Aula Literatura

Reprodução do livro Fotobiografia de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa, sujeito oculto
Pessoa considerava a literatura a maneira mais agradável de ignorar a vida

Fernando Pessoa, sujeito oculto

Suas biografias apresentam o autor por trás da obra, mas não revelam o homem comum que foi


Por Caio Gagliardi, professor dos cursos de graduação e pós graduação em Literatura Portuguesa na USP
A curta existência de Fernando Pessoa (1988-1935) foi parca em acontecimentos e pródiga em obras. Entre as dezenas de personalidades literárias que criou, pelo menos cinco produziram obras de valor extraordinário, com autonomia estética e visão de mundo própria. Já o sujeito biográfico por detrás desse fenômeno criativo teve, a bem dizer, uma vida de funcionário de escritório. Ao longo de quase três décadas se encarregou da correspondência em inglês e francês de diferentes “casas comerciais” em Lisboa. Em sua biografia há, a rigor, uma única passagem singular: a mudança para a África do Sul aos 7 anos, onde é admitido na High School de Durban; apresenta desempenho notável durante os nove anos de formação. À parte dessa mudança, decisiva ao futuro poeta, tudo o que é digno de nota está diretamente relacionado à sua existência literária.
 
Em pouco menos de 80 anos da morte de Fernando Pessoa, acumulam-se em torno de seu nome, além de uma vasta biblioteca crítica, nada menos que sete biografias e fotobiografias. Três desses estudos são de autoria de portugueses, um de um espanhol, um de um francês, um de um brasileiro e o referido na reportagem publicado em CartaCapital, de um norte-americano e um português. Esse simples apanhado nos fornece um retrato fiel do internacionalismo do poeta. Nenhum desses volumes, entretanto, é uma biografia convencional, a exemplo das biografias de figuras históricas como Napoleão ou Gandhi. O que eles narram ou ilustram é, mais especificamente, um percurso duplo e indissociável entre a existência biográfica e a literária.
 
Esse roteiro bibliográfico inicia-se em 1950, com a publicação de Vida e Obra de Fernando Pessoa – História de uma geração, de João Gaspar Simões; passa por Fernando Pessoa: Uma fotobiografia (1984), de Maria José Lencastre; Fernando Pessoa: Vida, Personalidade e Gênio (1988), de António Quadros; A Vida Plural de Fernando Pessoa (1988), de Ángel Crespo; Estranho Estrangeiro (1996), de Robert Bréchon, e, mais recentemente, por Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia (2011), de José Paulo Cavalcanti Filho; e a Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith e Joaquim Vieira (2011). 
 
O pressuposto comum às biografias de escritores é o da existência de uma correspondência direta entre sua vida interior e a exterior. Sem essa relação íntima, a perspectiva biográfica perde fôlego. Os relatos desse tipo -procuram mesclar a história da vida com a de obra de seu protagonista. Com exceção à “quase autobiografia” recentemente publicada por Cavalcanti Filho, que segue com diligência de detetive os passos do cidadão Fernando António Nogueira Pessoa, os livros citados propõem uma clave de leitura para a obra do poeta. Isso ocorre, mais precisamente, quando passam a narrar eventos ocorridos a partir da segunda década do século XX, por ser justamente esse o período em que os escritos de Pessoa começam a ganhar corpo. 
 
Enquanto cidadão comum, Pessoa foi eclipsado por sua obra. Mas, observando bem, não será essa ocultação radical aquilo que esse mesmo indivíduo buscou ao se tornar escritor? E não serão, por decorrência, as biografias que lhe foram dedicadas um modo de heroicizar uma figura humana cuja natureza esquiva e irônica é mais propriamente anti-heroica?
 
Num conhecido ensaio do poeta Octavio Paz sobre Fernando Pessoa, intitulado O Desconhecido de Si Mesmo, publicado em 1988, encontramos um dos axiomas centrais da biografia de um poeta: “Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra”. Complementa essa afirmação à conclusão de outro poeta, o russo Joseph Brodsky, para quem “a biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo”. Foi o próprio Pessoa, afinal, quem, no Livro do Desassossego, considerou a literatura como “a maneira mais agradável de ignorar a vida”. O que poderão seus bió-grafos diante dessa assertiva? 
 
Personalidades e biografias
 
Ao compor poemas em diferentes estilos e engendrando conjuntos distintos de ideias, Pessoa optou por produzir personalidades com nomes próprios, certa aparência, um reduzido número de hábitos, local e data de nascimento. Atribuiu-lhes conjuntos de poemas e, posteriormente, fez essas personagens criadoras interagirem entre si, mediante uma troca de correspondências que transparecesse dúvidas, convicções e visões de mundo. O expediente resultou num pacto ficcional: quando nos referimos a -Caeiro, Campos e Reis imaginamos sujeitos com -atributos intelectuais, e não perspectivas sem dono, ou com um único dono. Quando se diz que Reis é -despido de afetos, vêm à mente um ser, um autor, e um núcleo de ideias das quais esse autor tem convicção e que nos reporta. E, assim, se queremos nos referir às Odes, fazemos menção a Reis, ao que “ele” pensava, sentia e “exprimiu” naqueles textos. Fazemos isso mesmo sabendo que “ele”, como indivíduo, nunca existiu.
 
É verdade que a adesão inadvertida ao que foi proposto por Pessoa levou a um psicologismo, desenvolvido na década de 1950 na monumental biografia de Gaspar Simões, cristalizador de uma imagem edipiana do poeta. Embora ressonâncias dessa leitura sejam comuns ainda hoje, uma resposta a ela não tardou a ser formulada. Como notou de passagem Casais Monteiro, já em 1958, e depois dele, Eduardo Lourenço, em 1981, Pessoa não criou personalidades que produziram poemas; Pessoa escreveu poemas que só depois suscitaram personalidades. Essa assertiva conduz a uma inversão simples no nosso modo de falar, e que dificilmente adotaremos, mas que implica dizer, por exemplo, que O Guardador de Rebanhos é que é autor de “Caeiro”, e não o contrário. Pessoa nos havia habilmente fornecido as ferramentas para não apenas metonimizar seus textos (para nos referirmos à obra por meio do autor: “ler Caeiro”), mas para que pudéssemos imaginar um indivíduo que representasse a própria arte. 
 
A heteronímia concretiza uma ilusão de vida ditada por estilos. Ela possibilita pensar o que entendemos como “autor” como sendo a produção de um sujeito da linguagem, um sujeito que pode ser, até mesmo, imaginado como um corpo orgânico e anterior ao texto, mas que foi constituído e então lançado para trás por um material genético composto por traços de estilo. Caeiro, Reis, Campos e Pessoa (essa outra máscara, dessa vez disfarçada de realidade) são exigências de estilo. Assim como o pensamento de Platão se ramificou em vários interlocutores, o de Pessoa se ramificou em diferentes autores. Consequentemente, o homem pacato que vivia na casa da tia Anica e trabalhava como correspondente estrangeiro num escritório da Baixa pode ser deixado de lado, apagado, e ceder lugar a seus eus líricos desconcertantes. A biografia de Fernando Pessoa está, afinal, nos meandros de seu estilo. 
 

Em Sala | Guia de atividades didáticas

 
Obra versus biografia Leia com os alunos os textos indicados e reflita sobre a conflituosa relação, em obras de arte, entre a realidade e a ficção
 
Relacione os textos abaixo 
à luz da seguinte afirmação do poeta Octavio Paz: 
“Os poetas não têm biografia. 
Sua biografia é sua obra”. Leia com os alunos os três 
textos abaixo e reflita sobre 
a relação, presente em obras 
de arte, entre realidade e ficção:
 
1 Comece com o poema Ó Sino 
da Minha Aldeia, de Fernando Pessoa, ele mesmo.  Pesquise 
no site www.youtube.com a leitura que o grande recitador português João Villaret faz do poema, 
também encontrado nas edições que contêm a poesia do ortônimo. No poema, a emoção, traduzida 
em lamento, é despertada por 
uma palavra-chave em cada 
uma das estrofes, sempre relacionada ao universo 
musical: “badalada”, 
“soar”, “tanjas” e “vibrante”. 
A tensão produzida é condensada na antítese dos dois versos finais, que apresenta uma dupla dimensão (temporal e espacial): “passado 
e presente”, “longe e perto” e “fora e dentro”. A discussão deve orientar o aluno a perceber que a infância 
é idealizada pelo poeta, por 
ser o mundo da ausência da consciência de si, ao passo que 
a realidade presente é contraposta à infância por ser introspectiva e melancólica. Dessa oposição entre passado e presente surge um dos temas cruciais da poesia pessoana: o drama de sua consciência. 
 
2 Leia a interpretação biográfica do poema, proposta pelo crítico português João Gaspar Simões, intitulada “Fernando Pessoa 
e as vozes da inocência”. O artigo 
foi publicado na revista Presença, em 1930, e posteriormente inserido no livro do mesmo crítico, intitulado Mistério da Poesia (Imprensa 
da Universidade, Coimbra, 1931). 
O livro, além de ser encontrado 
em sebos, está disponível nos acervos de várias bibliotecas públicas. Ainda que o ideal 
seja recorrer à análise do crítico, 
ela não é imprescindível para 
a realização da atividade.
 
3 Complemente a leitura 
com a resposta a essa interpretação, em carta enviada pelo próprio Fernando Pessoa 
a G. Simões. A carta pode 
ser encontrada em http://multipessoa.net/labirinto/poetica/29. Procure relacionar 
as expressões “atitudes literárias” 
e “instinto dramático”, formuladas por Fernando Pessoa, com 
o fazer poético. Durante 
a discussão sugere-se ler o poema do mesmo autor, Autopsicografia, que sintetiza exemplarmente 
essa relação nos versos 
da primeira estrofe: “O poeta 
é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega 
a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.
 
Competências Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos nas linguagens
 
Habilidades Relacionar informações sobre concepções artísticas e construção do texto literário
 

Publicado na edição 64, de março de 2013
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