Professor da família
Em Taboão da Serra, visita de educadores à casa dos alunos ajuda a diminuir o número de repetência e a evasão na rede municipal
Foi batendo à porta da casa dos seus alunos que a professora Josefina Reis pôde entender determinadas atitudes, dificuldades de relacionamento e aprendizado que eles apresentavam. Essas visitas passaram a ser uma importante ferramenta de trabalho. Ao entrar no ambiente doméstico em que vivem os 32 alunos, crianças de 4 e 5 anos que compuseram a turma da professora em 2007, Jô, como é chamada pelas colegas, conheceu a estrutura familiar dos estudantes, o bairro onde vivem e o lugar em que estudam e brincam. Passou assim a integrar o time de 400 professores-visitadores do Programa Interação Família e Escola, da prefeitura de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. Desde 2005, eles visitaram 14 mil famílias e muitos resultados já podem ser comemorados: além da maior aproximação entre a família e a escola, com as visitas, os índices de repetência e evasão diminuíram 40%.
Jô dá aulas na Escola Municipal de Educação Infantil Emília, que aderiu ao programa em junho de 2007. Como trabalha também em outra escola, só tem livre o período da noite para conversar com pais, avós ou o responsável pelas crianças. As suas visitas duram, em média, uma hora e a professora recebe 35 reais pela visita. Assim como ela, as outras 15 professoras da escola também vão à casa dos alunos. Juntas, visitaram, no último ano, metade dos 512 estudantes da escola.
A proposta do programa é que cada aluno seja visitado uma vez por ano, com encontros que começam em junho e vão até novembro. Com um novo olhar sobre as origens e hábitos do aluno e da sua família, os professores relatam o que identificam em cada casa e discutem com os demais educadores e a direção da escola, se for o caso, em busca de solução aos problemas que aparecem. “O itinerário da informação colhida nas visitas é muito importante para que o trabalho não se perca”, explica Márcia Santos da Silva Penha, coordenadora do programa na Emei Emília.
Em casos de identificação de violência ou algum tipo de abuso, o procedimento é o mesmo orientado na escola: o professor aciona as autoridades responsáveis.
Se houver algum caso mais complicado ligado ao desempenho do aluno na escola ou se a mãe quiser, segundo Márcia, os professores retornam às casas. Ela mesma, além de visitar as crianças, pode acompanhar a visita dos outros professores. Foi o que fez na casa de Leandro, quando CartaCapital foi até lá com Jô, para saber o que a família dele tinha achado da visita.
“Foi uma conversa boa. O Leandro é um bom aluno”, contou a mãe do garoto, Jeane dos Santos Lobo Silva, que já conhecia a professora do filho. Mas quem gostou mesmo da visita, lembra, foi a avó de Leandro: “Ela gostou de conhecer a professora e falar das coisas que o neto faz em casa”. Como manda a boa etiqueta, Jô deu de presente à família o livro Iracema, de José de Alencar, uma prática que também é realizada por outros professores do programa. A cada visita, a família ganha um livro.
Antes de ir a campo, os professores recebem algumas orientações e sugestões de perguntas para a entrevista. Entre as características a serem observadas, estão as condições de moradia, a estrutura da família, as crenças religiosas e até a presença ou não de bichos de estimação. E as perguntas sugeridas focam a interferência da família na rotina dos alunos.
O programa exige mais do professor. E da família também, que é convidada a participar da educação que o filho recebe na escola. Segundo a coordenadora do programa na prefeitura, Andréa Tavares Marques, os professores participam de um curso preparatório para fazer as entrevistas e entender como as observações das visitas e as respostas dadas podem ajudar o aluno pedagogicamente. “O professor não vai lá para bisbilhotar. Quando ele observa, por exemplo, que o aluno não tem onde brincar, ele entende a sua agitação e sugere à mãe que reserve a ele um horário do dia para isso. São sugestões. Não há imposição de nada”, reforça Andréa.
O mais comum, de acordo com Andréa, são casos de arranjos familiares que interferem no desempenho do aluno: “Mesmo que a família não seja a tradicional, e a maioria delas não é, a criança e o adolescente precisam ter uma referência dentro de casa. É isso que explicamos a eles”.
Aceitar a visita do professor não é uma obrigação. Os professores enviam, pelos alunos, uma cartinha perguntando aos pais se gostariam de recebê-los e qual seria o melhor horário e dia para conversarem. Como muitos pais trabalham o dia todo e muitos professores dão aula em mais de uma escola, nem sempre é possível atender a todos.
Quando visitou, em julho passado, a casa de Sabrina, a professora Rosani Maria de Castro, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Ayrton Senna, aproveitou um dia de folga da mãe da garota, a enfermeira Débora, que trabalha no Hospital das Clínicas de São Paulo. No dia, lembram, a conversa foi longa, durou mais de duas horas, e rendeu um almoço. Sabrina fez o que mais gosta quando recebe visitas: mostrou à professora o seu álbum de fotografias e apresentou-lhe o seu quarto.
Na época, Débora queria mudá-la de turno. Como trabalha à noite e mora só com Sabrina, preferia que a menina estudasse à tarde. Rosani tentou convencê-la a deixar a menina na classe em que estava: “É claro que, se ela quisesse, não poderia fazer nada. Mas a Sabrina é órfã de pai, era muito fechada, e estava começando a se abrir. Não queria perder todo o trabalho que eu vinha fazendo com ela”, conta. Sabrina, hoje, de “fechada” não tem mais nada. Abraça a professora ao vê-la, faz festa com as visitas e se socializou na escola.
Casos como o de Sabrina e de alunos que tiveram encaminhamentos médicos e psicológicos, após a visita do professor, levam Rosângela Aparecida dos Santos, coordenadora da Emef Ayrton Senna, a crer que, com o programa, a família e o aluno passam a confiar mais no professor. “Os pais ficam mais à vontade para vir à escola, e os alunos deixam de achar o professor um ser de outro mundo, distante do deles.”
De 2004 (ano que antecedeu a execução do programa) para 2006, o índice de repetência na rede municipal de ensino de Taboão da Serra foi de 10% para 6%. No mesmo período, segundo a prefeitura, o número de evasão caiu de 60% para 30%. No total, a rede tem 45 escolas, 20 de educação fundamental e 25 de educação infantil, e cerca de 30 mil alunos.
Os números mostram que a repetência e, muitas vezes, a conseqüente evasão ainda é alta. Evidentemente, a melhora nos índices não depende apenas do Programa Interação Família e Escola, e sim de uma série de fatores ligados também à formação de professores e melhoras estruturais na rede.
O programa é apenas uma das ações que visam à melhoria da qualidade do ensino. Para o criador do Interação Família e Escola, César Callegari, secretário de Educação do município, levar o professor à casa do aluno é, na verdade, um programa especial de formação profissional. “Estabelece um planejamento que considera a singularidade de cada criança”, complementa Callegari, que é também membro do Conselho Nacional de Educação. De acordo com Callegari, o programa pode ser reproduzido em qualquer rede, respeitando as suas especificidades. Em parceria com a Unesco, o MEC vai divulgar as ações do programa e incentivar que outras redes, municipais e estaduais, sigam essa prática de boa vizinhança.

