturais selecionados entre moradores da comunidade, os alunos inscritos no projeto fazem o dever de casa e participam de oficinas de leitura, Matemática, informática, capoeira, artes e educação ambiental. Próximo à escola, localizada num bairro periférico de Belo Horizonte, o único local em que as oficinas são realizadas é o Parque Escola Jardim Belmonte, antes um ponto de encontro de traficantes e usuários de drogas e, agora, uma extensão da escola.

Bom para os alunos, para o bairro e para pais que, como Marilda de Jesus, mãe de Gabriel, de 10 anos, e Marcelo, de 8, não precisam mais trancar os meninos em casa. “O bairro é muito violento, só deixo mesmo sair de casa para ir à escola, que eles gostam demais”, afirma. Os meninos, que estavam sempre “atrasados na escola”, estão melhorando, e Marilda está satisfeita em vê-los aprendendo. Desempregada, ela agora se sente segura para sair e procurar trabalho, porque sabe que os filhos estão sendo “cuidados”.

Na Escola Municipal Professor Darcy Ribeiro, incrustada numa região carente de Nova Iguaçu, os alunos também ocuparam praças, clubes, posto de saúde e igrejas. E deram “vida ao bairro Miguel Couto”, nas palavras da coordenadora-geral da escola, Rosineide de Freitas Oliveira. Além de utilizar locais desocupados ou que passavam a maior parte da semana fechados, como um salão de festas próximo da vizinhança, a escola, durante o período em que estava em reforma, conseguiu parceria com uma instituição particular de ensino que cedeu espaço para os alunos.

Desde o fim de 2006, quando teve início a implantação do projeto piloto em Nova Iguaçu, os alunos da pré-escola à quarta série do Ensino Fundamental permanecem na escola das 7 e meia da manhã até as 5 da tarde. Eles têm aula em um dos dois turnos, manhã e tarde, e participam durante quatro horas de atividades como natação, balé, capoeira, aulas de reforço escolar, de música, de teatro e de inglês – nessa disciplina, apenas com músicas e brincadeiras. No roteiro está incluída uma consulta pediátrica por semana no posto médico do bairro, o que ajuda a detectar e prevenir problemas de saúde.

Dentre os 650 alunos da Escola Darcy Ribeiro, 300 permanecem no local em período integral. Segundo Rosineide, “a maioria deles é de filhos de pais que trabalham, mas muitas mães começaram ou voltaram a trabalhar porque passaram a ter onde deixar os  filhos”. O que vem acontecendo em Nova Iguaçu será estudado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O objetivo do estudo em andamento é calcular o impacto na renda das famílias que deixam os filhos em período integral nas escolas.

Contornando dificuldades

Nas duas cidades, os programas foram implantados pela necessidade de ter o aluno por mais tempo na escola. E ocupar os espaços do bairro é uma forma alternativa de conseguir isso sem precisar construir novos prédios. Para implantar o horário integral, o investimento da prefeitura, segundo a coordenadora-geral do Bairro-Escola, Maria Antonia Goulart, concentrou-se nos gastos com a merenda, responsabilidade da Secretaria de Abastecimento, e com o pagamento de bolsa-auxílio, de R$ 180 e de R$ 300, aos estudantes do Ensino Médio e do Ensino Superior, respectivamente, que trabalham como monitores das atividades extracurriculares.

No entanto, programar e coordenar as oficinas e ter mais alunos na escola não é uma tarefa tão simples de ser realizada. Exige planejamento da direção e coordenação das escolas, empenho da comunidade e dos órgãos públicos para realizar parcerias. Além da presença de estruturas mínimas, como refeitórios e banheiros com chuveiro.

Na Escola Ulysses Guimarães, por exemplo, falta espaço. São 680 alunos divididos em dois turnos e 11 salas. As atividades extras dirigidas aos 225 alunos matriculados no programa teriam de ser realizadas fora dali.  “Tivemos de negociar com a comunidade e batalhar espaço. Ainda é pouco, a gente quer crescer mais, atender mais alunos”, diz Aparecida de Oliveira Decat, a Cida, diretora da escola.
Cida assumiu a direção da escola neste ano e afirma que, diante dos benefícios que os alunos teriam com a adesão da escola ao programa, não havia como não participar. “A gente oferece para eles cinco refeições por dia, com arroz, feijão, frango ou carne, verdura e legumes. Temos muitos alunos que não têm o que comer em casa e isso faz muito diferença”, explica.

Pincéis da transformação

Os alunos da Escola Ulysses Guimarães moram e estudam no São Pedro, um local carente, embora próximo do centro de Belo Horizonte e do bairro Savassi, dos mais valorizados do município. São crianças que enxergam o contraste de prédios grandiosos e barracos do morro da janela da escola. E que agora, com tinta e pincel, estão deixando mais colorido o lugar onde vivem e estudam.

Além de oficinas de capoeira, Matemática, inglês, flauta, judô, Português e informática, a escola, conveniada ao Escola Integrada, passou a ter aulas de arte. E os resultados estão estampados nos muros, antes sem reboque, e nos postes, pintados pelas crianças de 6 anos. Tudo feito com cimento e tintas doados pela comunidade.

Quem coordena esse trabalho é Fabiano Valentino, o Pelé. Ele é um dos três agentes comunitários da escola, moradores da comunidade pagos para colaborar com o programa. Antes de chegar às ruas e ganhar a confiança dos moradores, os alunos de Pelé aprenderam a desenhar no papel. Embora ainda faltem materiais para colorir as casas, o resultado já pode ser observado no beco São Sebastião, por onde os alunos passam para ir às oficinas. Um orgulho para Pelé, um educador comunitário de fala mansa e projetos ambiciosos: “Vivo da arte e esse trabalho faz parte do meu projeto de vida, que é ver a mudança do local onde eu vivo”.

A transformação provocada pelo pincel dessa criançada parece algo simples, mas ver a casa pintada era algo inimaginável para alguns moradores, como dona Ana. “Meu pai tem 73 anos e achava que ia morrer sem ver essa casa rebocada. É um presente enorme. Entreguei para as crianças a cor e o desenho. Sei que vai ficar muito bonito”, conta, com os olhos marejados.

Para Hugo Vocurca, secretário municipal de Educação de Belo Horizonte, aproximar comunidade e escola, permitir que os alunos fiquem mais tempo na escola e que se alimentem melhor são ações que compõem uma política social necessária às famílias brasileiras. O sucesso de quem adere ao programa, ressalta, depende não só das parcerias criadas no bairro, mas também da ação integrada entre diferentes órgãos da prefeitura, como a Guarda Municipal, a Secretaria de Saúde e a Superintendência de Limpeza Urbana. E da participação de ONGs, universidades e do empresariado.

Os projetos de Nova Iguaçu e Belo Horizonte não chegam às escolas de Ensino Médio. Segundo Vocurca, o modelo para os jovens seria diferente, com atividades profissionalizantes. No entanto, ele destaca que o programa investe na formação inicial e colabora para que seus estudantes cheguem mais bem formados aos anos seguintes e que gostem mais da escola. Pode ser esta uma alternativa à escola integral? Ele acredita que sim: “Vale a pena apostar”


O bairro e a escola

As ações das prefeituras de Belo Horizonte e Nova Iguaçu são inspiradas no trabalho desenvolvido, desde 1997, pela organização não-governamental Associação Cidade Escola Aprendiz, no bairro paulistano da Vila Madalena. E têm o apoio do Ministério da Educação (MEC) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que lançaram, em parceria com a Cidade Escola Aprendiz, o livro Bairro-Escola: passo a passo.

O livro é um manual que apresenta o conceito de bairro-escola, baseado nas experiências de Vila Madalena, em São Paulo, Nova Iguaçu (RJ) e Belo Horizonte.

De acordo com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o manual será distribuído para todas as secretarias municipais de Educação. O conteúdo está disponível no site www.aprendiz.org.br



Um modelo de educação integral possível

Programas como o Escola Integrada e o Bairro-Escola têm muitos aspectos positivos: o aluno permanece na escola por cerca de nove horas diárias, alimenta-se melhor e participa de oficinas que contribuem para o seu desenvolvimento. Tais práticas, se bem articuladas com o projeto político-pedagógico da escola, podem ser um modelo de educação integral para as escolas públicas brasileiras. No entanto, para a professora Tânia de Freitas Resende, membro da coordenação pedagógica do Escola Integrada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma das instituições de ensino superior parceiras do projeto, “pensando nos ideais de uma educação integral, temos de caminhar muito”. Os desafios, diz Tânia, não são poucos. Um deles é o investimento em infra-estrutura. O outro é vencer o estigma de que a escola é um lugar de guardar criança.

Programas como o Escola Integrada e o Bairro-Escola não alteram a grade curricular da escola. Eles podem ser considerados projetos de educação integral?
Depende da articulação que as atividades do projeto têm com o trabalho desenvolvido no horário regular de aula. Se forem bem planejadas, dentro do projeto político-pedagógico da escola, temos, sim, uma proposta de educação integral. Caso contrário, corre-se o risco de ter dois funcionamentos paralelos dentro da mesma escola.

Esses projetos são um primeiro passo para implantar a educação integral?

Esperamos que sim. O Escola Integrada tem muitas potencialidades, como o processo de permanência integral da criança e do adolescente e a integração do bairro com a escola. Mas ainda temos muitos desafios.

Quais são eles?

Um dos mais importantes é a articulação do programa com o projeto político-pedagógico da escola. Outros são a formação e a informação dos diversos setores envolvidos, família, professores, comunidade, e o investimento em infra-estrutura.

Aproveitar os espaços da comunidade não é suficiente?

Usar os espaços da comunidade é uma ótima idéia. Só que os espaços da comunidade não substituem a estrutura básica que a escola precisa ter. Em dias de chuva, uma escola que utiliza apenas um parque para as oficinas não tem como receber as crianças. Muitos bairros não têm espaço para ceder.

A proposta da educação comunitária de desenvolver o processo formativo também com valores e habilidades não se perde quando o aluno sai do programa?
Eu não diria que a formação é perdida. Algum ganho a criança tem. Agora, o ganho pode ser potencializado se houver continuidade. Infelizmente, o brasileiro é um povo carente. Na escola, as crianças aprendem noções básicas de higiene. Outro dia, eu estava na escola vendo as crianças almoçarem. É uma refeição que faz muita diferença para elas.

A garantia de alimentação e as noções de higiene não aproximam o programa mais do assistencialismo do que das práticas pedagógicas de uma educação integral?
Parece totalmente assistencialista, mas não é. As oficinas são criadas nas universidades parceiras e desenvolvidas nas escolas. Elas têm um caráter pedagógico amplo, seja na área de leitura, Matemática, música, artes ou esportes. Isso enriquece o desenvolvimento da criança. Agora, pensando nos ideais de uma educação integral, temos de caminhar muito. A educação integral é uma aposta ainda muito nova no Brasil e carrega esse estigma de que a escola é um lugar de guardar criança. Mudar essa visão da escola, talvez, seja o nosso maior desafio.

O que falta para desenvolvermos projetos de educação integral na rede pública?
Para uma formação integral é preciso articular muito bem as ações e buscar uma coerência entre os diversos agentes envolvidos. Só assim a criança não vai ficar com uma formação fragmentada e virar o menino do projeto, como vemos acontecer em muitas ONGs.

As oficinas de estudo do projeto se articulam com o conteúdo curricular?
A proposta é que elas se complementem. As oficinas de estudo buscam uma abordagem diferente daquela que é feita em sala de aula, com uma outra linguagem e outros tipos de atividades. Mesmo porque é um grupo menor de alunos, com a possibilidade de um atendimento mais personalizado. O aluno da universidade chega com um olhar diferente, menos cansado. Ele pode contribuir, até porque não tem aquela pressão do ensino re-gular. Além disso, a aproximação entre a escola e a universidade é muito rica. Para o aluno, é uma experiência de formação. E, para a escola, as crianças começam a ter mais referências da universidade. Passam a conhecer novas possibilidades. A família tende a criar um projeto de médio e longo prazo para o filho.