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Edição 23

O petróleo, a baleia e o urso

By Ricardo Prado

Editorial


Uma substância pegajosa e escura que brotava de fendas na rocha foi observada, em 1264, pelo mercador veneziano Marco Pólo. Ele relata ter visto óleo jorrando como fonte em uma região próxima à cidade de Baku, atual Azerbaijão, um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Em alguns locais da Pérsia, como na Península Apsheron, o gás queimava espontaneamente, como línguas de fogo. Só não se sabia, ainda, o que fazer com aquela substância inflamável, que ainda teria de esperar alguns séculos até que a Revolução Industrial encontrasse no petróleo sua principal fonte de energia.

Carta na Escola dedica 14 páginas desta primeira edição de 2008 ao petróleo. A notícia da descoberta do campo Tupi, na Bacia de Santos, começa na página 18 e é seguida por abordagens de Química, Geografia e Física. Mas neste espaço vamos ligar o petróleo à salvação de um grande mamífero e, paradoxalmente, à danação de outro.

No século XIX, o principal combustível usado para a iluminação de ruas e residências era o óleo de baleia, especialmente o extraído do nariz da espécie cachalote. A procura pelo óleo de origem animal era tão intensa que, apenas nos Estados Unidos, a frota de navios baleeiros pulou de 392, em 1833, para 735 no espaço de 13 anos. Na medida em que as baleias começaram a rarear e o consumo continuava a se expandir, o preço do óleo disparou, desencadeando mais caça, mais baleeiros etc.

A espiral que culminaria, previsivelmente, com a extinção dos gigantescos mamíferos, seria fulminada em 1849, quando o geólogo canadense Abraham Gesner sintetizou o querosene. Com preços mais competitivos, menos cheiro e poços que quase afloravam à superfície, o petróleo fez com que as baleias fossem deixadas em paz.

O problema foi que passamos a consumir tanto petróleo que conseguimos alterar o clima da Terra ao cabo de um século e meio, devido à queima dos combustíveis fósseis. Com o aquecimento do planeta, as geleiras do Ártico começaram a derreter, ameaçando o hábitat de outras espécies, como o urso-branco. Um novo substituto chegará a tempo de salvar a espécie? E como será um mundo sem petróleo, uma fonte de energia não renovável? São perguntas que, provavelmente, só serão respondidas pelas futuras gerações. Por ora, é bom que elas conheçam melhor esse polêmico e precioso caldo mineral, motivo e motor de guerras e catástrofes, salvador de espécies, ameaçador de outras, e que nós, agora, temos em abundância.