Por fim, move-se
O país guarani deixa para trás os herdeiros de Alfredo Stroessner e seis décadas de estagnação conservadora
Depois de tentar arrebatar à esquerda não só a bandeira da luta contra o imperialismo quanto a palavra de ordem de “mudança” – que no seu caso soava, mais que hipócrita, surreal –, o conservador Partido Colorado chegou a proclamar nova vitória. Ainda sonhava prolongar o monopólio do poder que mantinha desde 1946 – sem falar do período de 1811 a 1904, quando também dominou inteiramente o Paraguai.
Esperou por uma milagrosa virada no interior a favor de sua candidata, Blanca Avelar, até mais da metade dos votos serem contados. Não adiantou. Nesse país onde não há segundo turno, a divisão dos colorados entre dois candidatos, ela e o general golpista Lino Oviedo, combinada com o alto comparecimento, foi fatal aos herdeiros do ditador Alfredo Stroessner.
O Vaticano fez o que pôde para ajudar os conservadores. “Aposentou” o bispo Fernando Lugo de sua diocese aos 55 anos, em janeiro de 2005, por sua militância em favor dos camponeses e seu apego à Teologia da Libertação, e o suspendeu desde que anunciou a candidatura.
Não adiantou. O ex-bispo de formação jesuíta teve 40,8% dos votos. Foi uma margem de mais de 10% sobre a candidata governista, duas a três vezes maior do que indicavam as pesquisas de boca-de-urna.
À crista de um movimento popular ascendente que inclui tendências radicais, mas também lidando com uma elite extremamente conservadora sem ter garantias de apoio militar, Fernando Lugo enfrenta dilemas em parte análogos aos de Evo Morales – e, talvez por isso, proclamou-se na mesma rota na qual se declarou o boliviano ao vencer a eleição: entre Lula e Hugo Chávez.
O presidente eleito preferiu se comparar com o mais moderado dos presidentes de centro-esquerda da América Latina: “Tenho uma sintonia absoluta com meu querido amigo, o presidente Tabaré (Vázquez), com o qual compartilhamos a mesma idéia de fortalecer a unidade continental e a integração regional”. Os problemas e possibilidades econômicas de seu país se parecem mais, porém, com os da Bolívia, tanto pela pobreza e dependência quanto pelo potencial agrícola e energético.
Lugo tem uma vantagem em relação ao colega boliviano: não precisa se preocupar com movimentos separatistas e conflitos étnicos. Seu país é étnica e geograficamente menos heterogêneo e sua elite hispânica aceitou há algum tempo os aspectos indígenas de sua identidade: a Constituição de 1967 reconheceu o guarani como uma língua nacional e, a de 1992, o equiparou ao castelhano como língua oficial.
Por outro lado, a Aliança Patriótica que o elegeu, além de estar em minoria no Legislativo – ficará com cerca de um terço dos assentos, apenas –, é muito mais heteróclita e menos sólida que o MAS de Evo ou a Frente Ampla uruguaia. Improvisada há apenas oito meses, a coalizão encabeçada pelo Partido Liberal Radical Autêntico ao qual pertence o vice Federico Franco, de centro-direita e “ultramercadista” no entender do atual presidente conservador Nicanor Duarte Frutos, inclui nove partidos e 20 organizações sociais, sindicais e camponesas, cujo espectro se estende até a extrema-esquerda.
Será muito difícil Lugo fazer avançar sua proposta política apenas pelos meios parlamentares formais e tradicionais e ainda mais aprovar a proposta de Constituinte que pretende para 2009. Mas, se precisar recorrer à mobilização popular para pressionar o Congresso, terá de se aproximar, na prática, de lideranças como Rafael Correa e Evo Morales.
Os setores urbanos do empresariado deram sinais de estar dispostos à acomodação. A Câmara de Anunciantes do Paraguai, por exemplo, mostrou-se receptiva e pediu regras claras. Os do campo, porém, estão de orelhas em pé e garras à mostra: “Não queremos que ponham impostos à soja. Há muitos setores que não tributam e muito dinheiro que não chega à microeconomia”, protestou Claudia Russel, presidente da Associação de Produtores de Soja (APS) contra as propostas do novo presidente.
Os grandes proprietários rejeitam com ainda mais ênfase a proposta de reforma agrária, é claro, conforme explicitou sua União Gremial. Mas o Movimiento Campesino Paraguayo não deixará de tentar fazer valer as promessas de Lugo: “77% da terra pertence a 2% da população, enquanto os produtores familiares estão em crise”, disse seu representante, Elvio Trinidad, ao jornal argentino Página/12.
No campo externo, o cenário que se apresenta ao novo presidente parece, em comparação, menos difícil. Róseo, até, pode-se dizer. Como o mais recente representante da onda que agora tinge quase toda a América do Sul de tons variando do rosa ao vermelho, tomará posse com o respaldo de vários aliados e prontos a disputar sua simpatia.
Por parte da ala moderada, o governo brasileiro acena com a possibilidade de antecipar a compra de energia a ser consumida depois de 2023. Isso permitiria ao Paraguai aumentar em 180%, no curto prazo, a atual receita líquida de 300 milhões de dólares anuais que recebe de Itaipu, que representa cerca de um terço do orçamento nacional. Em compensação, o Paraguai perderia a opção de oferecer essa energia a preço superior a um terceiro país (na prática, a Argentina), como teria direito após essa data.
Lugo quer mais, quer rever os tratados de Itaipu (com o Brasil) e Yacyretá (com a Argentina) e triplicar a receita atual sem comprometer a futura, discurso ao qual dedicou algo como 60% do tempo da sua campanha e no qual acabou por ser imitado, até com mais estridência, pelos governistas e pelo conservador ABC Color, o maior jornal paraguaio.
Embora o chanceler brasileiro, Celso Amorim, defenda uma posição “generosa” em nome dos interesses regionais de longo prazo, a atitude inicial de Brasília é rejeitar a revisão do acordo e qualquer aumento substancial da tarifa. A energia de Itaipu, a 32 dólares (não incluindo royalties e rendimento de capital) o megawatt-hora, está barata pelos padrões internacionais (cerca de 108 dólares no mercado estadunidense) ou mesmo brasileiros (média de 70 a 80 dólares), mas o tratado binacional é legalmente sólido e a equiparação ao mercado internacional pedida por Lugo é incompatível com as possibilidades do Brasil ou de qualquer economia periférica da América do Sul.
O mais provável é que Lugo consiga alguma melhora nas atuais condições de venda da metade paraguaia da energia de Itaipu, mas em medida muito menor do que desejaria. E, neste caso, não são aplicáveis as ações como as tomadas por Evo Morales em relação à Petrobras. Além de ter apenas metade da usina em território paraguaio, Itaipu não é uma empresa estrangeira submetida às leis paraguaias, mas um empreendimento protegido por um tratado binacional.
Da ponta radical, Hugo Chávez adiantou-se a oferecer ajuda econômica. Da cúpula extraordinária da Alba, realizada em Caracas, em 23 de abril, para apoiar o governo boliviano contra os separatistas de Santa Cruz, os cinco países membros festejaram as boas-novas de Assunção. “O eixo do mal continua crescendo”, ironizou Evo Morales.
Nada indica que o novo governo paraguaio se somará à aliança bolivariana, mas de fato os EUA sofreram outro revés. De saída, já pode reservar a gaveta para seu projeto de criar uma base aérea no Paraguai para compensar a iminente perda de Manta, no Equador (reportagem à pág. 10). A imunidade e os privilégios das tropas estadunidenses no Paraguai, provavelmente, serão revistos, reduzindo a presença do Pentágono na área da tríplice fronteira.
Lugo também anunciou que seu país, um dos últimos que ainda se recusam a reconhecer a Revolução Chinesa de 1949 e mantinha relações com o governo de Taipé, estreitará relações com Pequim. Mais um sinal de que esse Paraguai estagnado há mais de 60 anos vai, por fim, acertar o passo com a história do mundo.


