A permacultura vai à escola
Metodologia criada na década de 70 é utilizada em centro de referência no Cerrado brasileiro
Conhecida como uma cidade de grandes atrativos turísticos, principalmente por suas cachoeiras e um conjunto arquitetônico histórico, Pirenópolis, município localizado em Goiás, também abriga um grande centro de referência em sustentabilidade. É o Ecocentro do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec), local com uma área de 5 hectares onde os conceitos de sustentabilidade estão aplicados na prática por todos os cantos.
O foco das atividades do Ecocentro é a educação, trabalhada através da permacultura. O conceito, criado por um professor australiano na década de 70, consiste na construção de um ambiente ecológico que integre plantas, animais e os seres humanos de uma forma harmoniosa. A filosofia desenvolvida é que o homem retire da natureza apenas aquilo que é necessário à sua sobrevivência e que devolva o que ela precisa sem agredir o meio em que vive. Para que isso funcione, os métodos e as práticas aplicadas devem ser bem planejados, de maneira que não haja desperdício e que as técnicas utilizadas sejam de baixo custo.
Para entender esse conceito, que na teoria parece amplo, os próprios praticantes dessa metodologia recomendam a prática. E os ecocentros são os lugares ideais para isso. Estudantes de todo o estado fazem visitas ao lugar para entender de perto o que é uma cultura sustentável e como levar as práticas ali observadas para o dia-a-dia. Além de receber visitantes interessados na aplicação prática da sustentabilidade, o instituto realiza projetos voltados especificamente aos estudantes, como o Hábitats na Escola, que teve início este ano e vem sendo desenvolvido em quatro escolas públicas de Pirenópolis.
“O primeiro passo é levar os estudantes ao Ecocentro, para eles conhecerem de perto as nossas instalações e vivenciarem as diversas soluções em água, alimentação, energia, habitação e saneamento”, relata Luciana Kalil, subcoordenadora do projeto. As construções diferenciadas, como a horta-mandala, despertam a atenção do visitante. Nessa técnica, o que se procura é produzir mais alimentos gastando menos espaço do que os métodos convencionais. Raízes e hortaliças são cultivadas em conjunto e as bordas são sinuosas e não dispostas em linha reta, como nas hortas convencionais.
SANITÁRIOS COMPOSTÁVEIS
As próprias construções do Ecocentro também são exemplo de economia e uso consciente dos recursos naturais. As paredes são erguidas com tijolos de adobe (para produzi-lo, não é necessária uma mistura precisa de argila e areia, qualquer barro pode ser utilizado, e, seco ao sol, fica pronto em três dias) e fardos de palha (feito de resíduos de cereais, o mesmo material utilizado nos fenos para conservação e forragem animal).
Outra construção que chama a atenção são os sanitários compostáveis. Diferente dos banheiros convencionais, que gastam dezenas de litros de água em uma única descarga, os sanitários do ecocentro, por meio do processo de compostagem, transformam os dejetos humanos em adubo, que podem ser usados nas próprias hortas do local. Essa construção é uma prática que demonstra com clareza o conceito de permacultura, pois fecha um ciclo: o homem devolvendo à natureza aquilo que ela necessita.
“Após os alunos conhecerem o ecocentro, propomos a eles que façam um projeto para implantar na escola alguma prática que viram lá. A escola reserva um espaço ocioso para que ali se faça alguma atividade proposta pelos estudantes”, explica Luciana. “Eles desenham e depois constroem uma maquete de barro. Pode ser uma horta, um canteiro em espiral de ervas, um laguinho, um jardim ou um viveiro. Eles criam uma espécie de hábitat dentro da própria escola.”
Envolvendo professores, funcionários e alunos, a equipe do Ecocentro recebe o projeto dos estudantes, faz as adaptações necessárias e promove um grande mutirão de três dias na escola. “Trabalhamos de maneira que todos entendam o significado do que estão fazendo. E, a partir do momento em que se envolvem e constroem algo juntos, eles sempre vão cuidar e zelar por aquilo, como algo que pertence a todos”, diz Luciana.
Terminado o mutirão, a fase seguinte é de acompanhamento. A comunidade escolar faz a manutenção do que foi construído e uma vez por semana a equipe do Ecocentro vai às escolas monitorar e ajudar estudantes e educadores em outros projetos que podem trazer mais melhorias. O lixo orgânico produzido na escola pode ser utilizado em proveito na própria horta para adubo.
CANTEIRO EM ESPIRAL
Uma das escolas beneficiadas pelo projeto é o Educandário Municipal Dom Bosco. Do mutirão resultou uma pequena horta, um jardinzinho e uma praça no pátio. “Como o tempo está ajudando, já rendeu na horta um pouco de cebolinha, tomate e beterraba, além de ervas para fazermos chá. Usamos tudo que é cultivado em proveito da própria escola nas merendas”, explica Claudeã Cunha, diretora da escola. Segundo ela, a receptividade por parte de todos foi muito boa. “Alguns alunos até reclamam, porque queriam ter mais atividades no nosso pátio. Agora eles vão ao pátio trabalhar na manutenção do projeto uma vez por semana, quando o pessoal do Ecocentro vem até nós”, conta Claudeã. Atualmente, a equipe do instituto está desenvolvendo um projeto de cultura alimentar para uma feira ambiental da qual a escola vai participar no fim do mês. Mesmo após o mutirão, as atividades continuam, pois ainda está previsto para a Dom Bosco um minilago e, segundo a diretora, em breve a pracinha se tornará um espaço de leitura.
O canteiro de ervas construído em espiral também é uma prática trazida do Ecocentro. O objetivo é que se utilize pouco espaço. O método consiste em construir, com tijolos e pedras, um círculo que, antes de se fechar, as pedras sejam empilhadas para dentro com a terra, ganhando altura. Esse procedimento faz com que o canteiro ganhe microclimas diferentes: o topo da espiral tende a ficar mais seco, enquanto a base permanece mais úmida. Para tirar proveito dessa técnica, é preciso que se tenha conhecimento sobre que tipo de erva se adapta melhor a uma determinada condição climática.
O projeto Hábitats na Escola tem previsão de durar no mínimo três anos nas quatro instituições contempladas, mas a direção do instituto ambiciona chegar a todas as escolas de Pirenópolis. Desde a implantação, cerca de 2 mil estudantes foram atendidos. Todos os professores receberam o livro A Escola Sustentável, de Lucia Legan, coordenadora do projeto. A publicação, disponível para venda no site do instituto, é dividida em capítulos que sugerem atividades nas diferentes áreas do meio ambiente envolvendo a permacultura. O texto leve, intercalado por muitas ilustrações, ajuda a entender, e a praticar, as lições ensinadas pelo Ecocentro.







