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Conhecimento global

Carlos Nobre, pesquisador do Inpe, propõe ensino interdisciplinar sobre os problemas ambientais e defende a tecnologia espacial para o Brasil

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Carlos Nobre tem dedicado sua carreira científica à Amazônia e desenvolveu pesquisas pioneiras sobre os impactos climáticos do desmatamento. No Inpe quantifica as variações climáticas do planeta e projeta as mudanças que elas podem acarretar. Nobre faz parte da equipe que desenvolve no instituto o Centro de Ciência do Sistema Terrestre, uma nova área do conhecimento que estudará as alterações sociais, econômicas e naturais causadas pelo clima. Nesta entrevista a Lívia Perozim, Nobre, engenheiro e doutor em meteorologia, expõe os problemas climáticos que o mundo enfrenta, situa o Brasil nesse cenário e defende que o meio ambiente seja um tema trabalhado de forma interdisciplinar em sala de aula. Caso contrário, “o estudante aprende o que é aquecimento global, mas não entende por que estamos vivendo uma crise ambiental sem precedentes no planeta”.

Carta na Escola: Quais os conhecimentos elementares que nossos alunos deveriam ter quanto às ciências atmosféricas e aos problemas ambientais do planeta?

Carlos Nobre: A questão ambiental teria de receber uma atenção maior, mas ainda é tratada com pouca profundidade na escola. É importante que o aluno do Ensino Médio consiga juntar o que aprende em Geografia, Química, Física e Biologia e entender os grandes problemas ambientais que enfrentamos, como as mudanças climáticas. Os conhecimentos elementares têm de estar ligados à formação da consciência crítica do estudante, que precisa refletir sobre o que a civilização vem fazendo com o ambiente global, regional e local.

CE: Como o professor pode trabalhar o meio ambiente de forma interdisciplinar?

CN: Existe uma lacuna entre o assunto que se tornou uma preocupação nos últimos anos – a questão do aquecimento global – e o preparo dos professores para ensinar isso. As experiências no Brasil de formação interdisciplinar ainda estão em andamento. É preciso ter um bom conhecimento não só do aspecto físico e biológico do meio ambiente, mas também um entendimento das ciências sociais. O estudante tem de ser exposto à questão: o que fizemos nos últimos 200 anos com o meio ambiente? O que nos move? Por que o consumismo está associado à crise ambiental? Senão, o estudante aprende o que é aquecimento global, mas não entende por que estamos vivendo uma crise ambiental sem precedentes no planeta.

CE: Onde o Brasil se encaixa nessa crise?

CN: O Brasil é um país que transformou profundamente o seu ambiente natural. E nós já pagamos um preço alto por isso, como todos os países que também o fizeram. O ambiente das regiões Sudeste, Sul e Nordeste foi profundamente alterado. Na grande metrópole de São Paulo, ainda que estejamos numa região onde as chuvas são em nível adequado, enfrentamos um problema sério de abastecimento e de qualidade de água. A cidade explodiu e hoje temos problemas ambientais graves.

CE: Que problemas?

CN: São Paulo já é uma cidade que tem efeito de mudança climática local, além do aquecimento global. É uma cidade muito quente, efeito local da urbanização. As temperaturas, em média, são 3ºC ou 3,5ºC mais quentes do que antes da urbanização. Em alguns dias, com o céu muito limpo, sem nuvens, o diferencial da temperatura do centro de São Paulo para a periferia arborizada pode chegar a 6ºC, 7ºC. É muita diferença. Isso já está fazendo a cidade de São Paulo ser suscetível a dois fenômenos meteorológicos que causam transtornos: as tempestades mais fortes sobre a cidade do que sobre a periferia e as descargas elétricas que acontecem com maior freqüência.

CE: O planeta mais quente causa problemas a outras megacidades brasileiras?

CN: Sim. Mas como São Paulo é a maior cidade do Brasil, é aqui que esse fenômeno é maior. Outras cidades, como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, também têm esse efeito de ilha urbana de calor, que acontece dentro e fora da cidade.

CE: Há algo de errado com o consumo dos brasileiros?

CN: Em relação à média do mundo, nosso consumo é superior. Em relação aos países desenvolvidos, é inferior. A classe média brasileira consome menos que os Estados Unidos, mas nos mesmos padrões dos países europeus. O consumo nacional cai porque a classe mais pobre, que se pode considerar 50% da população, consome bem pouco. Muito desse modelo do mundo ocidental se tornou global. A China quer seguir os mesmos padrões de consumismo que os Estados Unidos, para citar um exemplo. É insustentável 9 bilhões de pessoas – população mundial estimada em 2050 – consumindo o que um americano médio consome hoje. Antes a poluição era vista como algo muito local. A gente polui, mas depois limpa. O aquecimento global mostrou que saímos desse limite de controle. Nós jogamos tanto desse gás (CO2) na atmosfera que não dá mais para limpá-la.

CE: Mesmo se estabilizássemos as emissões de todos os gases?

CN: O efeito é irreversível. O grau, a magnitude do efeito é controlável. Não há como impedir que a temperatura suba 2ºC nesse século.

CE: O que significa esse aumento na temperatura da Terra?

CN: O aumento de 2ºC é o cenário mais otimista, se conseguirmos estabilizar e controlar os gases na atmosfera e cortarmos as emissões dos gases que provocam o efeito estufa em 80%. Se isso acontecer, o nível do mar sobe cerca de 30 a 60 centímetros neste século. É uma grande mudança. Já modifica toda a linha costeira, 90% dos corais desaparecem. E, a não ser que haja um enorme esforço de apoio e capacitação para os países pobres, vai impactar sua produção de alimentos, principalmente na África, Sul da Ásia e parte da América Latina.

CE: O Brasil é vulnerável às mudanças climáticas?

CN: A temperatura aqui, segundo nossos estudos, já aumentou 0,8ºC nos últimos 50 anos, um aumento compatível ao do restante do planeta. Mas o Brasil é muito vulnerável. A economia brasileira está diretamente relacionada aos recursos naturais renováveis, que dependem do vento, da água, das terras, do sol, do ciclo biológico. O Brasil é uma potência agrícola porque depende do clima.

CE: Quais as conseqüências das variações climáticas na saúde das pessoas?

CN: Uma delas é que o aumento da temperatura faz os vetores de doenças como dengue e malária terem uma área de abrangência maior. Hoje, eles param em São Paulo, no norte do Paraná. Com o aumento da temperatura, esses vetores vão atingir todo o Sul do Brasil, o Uruguai e a Argentina. Uma série de outras doenças típicas de aglomerados urbanos, quando a poluição se associa às ondas de calor, está ligada a surtos de mortalidade.

CE: Como as ondas de calor podem causar surtos de mortalidade?

CN: A medicina registra isso com clareza. Um calor muito grande é um enorme estresse. O acúmulo de estresse com temperaturas que passam de 30ºC, 32ºC, em um período superior a cinco dias, em idosos com saúde frágil e sem ar condicionado, é fator que deflagra a morte.

CE: A biodiversidade da Amazônia é vulnerável as alterações no clima?

CN: Desenvolvemos no Inpe a teoria da savanização da Amazônia: se a mudança climática ocorrer e o desmatamento prosseguir, de 30% a 40% da floresta vai virar savana. Se a temperatura aumentar mais de 4ºC, a floresta não teria muita condição de sobreviver.

CE: Como o Inpe traça cenários como esses?

CN: Desenvolvemos relações matemáticas entre o que acontece no clima, na atmosfera e a resposta da vegetação àquela modificação. Temos parâmetros climáticos que definem uma floresta tropical, por exemplo, por faixa de temperatura, de chuva, de água no solo, de umidade. São doze tipos de vegetação de todo o mundo e cada um deles tem o seu envelope climático, com seis parâmetros. Com eles, fazemos as projeções do clima futuro.

CE: Era possível fazer essas projeções antes do computador?

CN: Não. Essas relações entre clima e vegetação começaram a ser estabelecidas já faz algum tempo. Só que ninguém tinha capacidade de projetar o clima futuro. O grande avanço da tecnologia e dos supercomputadores é permitir a projeção. Isso requer um conhecimento grande do sistema climático e um computador muito poderoso para fazer quatrilhões de cálculos.

CE: O Brasil é um país avançado em estudos climáticos?

CN: O Inpe é um centro que avançou muito nessa tecnologia. Estamos agora comprando um supercomputador, que chegará em 2009 e vai permitir ao Brasil melhorar a geração de cenários climáticos. Já fazemos isso, mas a nossa capacidade é gerar cenários da América do Sul. Estamos capacitando profissionais, temos cursos de pós-graduação que treinam mestres e doutores nessa área que chamamos genericamente de modelagem matemática do clima.

CE: Qual a formação dos profissionais que trabalham nessa área?

CN: Várias. Os principais profissionais são físicos, engenheiros, meteorologistas, matemáticos e oceanógrafos. No futuro, teremos de desenvolver modelos matemáticos que façam uma projeção de como será a economia de acordo com a mudança do clima. É um novo conhecimento científico, chamado ciência do sistema terrestre, extremamente interdisciplinar.

CE: Que tipo de material o Inpe produz para o professor trabalhar mudanças climáticas em sala de aula?

CN: Geramos três CDs, com dois objetivos: auxiliar o professor no ensino de áreas interdisciplinares e oferecer um bom material para o aluno do Ensino Médio estudar sozinho. É uma aula narrada, com animações, gráficos e uma série de recursos de multimídia. Tratamos de clima, mudanças ambientais globais, ecossistemas brasileiros e sobre a importância da tecnologia espacial para o Brasil. O MEC enviou mais de 180 mil cópias desses CDs para escola públicas. 

CE: Em agosto, a floresta amazônica perdeu o equivalente a pouco mais da metade da cidade de São Paulo: 756,7 km2. O monitoramento por satélite não ajudou a diminuir o desmatamento?

CN: Os satélites nos fornecem informações relevantes à atividade de controle e fiscalização de atos ilícitos e do desmatamento, além de detalhes sobre a vegetação, o substrato geológico, a hidrologia, o mapeamento dos cursos da água. Numa região como a Amazônia, de 4 milhões de km2, seria difícil enxergar cada ponto dela se não fosse o satélite. Só que ele está lá em cima, distante, e não impede o desmatamento. A cada quinze dias, o Inpe produz um mapa para os órgãos ambientais de toda a Amazônia, indicando onde o satélite enxergou indícios de desmatamento. Quando há uma grande operação de desmatamento na Amazônia, eles podem captar a coisa bem no começo. Mas pode-se dizer que o desmatamento é algo sem controle no Brasil. E os satélites mostram uma tendência de aumento do segundo semestre de 2007 até agora.