A rua também educa
Educador desafia pressupostos que tornam a educação um “serviço militar obrigatório” e cria a escola embaixo do pé de manga
Antes de tudo, havia um professor, um dedicado mestre mineiro chamado Sebastião. Ele dava aulas de História em uma faculdade e num colégio particular, daqueles que preparam muito bem os filhos da classe média alta de Belo Horizonte, lá pelos anos 1980. Considerava seus alunos do Ensino Médio mais bem preparados e interessados do que os que modorravam em suas aulas noturnas na faculdade. E, entre aqueles adolescentes brilhantes, um em especial chamava sua atenção pelos comentários inteligentes e por sua capacidade inigualável de questioná-lo sobre absolutamente “tudo” em relação à sua matéria. Pois um dia, sem mais nem menos, o adolescente André se matou. No velório, ainda estupefato com o acontecido, o professor foi procurado pelos pais do falecido. Por eles, soube que fora o seu ídolo, e que André o tomava como “o melhor professor que já tivera”. Os pais queriam saber se ele desconfiara de algum problema com André.
Aquele acontecimento infeliz tornou-se uma pedra no caminho de Sebastião. Como pudera conviver dois anos com o rapaz, instruí-lo sobre a Revolução Francesa e outros que tais sem perceber qualquer pista de seu futuro suicídio? O evento funesto gerou uma decisão no educador, conforme ele próprio relembraria, duas décadas mais tarde: “Eu nunca mais quero que meus alunos aprendam as histórias dos outros antes de entenderem suas próprias histórias”. Era uma forma de fazer com que ele próprio também prestasse mais atenção às histórias de seus alunos. E foi o que fez. Do trágico acontecimento nasceria, com dor, revolta e esperança, o educador Tião Rocha. De sua cabeça criativa sairiam propostas para uma nova educação, mais pé no chão, que tivesse a cara e o jeito de um Brasil escondido, a ser descoberto por quem estivesse disposto a recomeçar a ensinar a partir de outras bases. E, de preferência, embaixo de um pé de manga.
De Belo Horizonte, Tião foi para Ouro Preto, onde trabalharia por alguns anos na Universidade Federal. Apenas o tempo suficiente para constatar a distância que havia entre ser professor e ser educador. “Na universidade só havia ‘ensinagem’. E não era isso que eu queria”, relembra. Aos 36 anos, pediu demissão, definitivamente enfastiado com uma universidade que nem sequer conseguia contribuir para que a população local refizesse suas casas históricas, construídas em adobe e destruídas por uma enchente devastadora, pois não havia ninguém naquela faculdade de engenharia que valorizasse esse tipo de construção popular. Em janeiro de 1984 nascia na casa do desempregado Tião Rocha, em Ouro Preto, o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD).
Os “não-objetivos”
O primeiro trabalho do CPCD aconteceria na cidade de Curvelo, região central de Minas Gerais, a convite de uma ex-aluna que passara a trabalhar na Secretaria de Educação. A cidade já era conhecida de Tião graças à sua paixão pela literatura de Guimarães Rosa, que considerava Curvelo a “capital” de sua literatura. Mas Tião não queria nenhum trabalho convencional de ‘ensinagem’ e sua primeira proposta foi divulgada na rádio local: “Seria possível haver uma educação sem escola?” No dia seguinte à pergunta provocativa, 26 pessoas se apresentaram para discutir a possibilidade, entre professores e curiosos. O grupo sentou-se durante uma semana, formando uma roda na qual muito se disse, principalmente da escola que ninguém queria. Da conversa surgiram os primeiros “não-objetivos”, que norteariam as escolas embaixo dos pés de manga – uma imagem forte o suficiente para mostrar que não havia nenhuma necessidade de prender crianças dentro de quatro paredes e que o próprio bairro poderia ser uma escola expandida. Também, é claro, não era necessário haver um pé de manga para essa escola de pés no chão.
Com grande quantidade de crianças pequenas fora das escolas, por falta de oferta em educação infantil, não foi difícil arregimentar alunos. Mas faltava o principal: dinheiro para pagar os educadores e um mínimo material didático que fosse necessário – mesmo imaginando que a lousa seria o chão de areia vermelha de Curvelo e o giz, um pedaço de graveto. Aqui entra o empreendedor Tião Rocha, que soube convencer a Fundação Kellog da viabilidade do primeiro projeto do CPCD, que ganhou o nome de Sementinha. O apoio inicial, e que se manteria ao longo de oito anos, foi crucial para que a semente brotasse.
A reinvenção da roda
A proposta de trabalho do Sementinha nascia da própria roda formada por uma dupla de educadores e pelas crianças, divididas por faixas etárias. No começo da experiência, as crianças sugeriam os temas, votava-se e os preferidos eram trabalhados pela turma. Depois de algumas semanas, os professores perceberam que acontecia o desinteresse dos que não conseguiam emplacar suas idéias, e o perigoso passo seguinte poderia ser a desistência. Daí resolveu-se que toda proposta feita por criança teria de ser trabalhada, em algum momento, pelo grupo.
Também da roda que se formava a cada dia letivo nasciam questões como a conveniência ou não de se adotar algum tipo de uniforme, diante da reclamação das mães de que seus filhos chegavam em casa sujos de poeira. Para evitar que a escola no pé de manga ficasse cada vez com mais cara de “escola”, em vez de uniforme, os organizadores foram atrás de quem fizesse tapetes. Outros pais reclamaram de seus filhos sob o sol inclemente do sertão mineiro. Novamente, em vez de fechar as crianças, surgiu a proposta de fazerem chapéus para todos.
De outra feita, um aluno em fase final de catapora precisava de repouso, mas já não oferecia risco de contágio. E a turma inteira foi ter aula em sua casa. Na semana seguinte, o aluno trazia um recado: “Mãe mandou dizer que não precisa ter catapora pra estudar lá em casa”. “De repente, tínhamos 15 novas salas de aula, pois cada um queria que os outros conhecessem sua casa”, relembra Tião. Nesse formato, a escola Sementinha abrangia agora o bairro e as casas dos alunos; os laboratórios eram as hortas, quintais e pomares das famílias.
Mas a itinerância da turma pela cidade gerava outro problema, o risco de atropelamento e a necessidade de andar em fila. “Mas fila educa?”, a pergunta surgiu em uma roda. “Não, fila organiza, mas não educa.” Então, ninguém precisaria de fila, apenas de bons combinados. A partir desse dia, não seria nada incomum ouvir o seguinte comentário de um habitante de Curvelo: “Ontem a escola passou em frente de casa duas vezes...”
Dessa forma, enfrentando com criatividade os percalços diários, surgia uma nova pedagogia, uma maneira criativa de envolver aquelas crianças com um tipo de aprendizagem lúdica e prática. Estava inventada a Pedagogia da Roda, sem que nenhum educador tivesse se dado conta disso. É claro que, por trás dessa microrrevolução, havia alguém como Tião Rocha, que aprendera a pensar de maneira invertida. “Eu não quero tirar os meninos da rua. Eu quero mudar a rua, pra que ela possa ser também um espaço educativo, já que também é o espaço da cidadania, da celebração das vitórias, da festa, da religião etc.”
O “Paulofreirismo” do CPCD
Bem-sucedido e bem avaliado pela cidade e pelos patrocinadores, o Sementinha ganharia um projeto-irmão, chamado Ser Criança, este para a turma de 7 a 14 anos, em horário complementar à escola. O reconhecimento definitivo da revolução pedagógica do CPCD chegaria em 1995, quando superou 406 concorrentes e obteve o primeiro lugar no Prêmio Itaú-Unicef. Mas o melhor reconhecimento para esse projeto, voltado para a educação pelo brinquedo, seria colhido por Doralice Mota, diretora do CPCD, ao encontrar um pai agradecido, junto com seu filho. Provocado a dizer o que achava bom no projeto, o menino saiu-se com essa: “Lá é bom porque a gente não estuda nada, só brinca”. O pai ficou vexado com a resposta, tampouco entendeu a satisfação com que a diretora ouviu o relato sem censura do jovem, que simplesmente não percebia o quanto ele aprendia brincando. Ou seja, restava provado que uma escola não precisa ser um serviço militar obrigatório aos 7 anos. E o caminho pode estar resumido nas múltiplas acepções do verbo “paulofreirear”, que Tião recomenda, sempre que possível, ser conjugado no plural. Significa ler o mundo de uma forma menos escolarizada e mais educadora.
Uma saída sustentável
Mas, além dos problemas educacionais propriamente ditos, havia um, maior, pairando sobre as cabeças dos alunos envolvidos com o CPCD: a sobrevivência pura e simples. Era preciso criar alguma forma de renda para que os meninos não seguissem o destino de seus pais: abandonar a escola no meio do ano para colher cana no interior de São Paulo. Na volta, perdia-se o ano letivo, o interesse e, com isso, o trabalho de muitos anos. Foi a partir dessa necessidade que surgiria o plano mais audacioso de Tião Rocha: criar uma fonte de renda que tornasse aqueles jovens menos vulneráveis.
O caminho vislumbrado foi a criação de pequenas fabriquetas formadas por grupos de jovens em cooperativa. As primeiras partiram da experiência do Sementinha, que sempre fabricou os próprios brinquedos a partir de sucatas. Assim, os brinquedos tornaram-se produtos da Cooperativa Dedo de Gente, que desde 1996 vem expandindo suas atividades e empregando dezenas de jovens, que nunca recebem menos que um salário mínimo, explica João Carlos Caetano, gerente comercial da cooperativa. A Dedo de Gente vende embalagens de pizza, recebendo inclusive encomendas de cidades vizinhas, faz móveis com madeira de demolição, esculturas em metal, doces, geléias, licores, bordados e mais de 900 jogos pedagógicos – todos testados pelos cooperados. A própria rede pública de Curvelo adotou 230 deles. A mais recente fabriqueta é a Imobiliária Pra Quem Sabe Voar, especializada em construir casas... para passarinhos.
Tião relembra com satisfação um episódio envolvendo 13 meninos da cooperativa que, com a chegada do primeiro salário, foram atrás do sonho de consumo de qualquer adolescente pobre, principalmente em uma cidade plana e espalhada como Curvelo: uma bicicleta. O dono da loja chegou a telefonar para Tião, desconfiado daqueles meninos, todos com dinheiro na mão e o mesmo sonho na cabeça. Queria saber se o dinheiro era deles mesmo.
Todas as fabriquetas da cooperativa devem criar um produto novo por mês. O compromisso com a inovação tem até nome, MDI (Maneira Diferente e Inovadora). Se ele for viável comercialmente, entra em produção; caso contrário, serviu para que ninguém ficasse deitado, confortavelmente, no já-conhecido.
Outro compromisso das cooperativas é com a qualidade, aferida por meio de 12 critérios contidos no IQP, Indicador de Qualidade de Projeto, que renderia à organização mais um prêmio, desta vez de tecnologia social, pela Fundação Banco do Brasil.
Do canto ao cinema
Em Araçuaí, cidade mineira com forte atuação do CPCD, a organização montou o Sítio Maravilha, uma área de 5 hectares produtivos que virou fonte de experiências dos princípios ecológicos da permacultura, que busca produzir sem degradar o meio ambiente. Na cidade, além dos projetos educacionais e das cooperativas, também se formou um coral chamado Meninos de Araçuaí, que se apresentou com Milton Nascimento e já arrecadou, em direitos autorais, cerca de 40 mil reais. Uma pequena fortuna, se fosse dividida entre os componentes do grupo, da mesma forma como fizeram aqueles compradores de bicicleta em Curvelo. Mas o dinheiro poderia ser usado para algo maior, como um cinema, o primeiro de Araçuaí. Ele acaba de ser inaugurado, para orgulho e satisfação do grupo coral. E do educador que um dia prometeu que ensinaria outro tipo de história para seus alunos. A história de vidas que podem ser bem melhores – e serão.







