Lenta, gradual e restrita
Selma Garrido Pimenta, pró-reitora da USP, admite que a universidade serve a uma elite e aposta no programa de inclusão para reverter esse quadro
Todo sistema de seleção implica exclusão. E o número de vagas oferecidas pelo sistema de ensino superior público é sabidamente insuficiente para atender a uma demanda crescente de alunos do Ensino Médio. Na Universidade de São Paulo, a maior do País e uma das mais conceituadas da América Latina, não é diferente. No último vestibular, o de 2008, 140 mil jovens concorreram a 10 mil vagas. Entre os aprovados, cerca de 75% são provenientes de escolas privadas e 25%, de escolas públicas. A discrepância não seria tão assustadora se, no estado de São Paulo, 85% dos alunos do Ensino Médio não estudassem na rede pública de ensino.
Diante da descomunal desproporção, que é histórica, e da queda do número de alunos da rede pública que almejam uma vaga nesta universidade, a USP criou um programa de inclusão em 2007. Em dois anos, o resultado do chamado Inclusp é tímido: o aumento do número de alunos da rede pública aprovados foi de apenas 2%. Nesta entrevista a Lívia Perozim, a professora Selma Garrido Pimenta, pró-reitora de Graduação, explica a posição do Conselho Universitário contrária às cotas, defende o Inclusp e deixa transparecer por que a USP demorou tanto para dar um pequeno passo no sentido de diminuir a desigualdade que a encastela: “Você tem aqui um grupo altamente conservador que entende que esta é, sempre será e deve continuar sendo uma universidade de elite. E o resto que se dane. O compromisso social da universidade não os afeta”.
Carta na Escola: Qual o diagnóstico feito pela USP que identificou a necessidade de criar um programa para incluir alunos da rede pública?
Selma Garrido Pimenta: Partimos de duas frentes. Uma é a realidade do Estado de São Paulo: o aumento do contingente de alunos no Ensino Médio, em geral, e o fato de 85% desses estudantes estarem na rede pública de ensino. Na USP, historicamente, apenas 20% dos ingressantes são de escolas públicas. Percebemos aí uma inversão. Nosso vestibular é altamente seletivo e competitivo. No último vestibular, 140 mil jovens concorreram a 10 mil vagas. Por isso, entendemos que é importante ampliar a presença no vestibular de estudantes que cursaram o Ensino Médio integralmente em escola pública.
CE: O número de inscritos vindos do ensino público caiu, mesmo depois da criação do Inclusp. Foi de 68 mil em 2006 para 49 mil em 2007, ano em que o programa entrou em vigor, e para 43 mil em 2008. A que senhora atribui essa queda significativa?
SGP: Esse fenômeno é constatado fortemente de cinco anos para cá e está presente nas universidades públicas brasileiras em geral. O ProUni (Programa Universidade para Todos) está contribuindo para isso. Se examinarmos no âmbito da metrópole de São Paulo, houve uma ampliação enorme das escolas superiores da rede privada. Aqui, há também a questão do deslocamento das pessoas, que é difícil. Um estudante da zona leste, por exemplo, pode levar uma hora e meia para chegar à USP, no Butantã. Ou seja, o estudante da escola pública tem um incentivo federal, que é o ProUni, para cursar uma faculdade particular, provavelmente próxima à casa ou ao trabalho dele. É um efeito visível quando comparamos os resultados dos inscritos na capital com os inscritos do interior do estado, onde a queda aparece menos fortemente. Outra questão é ausência da qualidade de ensino na escola pública, em geral, e, em especial, do Ensino Médio. É algo produzido historicamente, de tal forma que os estudantes de escola pública, e em grande parte os professores, acabam criando uma auto-exclusão em relação às universidades públicas.
CE: Os alunos da escola pública sabem que a USP é inatingível para eles.
SGP: É. E todo o Inclusp foca em trabalhar na direção contrária dessa cultura e aproximar cada vez mais a USP desse estudante, de modo que percebam que é possível entrar aqui. O Inclusp mostrou que a nossa hipótese é verdadeira: na escola pública há estudante com competência para prestar o vestibular da Fuvest e ser aprovado.
CE: Mesmo que o ProUni tenha colaborado com a queda de inscritos em vestibulares de universidades públicas, o programa atrai alunos para cursos profissionalizantes e de baixa procura, o que não é o perfil da USP. Qual a parte que cabe à USP nessa debandada de alunos no vestibular?
SGP: Em 2005, inauguramos a USP-Leste, que oferece mais mil vagas. No mesmo ano, elevou-se a procura pela universidade. Na cidade de São Paulo houve também o aumento de vagas em universidades federais, como a Unifesp, e a criação da UniABC.
CE: Mas são vagas em áreas muito específicas. Na UniABC, por exemplo, só em cursos de exatas, não?
SGP: É, basicamente. Já na Unifesp a ampliação foi na área biológica, incluindo Medicina e áreas correlatas. É claro que temos de olhar esse fator da movimentação, mas continuamos com uma relação candidato-vaga enorme.
CE: Como foi calculado que os 3% de bônus do Inclusp beneficiariam alunos da rede pública?
SGP: Fizemos uma simulação, com base em dados de 2006, que nos mostrou que esse acréscimo, nas duas fases do vestibular, ajudaria a chegar próximo a 27% de estudantes egressos de escolas públicas. Na primeira fase, são aprovados, em média, três alunos para uma vaga. Se abaixarmos essa linha, traríamos estudantes que estavam muito próximos da linha de corte e que, com um empurrão, entrariam. Nos cursos mais concorridos, a diferença entre o último e o primeiro colocados é mínima. Como foi demonstrado, nos primeiros anos, o programa incluiu mais alunos em cursos mais concorridos. Em Medicina, dobrou.
CE: Mais de 90% dos estudantes de Medicina vêm de escolas particulares. Quantos alunos entraram neste curso pelo Inclusp?
SGP: A Faculdade de Medicina oferece 175 vagas. Em 2006, eram apenas 9 os ingressantes oriundos da rede pública. Em 2007, foram 28. No total, em 2007 tivemos 233 estudantes que ingressaram na USP através do programa. Em 2008, subiu para 375, embora, nesses dois anos, tenha caído o número de inscritos.
CE: No último vestibular, a USP teve 35% de concorrentes e 26% de aprovados provenientes de escola pública. Na Unicamp, a proporção é contrária: alunos da escola pública representam 29% dos inscritos e 32% dos aprovados. Por que, sem reservar cotas, a Unicamp atende a essa demanda de alunos e a USP não?
SGP: A comparação USP e Unicamp deve ser matizada. Temos cinco vezes mais vagas e oferecemos bônus nas duas fases. Na Unicamp, o bônus só conta na segunda fase. Agora vamos para a situação geográfica. A USP recebe gente de todo o estado, enquanto a Unicamp tem um caráter mais de interior. Ela está mais próxima das escolas públicas da região de Campinas do que a USP em relação ao estado como um todo. E a Unicamp não tem uma visibilidade no restante do estado como tem na região.
CE: Uma das críticas que se fazem ao Inclusp, em especial a ONG Educafro, que chegou a entrar com uma representação no Ministério Público Estadual, é o fato de ele ter sido pouco discutido com a sociedade e o meio acadêmico. Como a senhora encara essa crítica?
SGP: Todos os dados solicitados estão com o Ministério Público. Eles estão analisando e provavelmente verão que o programa é eficiente. Se discutíssemos com a sociedade, engessaríamos uma decisão. Quanto ao meio acadêmico, não é verdade que não houve debate. A Educafro pede uma discussão maior com o movimento negro. Essa discussão aconteceu, mas temos perspectivas diferentes. A bandeira do movimento negro é pelas cotas, e a USP não é a favor de cotas. No momento da aprovação do programa, o Movimento Negro esteve aqui e a perspectiva era impedir que o Conselho Universitário o aprovasse. Nosso entendimento com eles foi o seguinte: esta universidade é complexa, e ter chegado a um consenso mínimo de que faríamos o Inclusp não foi nada simples. A USP é uma universidade plural, que tem grupos com diferentes perspectivas. Há membros dessa academia que são radicalmente contra qualquer ação da universidade na direção de inclusão de qualquer natureza. É uma força que expressa essa perspectiva conservadora.
CE: A USP é conservadora?
SGP: Uma parte da USP é conservadora. Mas aqui também temos defensores das cotas para negros e índios.
CE: Por que a USP ignorou a questão racial em seu programa de inclusão?
SGP: O Conselho expressa a diversidade que existe na universidade. O tema está sempre presente.
CE: Sob qual argumentação a questão racial foi excluída?
SGP: Acho que você deveria procurar essas pessoas.
CE: Mas a senhora é representante de uma política construída pelo Conselho Universitário...
SGP: Você tem um grupo altamente conservador e que entende que esta é, sempre será e deve continuar sendo uma universidade de elite. E o resto que se dane. O compromisso social da universidade não os afeta. Você tem grupos que defendem fortemente que esse compromisso social é da maior importância. Eu, Selma, faço parte desse grupo que acredita que a universidade existe para que o mundo fique melhor do que está.
CE: Como o Inclusp garante que agregando estudantes de escola pública está incluindo negros?
SGP: Os resultados desses dois anos do Inclusp mostraram isso. Houve um aumento.
CE: De 0,9% de negros?
SGP: Sim, isto é um aumento. Não é o aumento que o Movimento Negro gostaria. Mas estamos falando de lugares diferentes. O que a USP tem clareza é que não temos como alterar as condições de base que produziram a desigualdade neste país. O estudante que aqui ingressa é da escola particular e pode pagar escola e cursinho. Com algumas exceções de ótimas escolas particulares, você também tem muitas escolas particulares com uma qualidade que deixa a desejar. Não é para dizer que a escola particular prepara melhor o aluno para a USP do que a escola pública. O estudante que está na escola particular, geralmente, faz parte de um dos segmentos mais favorecidos da população. Eles têm na universidade uma meta. Há também elementos favorecidos economicamente que consideram a universidade um objeto de consumo.
CE: A USP não é excludente?
SGP: A USP é excludente e, ao admitir isso, estamos tentando mostrar uma perspectiva de mudança. Mas também estou sendo absolutamente aberta em afirmar que nós não somos ingênuos de acreditar que de um dia para o outro faremos uma grande transformação.
CE: Por que os bônus aumentaram de 3% para até 12%?
SGP: Primeiro foi a confirmação da hipótese de que o bônus amplia o número de estudantes de escola pública. Segundo, foi a constatação do bom desempenho dos alunos que entraram pelo bônus. Os grupos conservadores da USP que se colocaram contra o Inclusp, porque afirmavam que estaríamos abaixando o nível da universidade, se calaram. E vão se calar mais. Com esses dois apoios tivemos argumentos acadêmicos para avançar no programa. E passamos para ampliação do bônus, que é muito significativa.
CE: Essa possibilidade de alcançar os 12% é quase nula?
SGP: Este ano é.
CE: Para atingir os 12% de bônus, o aluno precisa gabaritar uma prova seriada, o que lhe renderia 3% a mais, e gabaritar o Enem, que somaria mais 6%. No ano passado, apenas uma estudante acertou todas as questões do exame federal no Brasil inteiro. A USP quer o superdotado da escola pública?
SGP: Não. Vamos provar isso com o resultado. Quando você analisa os resultados que inscritos e ingressantes na USP, formados na escola pública, tiveram no Enem, temos uma base mostrando que esses alunos terão um bônus superior aos 3%. Não vai chegar aos 12%, mas será significativo. Na avaliação seriada é um pouco diferente. O objetivo principal dela é aproximar a USP da escola pública. E isso leva tempo. Vamos ter resultado pleno entre seis e dez anos.


