A outra margem do rio
Em São Luís, alunas convocam comunidade e prefeitura para reflorestar e despoluir o rio que corta a escola
Garrafas e sacolas plásticas, pneus, restos de alimentos, pedaços de madeira, entulhos, latas, vidros e embalagens das mais variadas marcas, formas e tamanhos. No Rio das Bicas encontra-se de tudo um pouco. Recebendo lixo e esgoto sem tratamento diariamente, suas águas vêm perdendo bastante volume. Mas basta chover mais forte para que a população que habita suas margens sofra com seu transbordamento.
No Coroadinho, um dos 25 bairros da cidade de São Luís (MA) cortados pelo rio, são recorrentes os casos de residências invadidas pelas águas contaminadas das enchentes e moradores infectados por doenças como malária, dengue e leishmaniose. O rio está claramente pedindo socorro e três moradoras do bairro entenderam o recado.
Considerando a degradação do Rio das Bicas como o maior problema enfrentado pela comunidade do Coroadinho, as adolescentes Ana Lúcia Farias das Neves, Dayane dos Santos Ximenes e Willicléia Pereira de Oliveira resolveram tomar para si a iniciativa de transformar essa realidade. E, em maio do ano passado, colocaram em prática o Projeto Nosso Rio, que tem como objetivo despoluir o Rio das Bicas e reflorestar suas margens.
Para realizar tal tarefa, as alunas do 2º ano do Ensino Médio da Escola de Educação Básica e Profissional da Fundação Bradesco de São Luís contam com a orientação do professor de Química Raimundo João Fróz Campos e da professora de Geografia Adelina da Silva Alves. Juntos, alunas e professores querem mudar a realidade do rio, que corta o terreno da escola. E antes de colocar a mão na massa foram estudar. “Pesquisamos sobre a sub-bacia do Rio das Bicas e a análise de amostras da sua água, buscando sempre incentivar a autonomia e a iniciativa das alunas, principalmente na busca por soluções para o problema colocado”, conta Campos.
E as alunas de 16 anos, que trabalham durante o dia e freqüentam a escola à noite, mostraram que, além de energia, têm autonomia e iniciativa de sobra: partiram para o levantamento de dados em campo, visitando e fotografando diversos pontos do rio, além de entrevistar os moradores da comunidade. “Durante a pesquisa, uma de nossas maiores dificuldades foi encontrar informações sobre como o rio era antes, mas, conversando com moradores mais antigos, conseguimos alguns dados. Descobrimos que o nosso bairro foi ocupado desordenadamente e muitas áreas de mangue à margem do rio foram desmatdas e aterradas para a construção de casas. Sem a mata ciliar o rio foi assoreado, daí o motivo das enchentes”, relata Ana Lúcia.
Munidas de informações sobre o rio e o problema a ser enfrentado, as estudantes iniciaram um trabalho de conscientização da população, batendo de porta em porta e explicando para os moradores da comunidade a importância da preservação do rio. “A comunidade foi muito receptiva e se interessou bastante pelas informações que demos a respeito da poluição do rio. Muitos moradores admitiram jogar seu lixo no rio”, conta Ana Lúcia.
Uma das visitas mais importantes foi à nascente do Rio das Bicas, que, apesar de se encontrar dentro da Reserva Estadual do Batatã, área sob proteção ambiental, possui casas bem próximas à beira do rio, contribuindo para a contaminação da água diretamente em sua fonte. “A nascente é uma peça fundamental na recuperação do rio e merece cuidados redobrados, porque, se ela morrer, o rio morre”, explica Ana Lúcia.
Rádio comunitária como parceira
O trabalho de conscientização é um processo lento e necessita de tempo para apresentar resultados, já que envolve a mudança de hábitos cultivados há longa data. “Somente a educação ambiental da população, aliada à realização efetiva de saneamento básico, garante o sucesso do processo de recomposição do sistema de drenagem natural do rio”, garante o professor Raimundo.
Nesse sentido, o projeto contou com uma aliada: a rádio comunitária do bairro. Partilhando da preocupação com a preservação do rio, a Rádio Conquista vem divulgando em sua programação dados sobre o rio e os cuidados a serem adotados pelos moradores. Uma parceria que está dando certo. “O mais importante é informar as pessoas que esse problema tem solução, mas para isso acontecer a gente tem de se mexer e mudar de atitude em relação ao rio, parando de poluí-lo e tentando recuperar o que foi destruído”, diz Dayane.
Uma outra ação realizada pelas alunas foi o envio de cartas para a prefeitura de São Luís, cobrando a atuação do poder público local na recuperação do Rio das Bicas. Como resposta, a prefeitura declarou a intenção de retomar o projeto de urbanização planejada da margem do rio próxima à escola, pretendendo criar um espaço para práticas esportivas e lazer da comunidade nessa área. “Nós realmente esperamos que essa proposta se realize, pois o que buscamos, desde o início do projeto, é a melhoria da qualidade de vida no nosso bairro e essa obra significaria muito nesse sentido”, ressalta Ana Lúcia.
Tanto empenho e dedicação renderam reconhecimento às alunas. O projeto, que já havia sido apresentado na Feira de Ciências da escola para pais, alunos e moradores da comunidade em setembro do ano passado, este ano veio se apresentar em São Paulo, na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada pela USP.
O projeto de recuperação das margens do Rio das Bicas, resultado da observação de um problema que afeta todos, comunidade e escola, e da busca de soluções, já rendeu frutos: em fevereiro último, um trecho de 200 metros quadrados da margem do rio recebeu 50 mudas de ipês-roxos, acácias, leucenas e palmeiras juçara, espécies típicas da mata ciliar original do Rio das Bicas. A ação de reflorestamento envolveu toda a comunidade escolar e as adolescentes contaram com a ajuda de outros alunos da escola para realizar o plantio das mudas – todos orientados pelos professores e por um técnico agropecuário. “O reflorestamento foi a parte mais bonita e gratificante do projeto. Ver as plantas se adaptando tão bem, fazendo parte daquela paisagem como devia ter sido sempre, fez valer a pena o trabalho”, diz Willicléia.
Este mês, a escola ofereceu à comunidade, pais e alunos uma palestra sobre preservação ambiental e possíveis ações para revitalizar o Rio das Bicas, contando com a participação de um representante do Batalhão Ambiental da Polícia Militar do Estado do Maranhão e da comunidade do Coroadinho.
Mas o trio de estudantes inquietas não pára. Elas ainda pretendem promover ao longo do ano outras palestras sobre educação ambiental para a comunidade e realizar o reflorestamento de outras áreas da margem do Rio das Bicas. “Existem muitos projetos de recuperação dos rios aqui em São Luís, mas a maioria não consegue os resultados desejados ou são abandonados. Nosso maior desafio foi propor ações que funcionassem, solucionando os problemas de verdade. Agora que encontramos o caminho, não vamos parar enquanto não atingirmos os objetivos do nosso projeto”, garante Dayane. Plantada a muda do conhecimento e da cidadania, elas estão no caminho certo. As árvores brotaram nas margens do Rio das Bicas.
SAIBA MAIS
Fundação Bradesco de São Luís: wwwfb.org.br ou (98) 3243-5642







