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Essa escola é minha

By Artur Guimarães

Uma escola pública que derrubou as próprias paredes e trouxe os pais de alunos para perto quer agora espalhar árvores pelo bairro

O barulho das crianças, o muro e o grosso portão de ferro fechado com cadeado são os mesmos de qualquer unidade de ensino público do município de São Paulo. Já quem entra na Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, no Butantã, zona oeste da capital, tem a sensação de que alguma coisa bem diferente acontece naquele prédio.

Em espaços que comportariam três, quatro classes, não há paredes nem divisórias. Apenas um enorme salão, com o fim a se perder de vista, recebe estudantes sentados sempre em grupos – não necessariamente da mesma série. Mais curioso ainda é que não é só um professor que dá aula ali. Na verdade, podem ser até três dos 50 que atuam no colégio.

Mas a figura do docente também deve ser subvertida, para se entender o modelo pedagógico que guia o trabalho da Amorim, que recebe alunos do 2º ao 9º ano do Ensino Fundamental.

As aulas expositivas tradicionais foram riscadas do currículo. São as próprias 780 crianças que escolhem a ordem dos conteúdos que vão estudar. E são elas mesmas que devem ir atrás de se informar sobre os assuntos, seja alugando livros por conta própria na biblioteca, seja questionando e tirando dúvidas com seus mestres, que são cada dia mais polivalentes e, dentro desse sistema, conseguem orientar até mesmo quem não está com problemas em sua disciplina.

Na prática, eliminando qualquer hierarquia, educador e educando constroem juntos a aprendizagem. Até as regras de convivência são selecionadas conjuntamente. Sim, existem aulas normais ao longo da semana, como Matemática e Ciências, por exemplo. Mas a grade é composta por vários momentos coletivos, em que os estudantes têm de seguir sozinhos cerca de 20 roteiros de estudos anuais, cada um focado em determinado assunto e com cerca de 20 objetivos que devem ser cumpridos, com orientação indireta dos docentes.

Essa carta de navegação, que deve ser seguida ao longo do ano letivo, vai sendo avaliada de várias formas. Primeiro, com os professores tutores, que são designados para, individualmente, uma vez a cada sete dias, verificar a produção de cada criança. “Se, por acaso, percebermos uma dificuldade com freqüência em certo tema, podemos criar uma oficina específica de reforço pontual”, explica Ana Elisa Siqueira, diretora da escola.

Quando um roteiro chega ao fim – e quem decide isso é o próprio estudante – há outras formas de testar o que foi aprendido, como a elaboração do portfólio, espécie de resumo do que foi lido e pesquisado. Esse documento, em forma de texto, é analisado para, só mais tarde, ser feita a ficha de auto-avaliação, uma espécie de prova feita com base na produção do aluno. “Como fui eu mesma que levantei todos os dados, nessa hora a gente percebe rapidinho o que sabe e o que ainda falta ir atrás”, explica Gisele Rodrigues, 14 anos, que está no 9° ano (antiga 8ª série).

Toda a adaptação do currículo foi feita em 2004 por um voluntário, Geraldo Tadeu de Souza, doutor em Lingüística pela Universidade de São Paulo (USP), que tem uma filha e um filho matriculados. “Buscava um objeto para meu pós-doutorado e encontrei nessa reorganização um ótimo campo. Meu esforço era transformar os livros didáticos em roteiros de pesquisa”, conta.

Gestão democrática
Todo o jeito de educar da Amorim Lima, único na rede paulistana de ensino público, é baseado no trabalho da Escola da Ponte, em Portugal (ver quadro). Apesar da madrinha conceitual famosa no mundo acadêmico, o caminho trilhado aqui em São Paulo foi bastante penoso.

Tudo começou, aliás, com questões bem comuns nas unidades de ensino brasileiras. A principal era a distorção nas atividades do conselho escolar. “Quando cheguei aqui, há 12 anos, a função do colegiado era mais burocrática. Ficava muito ligado aos pontos administrativos da escola, não tinha relação nenhuma como o pedagógico”, lembra a diretora.

Após uma consulta com o próprio conselho deliberativo, ficou decidido que as mães passariam a ter liberdade para, caso quisessem, entrar para assistir ao recreio com as crianças. E isso começou a ser feito, apesar de nem todos irem até lá – por motivos profissionais ou até por falta de vontade. No início, quem topava a idéia tomava conta dos seus próprios filhos. Mas, com quase 400 alunos brincando para lá e para cá, ficou evidente que o projeto deveria crescer e englobar a todos.

Participação ativa dos pais
Desde essa época, a vizinhança com a USP já começava a ser frutífera para a escola. Muitos responsáveis eram professores ou estudantes da instituição. Moravam no bairro e tinham presença constante dentro dos muros da unidade. Foi assim que uma mestranda em Cultura Popular na Escola de Comunicações e Artes (ECA), que já tinha colaborado para dar nova cara à festa junina, ajudou a escola a introduzir brincadeiras tradicionais com os estudantes. “As mães se uniram. Tomaram gosto pela escola”, explica Ana Elisa.

A proximidade com a comunidade trouxe vários benefícios para o funcionamento da Amorim Lima, mas também desencadeou processos nem tão agradáveis. Ao acompanhar todo o funcionamento da unidade, os pais entravam em contato direto com os professores, funcionários e sabiam exatamente o que funcionava e o que deixava a desejar.

Alguns pontos foram levados para as reuniões do conselho de escola. Mas, nesse momento, as críticas já não eram genéricas. “Não era aquela coisa de quem vê de fora do portão. Eles sabiam de tudo”, diz a diretora. As reclamações iam da falta de limpeza nos banheiros, que eles viam de perto, ao altíssimo número de faltas dos educadores e funcionários.

Colocado contra a parede, o comando da escola foi obrigado a discutir esses problemas. As leis que regem a educação foram todas levadas para debate no colegiado. Nessa hora, encontraram-se inúmeras discrepâncias entre o teórico e o prático. “Todos foram percebendo que as premissas da legislação, que assegurava a autonomia e outros valores, não estavam sendo cumpridas. Até a questão dos ciclos entrou. Oficialmente, deveríamos estar adotando a progressão continuada na época, mas isso estava só no papel. As famílias foram cobrando”, relata Ana Elisa.

As deficiências eram tão grandes, ela lembra, que houve um consenso de que somente uma mudança profunda alteraria o quadro. Poderia ser uma conclusão desoladora para uma unidade dentro de uma rede pública, com seus regimentos e condutas pasteurizadas. A sorte foi que, pelo seu espírito empreendedor, a escola sempre teve vários parceiros ao seu lado, como fundações, acadêmicos e organizações não-governamentais. Foram eles que, em oficinas de capacitação, levaram vídeos que narravam a experiência da Escola da Ponte, em Portugal.

O modelo encantou docentes, alunos, familiares e funcionários. Mas era preciso ter uma autorização para que a idéia fosse adiante e que um novo projeto político pedagógico fosse aprovado.

Como alguns canais diretos de comunicação com a prefeitura não deram resultado, os pais resolveram procurar a então secretária Municipal de Educação, Maria Aparecida Perez. Em 2003, eles foram atrás da titular da pasta na inauguração do Centro Educacional Unificado (CEU) Butantã para conseguir esse objetivo. “Até o presidente do conselho, que era cadeirante, foi atrás dela, buscando uma assessoria técnica para nos ajudar”, conta Ana. A secretária ficou encantada, principalmente porque a proposta não vinha dos educadores, mas da comunidade. E foi assim que o modelo começou a ser adotado.

Conhecendo o entorno
Da mesma forma que os pais dos estudantes foram inseridos no convívio escolar, os alunos também fazem o caminho inverso. Além das oficinas tradicionais – que incluem até capoeira e cultura guarani –, há várias atividades na Amorim Lima em que as crianças saem pelo portão e vão conhecer o bairro em que vivem.

A primeira, por exemplo, chama-se Estação Butantã. É ministrada com ajuda de Florência Chapuis, arquiteta formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, e por Nuno de Azevedo Fonseca, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, ambos voluntários e casados – pais de uma filha matriculada na escola.

A idéia do projeto é levar principalmente os estudantes da 1ª série para conhecer a região. “Queremos que eles aprendam o que é a cidade, começando por onde eles vivem”, diz Florência. Em grupos e sob supervisão, as crianças vão visitar as principais praças e espaços dos entornos da escola. Aprendem o que são quarteirões, ruas e avenidas.

“Ao mesmo tempo que conhecem a identidade da vizinhança, passam a saber melhor quem são seus colegas, já que esse tipo de passeio, fora das regras da escola, é muito interessante para estreitar as relações”, ressalta Florência.
O tour inclui passagem pela USP, por seus museus e até pelo Instituto Butantã, próximos à escola. Na ida, seguem pelo acesso para pedestre, e voltam de ônibus.

Corredor verde à vista
Outro projeto pensado também por voluntários, acadêmicos e pais de alunos, e que está em fase de desenvolvimento é o Corredor Verde. O projeto, que aguarda a aprovação da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), pretende inicialmente levar os estudantes a identificar a flora arbórea nativa da região do Butantã.

Depois, com ajuda de mapas e documentos oficiais, as turmas vão analisar quais são os pontos em que ainda podem ser encontradas essas espécies.

Internamente, no amplo espaço de lazer da unidade de ensino, será montado um centro de criação de mudas. Nessa fase, também serão localizadas as casas dos educadores e alunos. E, finalmente, as árvores serão plantadas por toda a região. “Queremos montar corredores verdes que venham até a Amorim Lima”, explica Geraldo Souza, que, além de assessor curricular, também é pesquisador adjunto da atividade.

A última etapa será o acompanhamento do trabalho, com a elaboração de diários de bordo nos quais serão descritos os motivos que levaram ao sucesso ou ao fracasso da idéia. “É uma forma de fazer um trabalho participativo e crítico sobre as políticas de arborização e urbanização. E, principalmente, um jeito de ensinar os assuntos das disciplinas tradicionais, em planos de pesquisa, mesclados aos conceitos ecológicos”, garante Souza.



SAIBA MAIS

ALVES, Rubem. A Escola Com Que Sempre Sonhei, Sem Imaginar Que Pudesse Existir. Papirus: Campinas, 2005.

Site da E.M.E.F. Desembargador Amorim Lima: www.amorimlima.com.br



Uma experiência inovadora
Até 1976, a Escola da Ponte, em Vila das Aves, a 30 quilômetros  da cidade do Porto, em Portugal, funcionava nos mesmos padrões das demais escolas do país. Havia um professor por sala de aula, profissional que colocava em prática seu método particular de ensino e dificilmente se comunicava com os demais.
Os alunos também raramente interagiam. “O trabalho escolar era baseado na repetição de lições, na passividade”, costuma dizer José Pacheco, principal responsável pelo projeto de transformação da unidade e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Depois da mudança em seu projeto pedagógico, o colégio passou a adotar novas regras de gestão. Tudo passou a ser baseado em projetos de pesquisa, que são desenvolvidos pelos estudantes de acordo com seu interesse. Não há séries ou ciclos e os docentes tendem a ser polivalentes, ajudando e orientando os estudantes em seus trabalhos. Também não há inicialmente divisão por idade. Cada aluno se agrega aos grupos que, por seu gosto, são mais convidativos. E passa a ir atrás das informações de que precisa para avançar. Os docentes só dão explicações quando são questionados pelos alunos. Já as normas de convivência são decididas
em assembléias coletivas. A experiência da Escola da Ponte  foi contada pelo educador Rubem Alves no livro A Escola Com Que Sempre Sonhei, Sem Imaginar Que Pudesse Existir.


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