Diagnose ou catequese?
Eis que, na reunião com os pais e mestres, o assunto veio à baila. Havia um professor-melancia no colégio: verde por fora e vermelho por dentro.
Era eu professor de Filosofia em colégio de alta classe social. Colégio religioso e feminino. As moças, de modo geral, eram estudiosas, atentas e disciplinadas. Eu procurava estudar a Filosofia pela História da Filosofia. Adotava um manual muito citado à época, de um autor espanhol, Manuel Garcia Morente, cuja escrita era muito adequada ao então colegial. Ao lado desse livro havia o de Leo Hubermann, para dar um contexto histórico de época. As coisas seguiam normalmente, mas o livro parava em Immanuel Kant e eu queria chegar ao existencialismo e à fenomenologia. E assim teria de passar por autores mais sensíveis, pela época, como Hegel e Marx. Quando foi a vez de Marx, entendi que deveria propor o Manifesto Comunista como leitura analítica e crítica. Mas, tratando-se de colégio religioso, resolvi que deveria propor a leitura da encíclica Populorum Progressio, do então papa Paulo VI. As estudantes ficaram excitadas. Ler Marx, no colegial, em escola religiosa, em plena ditadura, e que tinha no comunismo um dos seus bichos-papões. Para algumas alunas, o texto era expressão de uma realidade e que era assim mesmo. A saída do capitalismo sugerida por Marx era um absurdo. Contudo, achavam a posição da encíclica mais razoável.
Eis que na reunião com os pais e mestres, o assunto veio à baila. Havia um professor-melancia no colégio: verde por fora e vermelho por dentro. Além do mais, estava insinuando que o papa era de esquerda. A discussão esquentou. O Exército deveria ser comunicado, a Secretaria de Educação, a madre-geral etc. etc. Meus colegas saíram em defesa: liberdade de expressão, conhecimento da Filosofia, pluralidade e tudo o mais. Pouco adiantava! Foi quando resolvi intervir. Como a situação, previsivelmente, era delicada, eu havia me preparado. À época, o ministro da Educação era Jarbas Passarinho, que havia se posicionado a respeito do ensino do marxismo da seguinte maneira: a revolução aceita diagnose, mas não aceita catequese. Estava no Estadão. Além disso, a TV Cultura de São Paulo havia passado uma série sobre a China: Inside in the Red China. Creio que o diretor da tevê era o Coutinho Nogueira. Resolvi, então, após um debate acalorado, convidar os pais e as mães a assistirem minhas aulas sobre Marx e o marxismo e, se entendessem que ali havia catequese, poderiam solicitar minha demissão, que eu, de bom grado, aceitaria. Afinal, conhecer não ocupa lugar e um conhecimento mais preciso evitaria a disseminação de informações equivocadas. Os pais se aquietaram na reunião e nenhum deles veio participar das aulas.
Narro esse fato tanto para mostrar a liberdade de expressão que havia no dito colégio quanto para evidenciar o interesse das estudantes e a censura dos pais. Lembrei-me de um célebre texto de Sartre sobre a Resistência chamado A República do Silêncio. Talvez seja nos tempos da ditadura que se reconheça a preciosidade e a vivência da liberdade.

