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Edição 28

Lições da burguesia

By Rosane Pavam

A enfática crítica teatral e a iconografia de Machado de Assis são resgatadas no centenário da morte do autor

Machado de Assis encantou-se por ela, embora não fosse especialmente bonita. Mas a beleza não conseguiria medir o talento de Adelaide Ristori. Italiana, essa atriz era a maior de todas quando a tragédia entrava em cena no século XIX. Em 1869, aos 30 anos, o autor de Dom Casmurro correra para vê-la em um Rio de Janeiro trágico de analfabetismo. Antes que brilhasse no romance e no conto, Machado, cujo centenário de morte se recorda em setembro deste ano, já era o maior crítico de teatro do Brasil. O escritor fora reverenciado publicamente por José de Alencar, não só por seu talento ao escrever, mas simplesmente por se dedicar a analisar a obra dos outros. Para Machado de Assis, o elogio do romancista e dramaturgo cearense comparava-se a um alimento. Alencar, como ele o via, era o “chefe”, e a senhora Ristori, a dama. O ânimo de continuar exercendo a crítica não poderia ser maior.

O jovem escritor presenciara a atuação nada afetada da atriz italiana quatro vezes. Maravilhado, comentara para O Diário do Rio de Janeiro a performance sob o pseudônimo de “Platão”. A crítica, como toda aquela do período, enfocava em uma primeira parte a obra encenada, para depois se dedicar à encenação, ou ao trabalho do ator. Disse Platão sobre Adelaide Ristori, que protagonizava Medéia como a concebera Ernest Legouvé: “Uma contração do rosto, uma expressão dos olhos vale às vezes um discurso inteiro, e ninguém melhor que Ristori possui esse dom de fazer-se entender pelo gesto aos que não podem entendê-la pela língua”. Raramente nos lembramos dessa crença de Machado no teatro, ou mal sabemos dela, já que a obra completa de nosso maior escritor jamais foi de fato publicada. Mas um centenário é uma possibilidade para novas realizações editoriais. A Iconografia de Machado de Assis, pelo Instituto Moreira Salles, constitui uma dessas iniciativas. Em setembro, com organização de Hélio de Seixas Guimarães e Vladimir Sacchetta, a obra acrescerá mais de uma centena de imagens àquelas poucas conhecidas do autor, numa edição que promete arrancar da imobilidade o retrato visual do maior escritor brasileiro. A imagem de Machado impressa em um maço de cigarros Henrique Bastos ainda no século XIX? Você a verá, assim como, neste centenário, terá à disposição a correspondência ativa e passiva do autor, reunida por Irene Moutinho, Sílvia Eleutério e organizada por Sérgio Paulo Rouanet para a Academia Brasileira de Letras. Mas não será tudo. O professor inglês John Gledson, autor da mais importante coletânea de contos do autor, entre outras obras relacionadas a ele, estará encarregado de organizar parte de suas crônicas. Ele agora encaminha, com a pesquisadora Lucia Granja, uma edição delas para O Cruzeiro, pela Unicamp, além da série para A Semana, que ainda lhe consumirá, segundo informa, algum tempo.

Para Gledson, a reunião da crítica teatral de Machado de Assis é um fato que merece destaque equivalente à sua correspondência. Aquela produção foi coletada pelo professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo João Roberto Faria. Em 2003, ele organizou para a editora Martins Fontes a obra teatral completa de Machado de Assis. O volume que apresenta em setembro pela Perspectiva se intitulará Do Teatro (Textos Críticos e Escritos Diversos). Nele estará reunida toda a crítica de Machado, de artigos iniciais para o jornal Marmota Fluminense até seus pareceres como censor, três deles inéditos em livro, e uma carta inédita a uma dramaturga de nome Maria Ribeiro, que ele admirava. Pesquisador um dia orientado pelo crítico dos críticos Décio de Almeida Prado, João Roberto Faria tem um olhar diferente, extensivo, sobre Machado. Ao debruçar-se sobre uma produção que a história literária reputa como menor, ele prefere vê-la sob um ângulo novo. Não que o teatro de Machado signifique o melhor de sua produção, argumenta Faria, atualmente chefe do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP. Mas dedicar-se ao teatro, para Machado, significava adequar o Brasil às tendências culturais irradiadas da França por dramaturgos como Émile Augier e Alexandre Dumas Filho.

Algumas das páginas que Machado escreveu nas peças O Caminho da Porta; Tu Só, Tu, Puro Amor (esta uma composição para o tricentenário de morte de Luís de Camões, em 1880, na qual o poeta surge na juventude) ou Lição de Botânica, se não se podem comparar às que ele perpetrou em outros gêneros ficcionais, adaptam-se a um espírito de época, um pouco à moda de sua poesia, também renegada e agora objeto da organização de Cláudio Murilo Leal em Toda Poesia de Machado de Assis (Record). Os tempos ditavam a Machado que era preciso negar os arroubos românticos do ator João Caetano, habitualmente exercidos no Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio, e os recursos do baixo cômico praticados por dramaturgos como Martins Pena em auditórios nos quais, durante os intervalos, era possível comer peixe frito envolvido em jornal. Embora as comédias de Machado de Assis tivessem um toque humorístico mais carregado do que as da comédia realista sóbria de Alencar, ele não se distanciava de seu ideário. Escrever para o palco, especialmente para o Ginásio Dramático, era tratar o público de outra forma. O textos teatrais leves, ao fim da vida, revelaram-se um abrandamento diante da contundência e ironia que manteve ao olhar a vida em romances e contos. Em O Caminho da Porta, por exemplo, peça de 1862, Machado de Assis mostrava uma jovem diante de pretendentes que não faziam jus a sua inteligência. A estes que não a agradavam ela mostrava a passagem para a rua. Em Lição de Botânica, de 1906, outra personagem atilada convence o obcecado professor sueco Barão Sigismundo de Kernoberg de que a ciência poderia ser praticada na companhia de uma mulher.

“A esposa fortifica a imagem do sábio”, dizia a personagem Helena ao divertido e atrapalhado Barão. “Será vaidade de sexo? Pode ser”, ela prosseguia, “mas eu creio que o melhor prêmio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.” João Roberto Faria crê, por intuição ou desenvolvimento de um raciocínio de pesquisador, que Helena seja uma homenagem a Carolina Augusta Xavier de Novais, a doce esposa que Machado perdera dois anos antes, em 1904. Para Machado, como para o Barão, deveria ser mais importante que o reconhecimento viesse da mulher do que de muitos companheiros intelectuais. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas inseria o teatro em seu esforço de civilizar o Brasil. Civilizar, então, significava mudar a perspectiva da produção escravista para adotar um molde burguês de se situar no mundo, baseado, em sua boa face, no trabalho, na honradez e nos valores familiares. Se mudava a mentalidade produtiva brasileira, mudávamos, na cena teatral, todos nós. Adelaide Ristori, nesse contexto, era o supra-sumo da realização interpretativa, e também um modelo que firmava o palco como um lugar clássico de “distração e ensino”. “Ao teatro!”, bradava o escritor, porque ali a sociedade mostraria todas as suas faces, “frívola, filosófica, casquilha, avara, interesseira, exaltada, cheia de flores e espinhos, dores e prazeres, de sorrisos e lágrimas”. No teatro havia “o vício em contato com a virtude; o amor no coração da mulher perdida, como a pérola no lodo do mar; o talento separado da ignorância apenas por um copo de champanhe”. Ali se viam “as cenas espirituosas da comédia moderna envolvendo uma lição de moral em cada dito gracioso”. A crítica que Machado fez sobre Adelaide, e que o professor João Roberto Faria analisa na introdução de seu livro inédito, mostra o quanto o escritor era arguto e sabia ler um espetáculo. A certa altura do texto, descrevendo o trabalho de interpretação da atriz, ele afirma: “Cada gesto, cada passo, cada movimento revela uma intenção plástica e dá sempre uma atitude artística”. A pertinência dessa afirmação Faria buscou nas memórias de Ristori, Ricordi e Studi Artistici, na passagem em que ela comenta a entrada de Medéia em cena, acompanhada dos dois filhos. “Trazia nos braços o pequeno Melanto, que apoiava sua cabeça loira em meu ombro, e uma parte do manto turquês, que devia em seguida cair novamente sobre as minhas costas, cobria metade de minha cabeça e escondia quase inteiramente a do menino”, ela escreveu. “Eu havia colocado o outro filho, Licaonte, do meu lado esquerdo; ele se apoiava em mim, demonstrando enorme fadiga. No alto da montanha, eu parava um instante, como que enfraquecida. Observo que essa postura, como muitas outras, eu havia adotado com base no estudo dos admiráveis grupos de Níobe, que se encontram na famosa Galeria dos Uffizzi de Florença, na sala dita de Níobe.”

Argumenta Faria que Machado acertou em cheio ao perceber a “intenção plástica” nos gestos da intérprete. “Ristori conta que essa aparição, em Paris, provocou enorme aplauso”, discorre o professor. “E que ficou surpresa quando, no Rio de Janeiro, ao entrar assim em cena, foi recebida por uma acolhida glacial. Era sua estréia. E ao aparecer no alto da montanha, agrupada com os filhos, não ouviu nenhum aplauso ou manifestação de agrado.” A atriz ponderou que talvez a platéia estivesse intimidada diante dela ou da presença de dom Pedro II, mas é possível, simplesmente, que o público, como o próprio Machado, não associasse a imagem do museu florentino à sua “intenção plástica” no palco. A frieza dos brasileiros se dissipou ao primeiro efeito cênico, quando Medéia se mostrou dilacerada pelo lamento dos filhos pedindo pão. Machado de Assis, um educador. Ele teve, a partir de 1862, e com algumas interrupções, o poder de vetar peças teatrais inadequadas à moral, à religião e à imagem do imperador do Brasil. Ser um censor não lhe pesava: era, pelo contrário, uma honraria, cedida aos pensadores de destaque da cultura. O Conservatório Dramático orientava a polícia, mas a polícia do imperador estava acima do Conservatório se julgasse uma obra ofensiva – tinha, solitária, o poder de interditar um espetáculo “autorizado”. Nessa sua atuação como censor, o escritor não relaxava. “Como os pareceres eram protegidos pelo anonimato, Machado era ainda mais rigoroso como censor do que como crítico”, conta Faria. O que o escritor diz neste parecer, publicado em periódicos e agora incluído na edição da Perspectiva, é demonstrativo de um mau humor peculiar. Pondera o escritor em 1863: “A comédia em um ato A Caixa do Marido e a Charuteira da Mulher, assinada modestamente por três iniciais, parece obra de obscura paternidade, que não quer aparecer e recolhe-se no mistério. Quem lê a comédia vê logo que é ela uma péssima tradução de francês, deturpada evidentemente, sem forma portuguesa nem de língua nenhuma. Disse comédia, quando ela é farsa, pela indicação do frontispício e pelo contexto. É uma farsa grotesca, sem graça, lutando a grosseria com o aborrecimento. Se estivesse nas minhas obrigações a censura literária, com certeza lhe negaria o meu voto; mas, não sendo assim, julgo que pode ser representada em qualquer teatro”.

Um leitor habituado ao Machado de Assis conhecido entenderá essa sua faceta dificilmente. Isto, em grande parte, pelo fato de as obras completas do autor ainda não terem sido promovidas. Sem todos os textos de Machado adequadamente reunidos, talvez tenhamos dele, um pouco à moda do que lembra Lucia Miguel Pereira na biografia Machado de Assis (Itatiaia-Edusp, 1988), uma imagem inerte. “Como a estátua, a celebridade fixa o indivíduo em atitudes que podem ter sido culminantes, ou características, mas não foram únicas nem habituais. Uma e outra tiram-lhe o movimento, o desalinho”, ela escreve neste texto de 1936. “É uma pena que estejamos homenageando Machado de Assis no seu centenário de morte sem que tenhamos dele, ainda, uma obra completa”, diz o professor João Roberto Faria. “Sabemos que tudo o que ele escreveu não cabe nos três volumes de obras completas da Editora Nova Aguilar. Ficaram de fora crônicas, peças de teatro, contos. Quem organizou o trabalho deveria saber que muita coisa ficou de fora.” O escritor Rodrigo Lacerda é o editor da Nova Aguilar responsável por adicionar textos de Machado às obras completas em um quarto volume, aguardado para o segundo semestre. “Considerando que Machado era, acima de tudo, um ficcionista, se a nova edição não for 100% completa, ela é 99,9% completa”, ele crê. “Talvez mais fosse o caso de relativizar o quanto a correspondência e certos itens da seção chamada de miscelânea (crítica literária, crítica teatral) podem ser considerados propriamente a obra do escritor.” O quarto volume completaria a edição organizada por Afrânio Coutinho em 1961, com textos fixados por José Galante de Sousa. “Só posso supor que o que orientava aquela edição era o desejo de reunir o que de melhor e mais preciso fosse possível na época, tanto no elenco dos textos a serem incluídos quanto no que se refere à fortuna crítica”, diz Lacerda. Para ele, “num autor que publicou ativamente na imprensa por décadas a fio, tanto ficção como não-ficção, a certeza absoluta de que se encontrou tudo que ele publicou talvez jamais se concretize”.

João Roberto Faria lamenta que uma edição crítica como a iniciada nos anos 70 pela ABL, em parceria com a Civilização Brasileira e o Instituto Nacional do Livro, tenha se desfeito sem uma explicação conhecida. Aquela era uma promessa real de restabelecer a injustiça em torno de Machado, já anteriormente fixada nas três dezenas de volumes, incompletos e contestados, da Editora Jackson. Na Academia, na editora ou na Fundação Biblioteca Nacional não se levanta a razão para decisão tão antiga. O que se sabe é que, por meio de uma portaria de 1958, uma Comissão Machado de Assis ficou instituída, com a presença de acadêmicos como Galante de Sousa, Raimundo Magalhães Junior e Antônio Houaiss, e que, depois de 15 volumes que reuniram de forma organizada os principais romances e poesias, nos anos 70, a coleção foi encerrada. Hélio de Seixas Guimarães, um dos autores da Iconografia, vê na inexistência de um trabalho coordenado em torno de Machado um “sintoma de uma condição cultural”. Faz falta, a seu ver, uma comissão como a da ABL para que surja uma reflexão ampla e direcionada em torno do escritor. Assim também pensa John Gledson. Autor do renomado estudo “Os Leitores de Machado de Assis”, Guimarães lembra de, no ano passado, ter ouvido em Londres que se fazia caso à toa, no Brasil, em torno da obra incompleta de Machado, já que nem todos os autores europeus a teriam merecido até agora. “O último volume da correspondência de Gustave Flaubert saiu, finalmente, há bem pouco tempo”, declarou John Gledson à CartaCapital. “Se os professores vêem o assunto assim, deve ter sido criado um mito acerca dessas obras incompletas, e se eu fui em parte responsável por isso, é o caso de dizer sorry!” Mas Hélio Guimarães argumenta que uma coisa é não haver uma ou outra obra completa de escritor europeu – e outra, bem diferente, a de inexistir uma obra completa de “nosso escritor oficial”. Daquele escritor fixado como símbolo do “mulato operoso” durante o Estado Novo, a Iconografia promovida pelo Instituto Moreira Salles parte em esforço solitário para restabelecer o Rio de Janeiro de Machado de Assis. Contudo, não faz isto pela amplitude de suas paisagens, como aponta o organizador Hélio de Seixas Guimarães, mas pela intensidade das memórias miúdas, de suas relações sociais. São duas centenas de imagens, que incluem fotos, desenhos, manuscritos, cartões, contratos de publicação, todos dispostos em ordem cronológica. E, de repente, Machado é um homem de novo, percorrendo as ruas do centro em busca da vida e da arte que o teatro um dia pretendeu dar ao Brasil.