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Edição 27

A rota turística da gripe

By Rogério Tuma

Um novo tipo de vírus demora até dois anos para chegar ao Brasil, tempo suficiente para criar uma vacina eficaz

Cientistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) descobriram os caminhos que o vírus da gripe percorre durante o ano, contaminando o mundo inteiro. Sabemos que, no outono e inverno, ocorrem surtos de gripe e promovemos o uso da vacina, principalmente entre idosos, pois acima de 60 anos existe um risco maior de a gripe evoluir para uma pneumonia. Essa é a razão de existir uma campanha nacional de vacinação para o idoso.

 

Todas as pessoas acima de 60 anos devem tomar a vacina contra a influenza, que causa a gripe, e contra o pneumococo, o agente da pneumonia. Pessoas de outras idades podem tomar a vacina, se quiserem. Com as campanhas anuais, o Brasil reduziu em 50% os casos de gripe e em 32% os de internações por pneumonia. Também reduziu em 31% o número de mortes por essas causas na “melhor idade”.

 

A campanha é regular no Brasil desde 1999. Neste ano, inicia-se em 26 de abril e vai até 9 de maio. Pretende dar cobertura a 80% desta população, com mais de 60 anos, de 14,5 milhões de pessoas. É, portanto, uma das maiores campanhas de vacinação regulares de adultos no mundo.

 

Hoje, a vacina é constituída de tipos do vírus influenza que já estão mortos e, portanto, não causam gripe. Mas eles são o suficiente para promover imunidade do organismo contra a moléstia. A vacina não traz riscos e só as pessoas que sabem que têm alergia à proteína do ovo é que não podem tomá-la.

 

Infelizmente, não é possível colocar todos os subtipos de vírus na vacina. Elas são fabricadas com os vírus que tiveram maior circulação no Hemisfério Sul. Isso não garante que o vírus da próxima epidemia de gripe será o que está presente na vacina. A escolha dos subtipos a ser colocados na imunização depende de coletas do vírus influenza feitas em fevereiro e setembro pela OMS. E os epidemiologistas escolhem os tipos de vírus a ser incluídos na vacina daquele ano.

 

Sabemos que essas epidemias se iniciam no Leste e Sudeste da Ásia e, durante o ano, o vírus viaja de carona no corpo de humanos gripados, que infectam os semelhantes por onde passam. As epidemias anuais de influenza contaminam de 5% a 15% da população mundial. São de 3 milhões a 5 milhões de casos graves ao ano, responsáveis por 250 mil a 500 mil mortes. As campanhas mundiais somadas dão cobertura a 300 milhões de habitantes.

 

Não sabemos ainda o porquê de a gripe ocorrer em épocas de frio nos países de clima temperado e nas épocas de chuva nos países tropicais. Mas essa variação climática faz com que o vírus que surge na Ásia encontre uma onda de fatores favoráveis à sua sobrevida.   

 

Um grupo de cientistas do Japão, da Europa e dos Estados Unidos, reunidos no Centro de Investigação de Influenza da OMS, analisou 13 mil amostras de um subtipo do vírus influenza A (conhecido pela sigla H3N2) em seis continentes, entre 2002 e 2007. Compararam as diferenças genéticas dos vírus encontrados em cada região do mundo.  A pesquisa monitorou o trajeto percorrido e identificou o tempo que um subtipo de vírus demora para atingir o mundo todo.

 

O pesquisador Collin Russell, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, explica que novos vírus aparecem na Ásia e vão depois para a Europa, chegando lá em seis meses. Depois, demoram entre seis e nove meses para atingir os Estados Unidos e mais vários meses para chegar à América do Sul e, então, desaparecer para dar lugar a novos subtipos.

 

O vírus da gripe que deverá nos atingir este ano é o mesmo que surgiu há um ou dois anos na Ásia. Dessa maneira, há tempo suficiente para criarmos uma vacina eficiente. E isso também mostra que as vacinas importadas da Europa devem funcionar só para as gripes do próximo ano. Como diz o lema da campanha deste ano: “Não deixe a gripe derrubar você. Vacine-se”.