Do mundo virtual à realidade escolar
Para o educador espanhol Antonio de Las Heras, as tecnologias da informação e da comunicação chegam às escolas “de fora para dentro”
Todo processo de inovação, algo necessariamente complexo, pode ser mais bem compreendido e explicado por meio de uma sugestiva metáfora extraída do mundo físico. Ao falar do que seria inovar dentro do ambiente escolar em uma das conferências do V Congresso Educared, realizado em novembro na Espanha, o professor Antonio de Las Heras, diretor do Instituto de Cultura e Tecnologia da Universidade Carlos III de Madri, resumiu esse processo em quatro fases: evaporação, condensação, precipitação e aplicação.
A primeira etapa, evaporação, indicaria aquele momento em que as ideias estão sendo formadas em diferentes cérebros, ainda de modos tão sutis e impalpáveis como os vapores que formarão as nuvens. Quando várias ideias se enlaçam em torno de alguma maior, gerando um fluxo de conhecimento, estamos na segunda fase da inovação, a condensação. Para esta etapa, afirma Antonio de Las Heras, o espaço virtual das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) mostra-se um ótimo condutor de ideias condensadas, prestes a se precipitar. Se essa precipitação acontece, ou seja, se o fluxo de ideias é capaz de gerar ou aperfeiçoar um novo produto ou processo, entramos na terceira fase da inovação na escola, um lugar especialmente fértil para transformar vapores sutis em nuvens, e estas em chuva. Por fim, é preciso que essa precipitação, como a água represada em um canal, seja direcionada, para que a força gerada seja transformada em algo útil e inovador, como a água que se precipita entre as pás do moinho, gerando movimento. Esta é a derradeira fase da inovação, a da aplicação.
Antonio de Las Heras partiu desta metáfora para exemplificar como a internet inaugura novas possibilidades de invenção e renovação nos processos de ensino-aprendizagem. Ao término de sua conferência, concedeu entrevista a Ricardo Prado, na qual aprofundou algumas de suas observações sobre o uso das TIC na escola.
Carta na Escola: Por que as TIC ainda não fazem parte da formação inicial dos professores, seja no Brasil, seja na Espanha?
Antonio de Las Heras: Eu creio que o fenômeno atual das TIC incorporadas ao processo de educação tenha acontecido “de fora para dentro”, ou seja, seguiu por outros caminhos educativos que não os tradicionais do sistema escolar. Na verdade, as TIC foram impregnando a sociedade e, sem dúvida, os núcleos mais estruturados, até mais rígidos, como podem ser os sistemas educativos de formação dos professores, se revelaram menos porosos a essas influências, já fortemente presentes na sociedade moderna. Sem dúvida, nesse processo de apropriação das novas tecnologias por parte dos núcleos formadores de professores, acontecem algumas contradições importantes e, como você mesmo assinalou em sua pergunta, essas tecnologias ainda não se encontram incorporadas ao processo de formação inicial dos professores. É preciso estar atento para que não se reproduza aqui um desajuste entre o conhecimento que os alunos já possuem das TIC e o que os professores recebem em sua formação inicial, já que esse fenômeno vem se produzindo por porosidade, por derrame, desde a década de 1980, e não por uma iniciativa feita pelo próprio sistema, de cima para baixo. É por isso que a incorporação se dá dessa maneira bem mais trabalhosa.
CE: Às vezes a introdução da internet em sala de aula pode gerar um efeito perverso, apontado pelo sociólogo Manuel Castels na conferência de encerramento: o aumento da disparidade entre os melhores e os piores alunos. Como enfrentar esse risco?
AH: Por isso é importante interpretar a entrada das novas tecnologias da informação e da comunicação em sala de aula de forma especular. As TIC cumprem, seja em uma escola, seja em uma empresa, uma função especular: elas refletem, de maneira mais ou menos deformada, mas sempre amplificada, a realidade daquela empresa ou daquela escola. Se esse ambiente tem um desequilíbrio, uma desigualdade de qualquer espécie, essa imagem especular na qual a internet se mostra evidenciará isso. Portanto, é normal que, ao ser introduzida no ambiente escolar, a internet em um primeiro momento intensifique esse desequilíbrio. Mas, observe: quando nos colocamos diante de um espelho, nós próprios tentamos mudar a imagem que encontramos ali. Ninguém fica impassível diante de um espelho, ele sempre nos incentiva a mudar nossa própria imagem. Tentamos mudá-la, para adequar essa imagem àquela que temos como ideal. Portanto, é normal que a desigualdade entre os alunos de uma escola seja evidenciada pela internet; e, também, o que se espera é que, como toda imagem especular, ela nos incite a tentar suavizar essas diferenças, que sempre existirão.
CE: Quando a internet é introduzida no ambiente escolar, não se corre o risco de criarmos uma geração muito desatenta e dispersiva ou essa dispersão é inerente à entrada das TICs?
AH: O sistema educativo terá de criar novas formas para enfrentar esse desafio, que eu comparo com um migrante da zona rural que chega à grande cidade. As capacidades e as possibilidades que ele vislumbra ao chegar neste novo ambiente são imensas, mas o primeiro efeito que se produz nele é uma sensação de deslumbramento diante do cenário. É inevitável que ele se perca neste novo ambiente várias vezes, até criar o seu próprio roteiro, o seu mapa. Com o tempo, saberá que é preciso evitar determinados bairros, é preciso fazer este ou aquele caminho para atingir alguma meta, isso se vai adquirindo. Algo parecido acontece com a internet, que é como uma grande cidade e, neste caso, não há nativos ou migrantes: todos procedemos como esse migrante rural em um ambiente urbano. Todos tivemos algum tipo de medo, de desorientação, de desajuste ou de deslumbramento diante das imensas possibilidades dessa “nova cidade”. Mas penso que este é um processo normal nessa etapa de apropriação tecnológica ainda recente.
CE: As TIC também podem mudar a forma como se avaliam os alunos?
AH: Ela não apenas pode, mas deve mudar o formato da avaliação na escola. Porque se se mantém o mesmo sistema de avaliação que havia antes da introdução das TIC no ambiente escolar, estamos diante de uma contradição inaceitável. É preciso caminhar, progressivamente, rumo a uma forma de avaliação mais contínua e mais colaborativa. Isso deve acontecer na medida em que os professores introduzam outros elementos avaliativos mais relacionados a essas tecnologias, que guardam pouca semelhança com o formato da aula tradicional. Com isso, surgirá uma série de valores e de indicadores de avaliação, alguns colaborativos, e os alunos devem ter um seguimento de seus estudos que torne a avaliação uma parte essencial deles. Não me passa pela cabeça imaginar que, ao fim de um período letivo no qual se usaram intensamente recursos tecnológicos na aprendizagem, um professor pense em dar uma prova escrita tradicional, com perguntas e respostas. Seria um desperdício.
CE: No Brasil, uma pesquisa recente, feita pela Fundação Getulio Vargas, apontou como principal motivo da evasão escolar no ensino médio a falta de interesse pela escola. Na Espanha, a evasão na mesma faixa etária também é elevada. As TIC podem criar um atrativo para esse tipo de aluno reticente?
AH: Penso que sim, se entendermos as tecnologias da informação e da comunicação em toda a sua amplitude. Ou seja, é uma mediação tecnológica que em si mesma atrai os jovens, que inclusive possuem destreza e interesse em utilizá-la. Mas é preciso haver, por parte dos professores, uma concepção completamente distinta dos conteúdos e da forma como devemos trabalhar com eles. É preciso, antes de tudo, superar esse desafio pedagógico, de comunicação didática. É preciso compreender que esses conteúdos, dispostos na tela, não podem ser os mesmos que um livro e uma lousa podem conter, nem podem ser transmitidos da mesma maneira. Se há, portanto, um projeto pedagógico adequado por trás do uso das TIC no ambiente escolar, seu uso pode, sim, ser um fator de atração. Se não houver isso, será um atrativo muito superficial e não deve alterar esse quadro de evasão, já que o que é atraente hoje pode não ser mais amanhã. É preciso que a aula e o próprio sistema educativo estejam de acordo com o mundo em que vivemos. E esse não é um desafio apenas para os países mais desenvolvidos, que possuem uma infraestrutura de TIC mais desenvolvida. Seria aprofundar a diferença que já existe. Vale assinalar, também, que este é um desafio igual para todos os países, a despeito de seus desequilíbrios e carências tecnológicas.
CE: Há algum país que sirva de exemplo em relação ao uso das TIC na educação?
AH: Sempre recorremos aos países nórdicos como modelos, porque são os que melhor souberam integrar todos os fatores para que o uso de computadores esteja de fato integrado às escolas, e os resultados internacionais mostram isso. Aliás, prefiro falar nas TIC como fazendo parte de um processo de intervenção pedagógica que também leva em consideração outros fatores importantes na educação, como a infraestrutura material nas escolas e, tão importante quanto, a valorização social do professor. Apenas a instalação da infraestrutura não é garantia de presença das TIC no processo de ensino-aprendizagem, como vimos acontecer em algumas unidades autônomas aqui na Espanha, com resultados bastante desiguais. Ficou claro, por exemplo, que não adianta apenas prover classes, alunos e professores com laptops sem que o corpo docente tenha sido previamente preparado para trabalhar com eles, e sem que houvesse à disposição material especialmente preparado para esse fim.

