Nasce o homem algorítmico
A digitalização é um dos principais fundamentos da nova economia criativa. Quanto mais conectado, mais habilitado se está para os embates do presente e do futuro
Pedro está colado no celular de Mano jogando alguma coisa cuja trilha sonora é de tirar o juízo de qualquer um que não tenha anos de meditação. De repente, pára e pede: “Mami, diga xis!” A mãe, no banco da frente, diz. Pedro retruca: “Olhando pra cá, né, mami?” Todo mundo ri. Pedro, 6 anos, e Mano, 10, estão explorando um dos 120 milhões de celulares existentes no País, muitos deles nas mãos dos “manos” de 10 anos.
Taperoá não tem internet. Não uma internet pra botar em casa ou nas lojas. Mas Taperoá, a do Cariri da Paraíba, tem uma lan house que, não descobri como, tem internet. E os freqüentadores (meninas, na maioria) estão o tempo quase todo num chat com alguém de longe ou no Orkut de suas vidas (e dos outros). Se a comunidade Taperoá do Orkut fosse só de gente que mora lá, equivaleria a mais de 10% da população da cidade. Comparativamente, a galera do “Recife” teria mais de 300 mil pessoas. Taperoá também está no YouTube e, como não poderia deixar de ser, em taperoa.com. E Taperoá não tem telefone celular. Ainda.
Tropa de Elite é um grande sucesso de bilheteria. E de pirataria. A bilheteria tem muito a ver com a pirataria. E a pirataria tem tudo a ver com o suporte digital para a mídia, que permitiu copiar o filme, sem perda de qualidade, a custo perto de zero. Nos velhos rolos de filme, naquelas latas grandonas e com projetores quase do tamanho de uma geladeira, como no Cine Rio Branco lá em Arcoverde, não dava pra piratear nada. Muito menos pra fazer marketing viral (boca a boca, rápido) que levasse tanta gente ao cinema, em tão pouco tempo, em todo o Brasil. Sem falar que o filme, em sua versão “livre”, já rodou o mundo inteiro. Via DVD e internet.
As histórias de cada um dos parágrafos anteriores só existiriam em um mundo digital. O mundo ao nosso redor é digital. Quer ver? Tente viver alguns dias sem entrar em contato com sistemas de informação, combinação de programas (software), computadores e sistemas de comunicação que se tornam, cada vez mais, o suporte às atividades mais elementares do nosso dia-a-dia.
Quer se libertar do mundo digital? Beleza. Primeiro, abandone os telefones fixo e móvel. São as pontas, em nossas mãos, de redes digitais de alcance mundial. Livre-se também de todos os cartões que entulham sua carteira. Não entre em nenhum tipo de automóvel, ônibus ou avião feito depois dos anos 90: eles estão lotados de sistemas digitais. Há carros de luxo com mais de 7 milhões de linhas de programação, controlando tudo, desde o freio até o sensor de chuva. Um deles está em recall, no momento, porque o software do freio pode “atrasar” a frenagem em certas circunstâncias. Pense nas conseqüências. O busão da linha 511 não é tão cheio de onda assim, mas tem cada vez mais software. E já se pode ver um futuro em que não terá mais motorista.
Resultado? Pra sair do mundo digital, onde estamos todos incluídos, é preciso procurar um lugar remoto, mas não só. Na zona rural de Taperoá é possível instalar uma gambiarra caseira que “pega” a cobertura celular de cidades vizinhas e, de repente, o lugar não só deixa de ser remoto: é também digital. Remoto, em relação à vida digital, tem de ser remoto mesmo, um fim de mundo onde estejam você, uma faca, um cantil, uma bússola (das antigas) e pouco mais.
Apesar disso, a medida oficial de inclusão digital é a de computadores conectados à internet. Celulares e torpedos (mensagens curtas, ou SMS) não contam, apesar de estarem nas mãos de 100 milhões de pessoas. E de SMS ser uma forma primitiva de “emeio”. Que funciona muito bem, por sinal. Pequenas mensagens que comunicam recados essenciais ou o ponto pra cerveja depois do trabalho, tanto faz. Pra ver como é usado, mais de 2 trilhões e meio de SMS terão sido enviados em 2007, no mundo inteiro, gerando mais de 80 bilhões de dólares de receita para as operadoras.
E o Brasil poderia estar muito mais bem conectado através de celulares. Graças a uma receita confusa e malcozida de licitações, contratos, regulação, operação e muitos impostos, nosso SMS tem um dos preços mais altos do planeta: pelo que se paga, no Brasil, por SMS, um venezuelano envia 5, um paraguaio 8 e um chinês 15. O que torna o Brasil um lugar muito curioso.
De dimensões continentais, o País deveria tratar comunicação de forma absolutamente estratégica e prioritária. Nos anos 70, isso era a integração nacional pela via da tevê analógica e estradas. Que cobriram, bem ou mal, o País inteiro em uma década. Dez anos depois do começo da internet comercial e da telefonia digital, ainda há mais de 1.500 cidades, Brasil afora, sem cobertura celular. E nossos impostos sobre telecomunicações estão entre os mais altos do mundo. O que nos leva a pagar muito mais por muito menos do que se tem noutros lugares. Coisas do Brasil.
O mundo é digital, vale repetir. Pra todos, em todo o mundo, o tempo todo. A digitalização é um dos principais fundamentos da sociedade da informação, da nova economia criativa e de um mundo plano onde, quanto mais conectado, mais habilitado se está para os embates do presente e do futuro. O Haiti é aqui e o Havaí também. Rede de boa qualidade e barata pode ser essencial para deslocalizar trabalho para interiores impensados. Isso se a população jovem, do local, for educada a tempo para participar de mercados de trabalho remotos. Para tanto, rede de boa qualidade e a baixo custo vai ser, certamente, essencial.
Fala-se, mais uma vez, de internet e computação em todas as escolas de todas as cidades, pequenas e remotas inclusive, do Brasil. Já ouvi tanto essa conversa, e em tantas formas e versões, nos últimos dez anos, que nem sei se acredito. Talvez deva acreditar. Computação e comunicação são o lápis, o livro, o caderno, o quadro-negro e a sala de aula do presente. Se chegarem mesmo a todas as escolas, nos próximos anos, vão operar uma revolução.
E a mudança não vai ser didática, metodológica ou educacional. Vai ser de visão de mundo. Assim que os usuários entrarem nos sites, blogs, redes sociais, vídeos e podcasts, textos de referência e dicionários, a miríade de fontes abertas que há na rede como sua nova e permanente sala de aula, o modo de aprender terá mudado para sempre. No passado, aprendia-se na escola, de uma vez por todas, e partia-se para a vida. Muita gente nunca mais voltava à escola, tampouco precisava aprender qualquer coisa de novo para continuar trabalhando, sendo útil, ganhando seu pão de cada dia. Daqui pra frente, se seu trabalho não precisa de um esforço mental considerável, que envolva continuar aprendendo e criando, pode ter certeza que um robô vai estar no seu lugar muito breve. Pode não ser um daqueles de filme, de lata, que range e se move no escritório. Talvez seja software. Talvez seu trabalho seja digitalizado. Certamente seu trabalho será digitalizado.
Na sociedade da informação, digitalizada por software e conectada por redes, aprende-se o tempo todo, no contexto e quando é preciso saber. Em vez de se tornar uma enciclopédia ambulante que sabe todas as respostas, é preciso saber fazer perguntas e procurar respostas, na situação e para os problemas que se quer resolver a cada hora e lugar. É como jogar aquele jogo novo, pirateado, na lan house da esquina. Não há manual. Se houvesse, não adiantaria de nada, pois estaria em japonês. Algumas horas depois de instalado, alguém já descobriu os comandos elementares. Algumas semanas depois, já dá pra entrar no campeonato mundial. Meses depois, há um campeão por perto.
A escola da vida é digital, agora. Vai ser assim pra cada vez mais gente. E não precisamos temer pela sorte de ninguém. O impacto vai ser parecido com a chegada da escrita ou da imprensa, mantidas as proporções. A lan house tem tudo a ver com a escola. Da vida. Pelas periferias das grandes cidades do Brasil, milhões de jovens gastam horas do seu dia (e seus minguados reais) conectando-se com o mundo virtual e jogando os mesmos jogos que os adolescentes da classe média jogam em seus quartos no Brasil e no resto do mundo. De uma forma ou de outra, partes do País que na maioria das vezes só se encontram em lados opostos do vidro, nos sinais de trânsito, se encontram em paz, virtualmente, talvez disputando pacificamente um jogo, na rede.
É possível fazer muito mais. Que tal trazer a lan house pra dentro da escola, como no laboratório de games da Escola Cícero Dias, no Recife, onde se joga e se aprende a construir jogos? Diversão combinada com formação, pois a construção de jogos digitais precisa de muito mais que programadores e influi no processo de aprendizado de todas as disciplinas “normais” do currículo. Inclusão pela via da diversão digital. Pena que meu primário e secundário estavam tão distantes deste novo mundo, construído ao redor de algoritmos e sua expressão como software.
Algoritmos? Sim, algoritmos, que vêm a ser receitas bem detalhadas, de instruções muito bem definidas, para realizar tarefas. Expressões lógicas e precisas que máquinas possam executar sem vacilo algum. Exemplo? O processo de formação e de atendimento na fila única do supermercado. Outro? O que está por trás da nossa interação com o caixa automático, e que invalida nosso cartão quando erramos a senha três vezes. Nem mais, nem menos: três. Outro? O que torna possível a compra de passagens aéreas na internet. Ainda outro? A “malha fina” da Receita Federal. Este é, na verdade, um conjunto de algoritmos, muito complexo, secreto e cada vez mais preciso. Vamos nos encontrar com ele de novo daqui a alguns meses. Boa sorte.
No mundo digital, numa sociedade da informação, as instituições se digitalizam, se transformam e são transformadas por software; e nós, aqui fora, somos levados pela onda de comunicação e computação. Somos cada vez mais parte de um conjunto de processos digitais e, para viver de maneira competente em tal contexto, precisamos pensar – não só, mas também – de forma digital. Nossas interações com o mundo e entre nós, à medida que são mediadas por sistemas digitais dispersos em toda a malha social e econômica, vão exigir um comportamento cada vez mais sofisticado de todos, do ponto de vista de computação e comunicação.
Estamos vendo e vivendo, pessoalmente e em grupos, e em todos os lugares do planeta, dos mais ricos e centrais aos mais pobres e periféricos, o nascimento do Homo algoritmicus, o homem algorítmico, um Homo sapiens aumentado pelas redes digitais nas quais está imerso, capazes de mudar sua noção de tempo e espaço, pois o mundo tende a se tornar um ponto e o tempo em que as coisas acontecem, ou aconteciam, um mero detalhe. Posso, cada vez mais, editar o mundo para o meu tempo. Mas não só. O homem algorítmico sabe manipular a rede e suas fontes de comunicação, computação e controle para delas extrair mais competitividade, produtividade e qualidade. De vida, inclusive.
O nem tão pouco que temos hoje, com mães de todas as camadas sociais ao alcance dos filhos, e vice-versa, o tempo todo e em todo lugar, por voz, SMS e, cada vez mais, imagem, é apenas o começo. Voltando aos celulares, o Brasil já começa a ver, aqui e ali, o que vai ser a terceira geração de dispositivos móveis. Pelo que parece, um dos significados de 3G, no Brasil, será a cobertura verdadeiramente nacional e o fim da exclusão geográfica, pelo menos. Palmas. Além disso, se cada brasileiro adulto (e crianças como Pedro e Mano) tiver um celular 3G à mão, em alguns anos, com a ajuda de impostos terrestres e não lunáticos como os de hoje, o País inteiro estará conectado, inclusive à internet, que é uma das características essenciais da terceira geração de celulares.
O presente, muitos podem reclamar, não é assim para todos nem é dos mais brilhantes, mesmo para quem está na rede. Mas o futuro promete. Por mais tempo que leve, e não vai ser tanto, estaremos todos ligados, conectados, de uma vez por todas e sem caminho de volta. E o bom é que não vai ser um mundo tão novo assim. Lá atrás, num passado remoto, cada aldeia era um mundo, completamente conectado, ao redor das histórias de sua fogueira. A internet transformou o mundo numa aldeia. Nas mãos de cada um e de todos, em breve, uma fogueira celular. Até, quem diria, em Taperoá.

