Ideias sustentáveis, escolas idem
Segunda edição do Prêmio Minha Comunidade Sustentável concretiza projetos de escolas que, ao ensinar, solucionam problemas de suas comunidades
Na comunidade indígena de Mangueira, município de Amajari, em Roraima, moram cerca de 150 pessoas; 44 são estudantes do ensino fundamental da Escola Estadual Indígena Tobias Barreto. Segundo o professor Paulo Roberto Temóteo, a comunidade convive com a constante escassez de alimento. Casos de desnutrição e desidratação são frequentes entre seus alunos. Já em Carlinda, em Mato Grosso, e em Riachinho, no Tocantins, o desmatamento ameaça a biodiversidade nessas duas regiões de Cerrado. No assentamento Bela Vista, em Jaguaruana, no Ceará, a merenda escolar oferecida aos alunos da EEF. Nossa Senhora do Livramento é pouco diversificada e pobre, uma vez que todas as frutas, verduras e demais ingredientes são adquiridos fora da comunidade, sem controle de qualidade.
Professores dessas quatro localidades elaboraram projetos para enfrentar e solucionar esses problemas, de forma sustentável e envolvendo a comunidade escolar. O primeiro passo para a concretização dessas propostas foi dado na noite de 1° de dezembro, em São Paulo, durante a cerimônia de premiação da segunda edição do Prêmio Minha Comunidade Sustentável, organizado pela revista Carta na Escola e pela organização não governamental Ação Educativa. Ao todo, sete projetos criados por professores e alunos da educação básica foram selecionados e serão, graças ao patrocínio da TIM, viabilizados ao longo do ano letivo de 2010 (resumo dos projetos na próxima página).
Durante a premiação, em São Paulo, Ricardo Prado, redator-chefe de Carta na Escola, explicou que o prêmio tem como objetivo possibilitar que ações socioambientais nascidas nas escolas atuem sobre problemas de suas comunidades, sem abrir mão da aprendizagem significativa. E exemplificou com as transformações vividas por dez comunidades escolares vencedoras da primeira edição do prêmio (ao lado, as cidades contempladas nas duas edições do Prêmio Minha Comunidade Sustentável).
Para Vera Masagão Ribeiro, diretora-executiva da Ação Educativa, o processo de aprendizagem não é restrito apenas às crianças na sala de aula, pois em muitos casos extrapola para as comunidades. “A escola e a comunidade, em muitos momentos, se misturam”, concorda o professor Paulo Roberto Temóteo, da Escola Estadual Indígena Tobias Barreto, em Amajari, Roraima. Lá, segundo o professor, a escola é orientadora da comunidade e fonte de melhoria para a qualidade de vida. O Projeto Aruray prevê a construção de uma horta e um pomar escolar e a orientação da comunidade para evitar o uso de produtos químicos tanto no controle de pragas quanto na adubação da terra. Com isso, espera-se um enriquecimento da merenda escolar por meio de uma complementação verde, para erradicar os problemas de desnutrição.
Outra iniciativa vencedora desta edição do Prêmio Minha Comunidade Sustentável que mira a produção de alimentos saudáveis veio da cidade de Sabará, a 19 quilômetros de Belo Horizonte, onde será realizado o projeto Ecoalfabetização e Sala de Aula ao Ar Livre na Fazendinha, de autoria da professora Marília Carla de Mello Gaia, do Colégio Metodista Izabela Hendrix, unidade Fazendinha. Cerca de 200 jovens carentes frequentarão, concomitantemente ao ensino médio, aulas profissionalizantes em agroecologia e gastronomia. Partindo dos princípios da permacultura, que visa a criação de ambientes sustentáveis, as ações do projeto incluem a construção de horta, produção de húmus de minhoca, produção de biofertilizante, produção de sabão a partir de óleo de cozinha usado, elaboração de um livro de culinária orgânica pelos alunos e montagem de aquecedor solar de baixo custo, entre outras ações. “Os estudantes serão responsáveis pela condução das ações, sob supervisão dos professores”, explica a professora Marília.
Toda uma aldeia
Os sete premiados tiveram a oportunidade de dialogar com o educador mineiro Tião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), reconhecido por sua Pedagogia da Roda, inspirada nos saberes populares. “Para educar é preciso toda uma aldeia”, disse Rocha durante a cerimônia de premiação, ao contar uma de suas experiências como educador em Moçambique. Rocha relatou que, devido à destruição causada pela guerra civil, os moçambicanos sofriam de “melancolia, uma doença causada pela falta de perspectiva”. Segundo ele, o único local em que não encontrou essa melancolia foi em uma aldeia onde uma escola fora recentemente construída. “Todos da comunidade, mesmo que muitos fossem analfabetos, contribuíam para a formação dos jovens ensinando conceitos de agricultura ou culinária”, concluiu.
A palestra do educador Tião Rocha finalizou a cerimônia de entrega, que contou também com a participação do percussionista Dinho Nascimento e sua Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene.

