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Pacote remendado

By Márcia Pinheiro

Aprovadas no Senado, as medidas de Paulson geram dúvidas no mercado

De nada adiantou a estratégia do governo dos Estados Unidos de inverter, na quarta-feira 1º, a ordem e votar no Senado, antes que na Câmara, a reedição do pacote de salvamento de Wall Street. O mercado reagiu mal, mesmo com a aprovação por 75 votos a favor e 25 contra, porque sabe que os 700 bilhões de dólares, além de 150 bilhões adicionais para incentivos fiscais a empresas, serão insuficientes para tirar os bancos da lama. Em Nova York, o Dow Jones caiu 3,22% e, em São Paulo, a Bovespa recuou 7,34%.

Pouco mudou nas medidas aprovadas no Senado. Houve uma concessãozinha aos correntistas, que agora terão o limite de seus depósitos garantido pela Corporação Federal de Seguros de Depósitos (FDIC, em inglês) elevado de 100 mil para 250 mil dólares. Mas a Security Exchange Commission (SEC, o xerife do mercado de capitais americano) pisou na bola no quesito transparência. Permitiu que os bancos com títulos podres hipotecários não façam a chamada marcação a mercado, o que é obrigatório no Brasil, ou seja, fixar o preço real do papel no dia a dia. Agora, ninguém sabe quanto vale o saldão tóxico nas carteiras das instituições financeiras. Ponto para o mercado.

Ainda falta a Câmara apreciar o texto, com votação prevista para a sexta-feira 3. Independentemente do resultado final, há muito ceticismo no ar. Jacob Funk Kirkegaard, do Peter G. Peterson Institute for International Economics, diz que certamente os EUA ocuparão um espaço muito menor na economia global, com o enfraquecimento do dólar, que lentamente pode deixar de ser a moeda reserva do mundo. “Tampouco os americanos serão considerados a referência da regulamentação financeira que promove o crescimento.”

Em seu raciocínio, “a hegemonia americana sofrerá um baque com a crise e o euro ganhará importância. Mas nem de longe será “uma nova âncora monetária”. Nenhum país ou região terá estofo para substituir os EUA. O mundo será multipolar, o que demandará uma mudança nos papéis dos países e nas negociações que envolvam política, economia e finanças

Uma retrospectiva do estrago em Wall Street. Ao longo do fim de semana de 27 e 28 de setembro, fora firmado um acordo para a Câmara aprovar as medidas inicialmente idealizadas pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson. O mercado, com um pé atrás, balançou mais para o lado negativo até que chegou a notícia bombástica. Por 228 votos contra e 205 a favor, o projeto foi derrotado. Derrotado, note-se, pela maioria republicana, que relutava em associar o partido a um plano que supostamente salvaria os engomadinhos de Manhattan e desconsideraria o homem comum, seu eleitor, que não consegue pagar as prestações da casa própria.

Na segunda 29, o mundo financeiro veio abaixo. O índice Dow Jones da Bolsa de Nova York registrou a maior queda em pontos de sua história, exatos 777 pontos. Em porcentual, a baixa foi de 6,98%. No Brasil, a Bovespa teve seus negócios paralisados por meia hora, pois uma regra chamada circuit breaker suspende as negociações quando a queda supera 10%. Reabriu e fechou em baixa de 9,36%, o mais violento tombo desde 14 de janeiro de 1999. O dólar disparou 6,21%, cotado a 1,966 real. O efeito dominó não poupou ninguém no mundo. As bolsas européias caíram ao menor nível em três anos e meio. O destaque de baixa foi o mercado de Londres, que despencou 5,3%.

Os economistas independentes haviam alertado que as medidas eram insuficientes e excessivamente pró-mercado. Na visão do professor da New York University e colunista de CartaCapital, Nouriel Roubini, o pacote foi uma colcha de retalhos injusta, que apenas socializa os prejuízos da crise financeira (entrevista à pág. 40). Segundo as palavras de Kirkegaard: 1. Os bancos deveriam ser proibidos de distribuir dividendos aos acionistas para manter um colchão de capital. 2. O governo recapitalizaria as instituições, tornando-se acionista delas, de tal forma que os contribuintes poderiam também se beneficiar da futura recuperação do sistema. 3. Seria preciso haver regulação mais rígida, sobretudo no que se refere à exigência de capital. 4. Os limites de alavancagem seriam rigidamente reduzidos.

A reação do mercado foi virulenta porque, para haver negócios, as instituições devem confiar nas autoridades, umas nas outras e os clientes, em seus bancos. Senão, não há pacote que segure a boiada. Havia um wishful thinking de que o Congresso, Paulson, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, e George Bush tivessem realmente afinado suas divergências durante as intermináveis reuniões do fim de semana. Foi um sonho frustrado. Para o mercado, naturalmente.

Antes mesmo de a Câmara norte-americana votar pela primeira vez contra o pacote, a segunda-feira 29 amanheceu estranha. Evidentemente, a derrota do projeto do governo, no meio da tarde, foi a detonadora do dia sangrento. Mas havia antecedentes que preocupavam. No fim de semana anterior, quando o Congresso resolveu dar uns pitacos nas medidas de Paulson, e um acordo foi firmado, no outro lado do Atlântico começaram a pipocar os subprodutos da crise americana.

No domingo 28, os governos da Bélgica, da Holanda e de Luxemburgo desembolsaram 16,4 bilhões de dólares para comprar o Banco Fortis. Na segunda, o Mitsubishi Financial Bank adquiriu 21% de participação acionária do Morgan Stanley. No mesmo dia, o banco alemão Hypo Real Estate, que ameaçava falência, recebeu de um consórcio de bancos um aporte de créditos, cujos valores não foram mencionados.

Na segunda 29, foi a vez de a Grã-Bretanha nacionalizar o B&B, o segundo banco inglês resgatado neste ano. O round não parou por aí. Na terça-feira 30, Bélgica, França e Luxemburgo salvaram o banco belga-francês Dexia, com uma injeção de 6,4 bilhões de euros. A Irlanda praticamente estatizou o seu sistema financeiro, com um plano de resgate de 400 bilhões de euros.

Nem mesmo uma atuação forte do Banco Central Europeu (BCE) devolveu tranqüilidade aos investidores, que se sentem como os pinos do boliche: a qualquer momento podem sofrer um strike e ver a contaminação do mundo real pelo financeiro. Na segunda 29, o BCE emprestou 172 bilhões de dólares aos bancos, com prazo de pagamento de 38 dias. Tudo para tirá-los do sufoco (momentâneo?) da falta de liquidez.

Os europeus estão com pressa. E furiosos com a falta de coordenação do governo americano, que exporta turbulência ao mundo todo. O presidente da França, Nicholas Sarkozy, agendou uma reunião de emergência a qualquer momento com os demais líderes europeus, nada satisfeitos com a confusão que se instalou nos EUA. Para eles, não tem choro nem vela. A primeira-ministra  da Alemanha, Angela Merkel, afirmou que a aprovação do plano Paulson, capenga ou não, é uma precondição para dar nova confiança aos mercados. Mas há mais a conversar.

É sombrio o futuro, de acordo com a revista The Economist. Segundo Gerard Cassidy, do RBC Capital Markets, cerca de 300 bancos provavelmente vão quebrar nos próximos três anos. Apenas três foram à bancarrota em 2007. Na crise dos anos 80, mais de mil instituições fecharam as portas. Será que isso importa?, pergunta a revista. “Há 8 mil bancos nos EUA e a maioria não ouviu falar da existência de ao menos 7.950”, diz Fred Cannon, da Keefe, Bruyette & Woods, um banco de investimento. Um cálculo infeliz, dada a dimensão da crise atual.