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Invencionices de um roseano

By Livia Perozim

Conheça um educador incomum. Ele criou uma escola debaixo de um pé de manga e, agora, quer tornar uma cidade inteira auto-sustentável

Mineiro de Belo Horizonte, Tião Rocha se auto-intitula “antropólogo por formação e educador popular por opção política”. Aos 59 anos, o ex-professor universitário é protagonista de uma série de invenções, que reúne crianças, pés de manga, e avança pelo sertão de Guimarães Rosa. Na cidade de Curvelo, região central de Minas Gerais, Tião iniciou os projetos para promover educação popular e desenvolvimento comunitário que levaram à criação do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD). Desde 1984, quando foi criado, o CPCD, já adaptou mais de 1,7 mil tecnologias a partir do saber popular para uso em escolas e comunidades de baixa renda. Seus projetos chegaram a outras regiões de Minas Gerais (Vale do São Francisco e Vale do Jequitinhonha), a quatro estados brasileiros (Espírito Santo, Maranhão, Bahia, São Paulo) e a dois países africanos, Moçambique e Guiné-Bissau. Agora o CPCD se juntou a outras 13 instituições para fazer de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, uma cidade sustentável. É sobre esse novo desafio e as suas invencionices que Tião, em visita a São Paulo, falou à editora Lívia Perozim.

 

Carta na Escola: O CPCD tem quase 25 anos de vida, projetos premiados e replicados. Como tudo começou?

Tião Rocha: Sou apaixonado por Guimarães Rosa. Li uma carta em que ele dizia que Curvelo era a cidade capital da literatura dele. Fui para o sertão de Guimarães conhecer os seus personagens. E lá vi muito menino que não tinha oportunidade nem escola. Um dia, em entrevista à rádio local, levantei a pergunta: “A gente pode fazer educação sem escola?” Porque os meninos estão fora dela e precisam ser educados. Era para morrer aí. Mas apareceram pessoas buscando resposta.  Fomos discutindo e percebi que não falávamos da escola que gostaríamos de ter, mas daquela que não gostaríamos de ter tido. Eram 26 pessoas, divididas em 13 grupos, e, em cada grupo, havia dois educadores do CPCD. Nos organizamos com o compromisso de nos encontrar todos os dias para contar o que tínhamos feito. Fazíamos rodas de conversa e registrávamos tudo. Todos que estavam na roda eram convidados a sugerir o que iríamos estudar. Foi assim que organizamos assuntos e criamos pautas. E a nossa escola passou a ser embaixo de um pé de manga.

CE: O Sementinha é dirigido a crianças que não estão matriculadas na educação formal?

TR: O Sementinha é uma escola itinerante que tem criança matriculada na educação formal, criança que nunca pisou numa escola e criança que abandonou a escola. Começamos a fazer roda em casas e quem sentasse na roda tinha de contribuir. Construímos assuntos e temáticas envolvendo o bairro. Hoje, temos a seguinte estrutura: a escola é o bairro, os educadores todos os que sentam na roda e o conteúdo é a cultura daquele bairro, os saberes, os fazeres e os quereres. Nossa metodologia é sentar na roda.

 

CE: Com a “pedagogia de roda” surgiu a “pedagogia do brinquedo”. Como brincar virou ferramenta para aprender? E até negócio?

TR: A gente começou a se perguntar: ‘É possível que os meninos aprendam brincando, de forma lúdica e prazerosa?’ Até então, a gente fazia isso, mas usava o livro. Tudo o que os meninos liam, eles tinham de fazer teatro, música. Era um jogo. Começamos a usar essa experiência com a sucata, transformando-a em brinquedo. O lixo virou sucata e depois brinquedo. Até que virou negócio, uma fabriqueta de brinquedo. A partir da pedagogia do sabão, criamos uma cooperativa que cria brinquedos, tinta de terra, geléia, doces, utensílios de ferro, bambu.

 

CE: O que é a “pedagogia do sabão”?

TR: É a de não desperdiçar nada. Ela surgiu há 23 anos, lá em Curvelo. Eu fui chamado para interagir com as escolas públicas da prefeitura e comecei a receber pilhas de relatórios que listavam as necessidades: material de limpeza, água, comida e por aí vai. Até que a dona Margarida chegou perto de mim e falou: “Já que você não vai me dar, vou eu mesma fazer o sabão e o detergente que tem na minha lista”. Bom, ela foi lá e fez sabão de sebo com os alunos dela, de quarta série. Metade do sabão ficou na escola e a outra foi para a casa dos alunos. Depois fizeram 15 tipos de sabão, de pequi, de mamão, com cinza, sem cinza. Hoje, temos mais de 1,7 mil tecnologias de baixo custo, metade delas o menino faz com a mão nas costas. A outra metade tem custo zero.

 

CE: As outras fabriquetas surgiram também de uma necessidade local?

TR: A pedagogia de não desperdiçar nada começou a se espalhar. A gente começou a pensar em coisas. Por exemplo, temos muita alface. O que dá para fazer com ela? Suco de alface é bom? Farofa? Montamos uma cozinha experimental. Tudo o que era aprovado entrava no cardápio. As crianças plantavam, brincavam de fazer comida e comiam. Um dia, tínhamos um monte de coisa: suco, bolo, sorvete. Os meninos de 16 anos que têm aquela demanda por trabalhar sugeriram vender os produtos na feira. Mas para vender tem de ter qualidade. Foi assim que organizamos as fabriquetas. Com as frutas fizemos licores, geléias, doces. Eles venderam e ganharam dinheiro.

 

CE: Como a turma se organizou em cooperativa?

TR: Os meninos das fabriquetas tinham de 14 a 16 anos, não tinham idade para montar uma cooperativa. Eu falei com o juiz e propus que, se os pais autorizassem a emancipação dos garotos, ia ser muito bom que ele permitisse a criação de uma cooperativa deles. Havia meninos ali que estavam ganhando seu dinheiro e ajudando em casa. E foi assim que nasceu a Cooperativa Dedo de Gente, que é deles. Só entra quem faz parte de um grupo de economia solidária. Os meninos da fabriqueta trabalham até as 16 horas e estudam à noite. Hoje ninguém pode ganhar menos de um salário mínimo para trabalhar quatro horas e meia.

 

CE: A matéria-prima de todas as fabriquetas é material reutilizável?

TR: A gente busca a auto-suficiência. Tudo é pensado sob a ótica da sustentabilidade, de como trabalhar com recursos renováveis, material orgânico, produzindo menos lixo. Esses conceitos foram sendo colocados e as fabriquetas são mantidas assim. Em Araçuaí (cidade do Vale do Jequitinhonha) tem uma fabriqueta de software e uma de cultura que gerencia o cinema da cidade.

 

CE: Em que momento esses conhecimentos dos projetos do CPCD se encontram com o que é ensinado na escola?

TR: No primeiro ano, em Curvelo, todos os meninos levaram bomba na escola. Os pais vieram todos. Disseram que os meninos iam mal porque perdiam tempo conosco. Pediram para a gente fazer um reforço escolar. Só que não era essa a nossa proposta. Os pais trucaram: ‘Você dá diploma?’ Eu respondi que não, e eles ameaçaram tirar os meninos do CPCD. Mas sem menino a gente não faz nada, certo? Tivemos de descobrir qual era a dificuldade que eles tinham na escola. Foi assim que surgiu o nosso primeiro jogo, a damática (dama + matemática). Porque tinha um garoto que ganhava todas as partidas de dama, mas não sabia fazer as quatro operações matemáticas. Hoje, temos os bornais de jogos, com mais de 150 diferentes modalidades.

 

CE: Como vocês trouxeram os adultos da comunidade, inclusive os que não têm filhos, para ser educadores?

TR: É possível fazer uma escola debaixo de um pé de manga, mas é impossível educar sem bons educadores. A gente tem de formar educadores no local onde eles vivem. Não importa muito o currículo deles. Vale muito mais a vontade que o educador tem de aprender. É claro que aparece de tudo. Teve um clássico que virou uma tecnologia, que é o biscoito “escrevido”. Uma mãe sugeriu que os meninos escrevessem os nomes com letras de biscoito de polvilho que eles mesmos faziam. Pronto. Eles faziam e comiam biscoito e aprendiam as letras. É fantástico. A gente formou um time em Curvelo. Em Moçambique, eram educadores que trabalhavam com jovens e crianças que viviam em campos de refugiados da guerra. Em Vitória, era para transformar o lixão numa escola.

 

CE: E vocês fizeram uma escola no lixão?

TR: Sim, fizemos. Por que não? A história foi a seguinte. Ninguém queria sair de lá. O lixo mudava de lugar e as pessoas iam junto. Então, já que ninguém sai, o que podemos fazer para que o lixão vire uma escola? Muitos deles diziam que não poderia haver uma escola num lixão. “Nem casa”, respondi. “Ninguém pode aprender num desses”, diziam. E eu retrucava: “Nem viver”. Até que a gente chegou num acordo: a escola seria no lixão onde eles moravam. Se eles moram lá porque “não tem outro jeito”, iriam aprender lá porque também “não tem outro jeito”.  Se eles não saem, eu também não. E foi assim. Hoje, esses moradores fundaram uma organização comunitária.

 

CE: Houve resistência para levar a Folia de Livro, biblioteca itinerante, à casa dos moradores?

TR: Foi fácil. A gente espalhou livros onde a comunidade estava: ônibus, botequim, armazém. Montamos centenas de algibeiras. Esse processo teve impacto. Passamos a levar a biblioteca para a casa das pessoas e lá ficava por um mês. Um dia, conversando com uma mãe, surgiu a idéia de fazer algo mais festivo, uma folia. As mães produziram uma folia de reis com o livro, com direito a bandeira, foguete, cavalo, tudo. Em Araçuaí e Curvelo tem romaria que sai com 200 pessoas, 70 pessoas a cavalo, carregando livros.

 

CE: Como Araçuaí pode se tornar uma cidade sustentável?

TR: Cidade sustentável é aquela em que você consegue a seguinte equação: produzir satisfação econômica, mais valores humanos e culturais, mais compromisso ambiental, mais “empodimento” comunitário (que vem de “pode fazer isso?”). Essa soma é igual a transformação social, e deve ser pensada de forma sistêmica. Para isso, criamos dois programas. Um é o Meu Lugar É Aqui, ou seja, uma cidade sustentável é aquela que ninguém precisa sair de lá porque há condições favoráveis para as pessoas viverem. O outro é o Cuidando dos Tataranetos. A gente quer que todos pensem no futuro da cidade.

 

CE: As escolas de Araçuaí estão integradas?

TR: A atual administração rompeu com o governo anterior. Quase fomos proibidos de entrar nas escolas municipais. A prefeitura perdeu recursos financeiros porque deixamos de fazer coisas lá. O que se espera é que a administração anterior, voltando a gente tenha uma possibilidade mais ampla de trabalhar com as escolas da prefeitura. As escolas estaduais têm mais contato com a gente.

 

CE: Por que Araçuaí?

TR: O Vale do Jequitinhonha já foi citado como um dos cinco maiores bolsões de pobreza do mundo. O problema da seca que atinge todo o Semi-Árido brasileiro deixa a população local em situação de vulnerabilidade, fragilizada em relação às questões de desenvolvimento sustentável. Como conseqüência, os trabalhadores saem de lá e vão para as periferias das grandes cidades. Se a gente construir uma plataforma de transformação social ali, teremos um impacto positivo em outros lugares do País.

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