Livres do agrotóxico
Projeto piloto de introdução de produtos orgânicos na merenda de escola na zona sul de São Paulo faz crescer em 30% o consumo de verduras
Parte dos 50 quilos de arroz usados diariamente na merenda da Escola Estadual Reverendo Erodice Pontes de Queiroz, em Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, começa a ser servida às 8h30 da manhã. Para dar conta da grande demanda de alunos, as seis merendeiras não param. Do total de 2.500 alunos, cerca de 1.800 se alimentam no refeitório.
Como toda escola da rede estadual, a Reverendo Erodice segue o cardápio determinado pela secretaria. Nele estão previstos os alimentos básicos, como arroz, feijão e macarrão, que se revezam conforme o dia determinado. A salada, claro, também faz parte e é servida de duas a três vezes por semana. Até o ano passado, a rotina na alimentação dos alunos nunca havia sido alterada. No entanto, a chegada de um projeto da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, juntamente com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), alterou uma pequena parte dessa rotina. E para melhor.
Sob coordenação da professora Isabel Pereira, os pesquisadores da FSP iniciaram um projeto piloto de merenda escolar orgânica. A escolha da Reverendo Erodice teve um motivo. “A região de Parelheiros possui uma forte vocação agrícola. Grande produtora de hortaliças, é a principal área agrícola do município de São Paulo e faz parte do ‘cinturão verde’, concentrando um número expressivo de famílias de agricultores”, explica a pesquisadora da FSP Ana Flávia Badue, autora de uma tese de mestrado sobre a experiência de introdução de hortaliças e frutas orgânicas em Parelheiros.
“O projeto tinha o objetivo de promover a inserção de alimentos de melhor qualidade nutricional na merenda escolar, propor metodologias destinadas à informação e educação para o consumo de alimentos orgânicos e, ao mesmo tempo, estimular o desenvolvimento rural da região de Parelheiros”, afirma a coordenadora Isabel Pereira. O que se pretendeu, portanto, foi aproveitar a forte presença de agricultores da região e convencer alguns deles a cultivar hortaliças orgânicas para que passassem a vender para a própria escola da região. Nessas duas frentes, queríamos “contribuir para o desenvolvimento local sustentável”, completa Isabel.
A primeira etapa do projeto foi a pesquisa de experiências similares em outras regiões brasileiras. Foram levantadas iniciativas em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Após esse processo, os pesquisadores entrevistaram 30 agricultores da região, questionando-os sobre a proposta de cultivarem produtos orgânicos em seus sítios e fazendas. Paralelamente, conversaram com pessoas da comunidade escolar, 108 ao todo, entre professores, funcionários e preparadores de alimentos e 65 alunos de duas escolas da região, para compreender melhor o consumo de alimentos orgânicos.
ORGÂNICOS NA ESCOLA
Na escola, tudo começou em abril de 2007, com o envolvimento de 40 professores e das merendeiras. “De início, tivemos a capacitação teórica sobre os alimentos orgânicos, o plantio e os cuidados com o solo”, conta a professora Aline Gonçalves. No planejamento, além da implantação de hortifrútis orgânicos na merenda, previu-se a criação de uma horta com produtos igualmente produzidos sem agrotóxicos, para que toda a comunidade escolar (professores, alunos, pais e merendeiras) pudesse vivenciar de perto o cultivo de alimentos orgânicos.
No decorrer do ano letivo, além dos pesquisadores, técnicos da Associação de Agricultura Orgânica, de São Paulo, e da Subprefeitura de Parelheiros também visitaram a Reverendo Erodice para orientá-los. Foram meses de palestras e explicações sobre a origem dos produtos orgânicos, a importância, o modo de cultivo, a diferença deles em relação aos frutos convencionais e como trabalhá-los no cotidiano das pessoas. Nesse período, os professores chegaram a visitar uma feira especializada em orgânicos. Nas palestras, todos puderam aprender noções básicas sobre a manutenção de uma horta: da localização em relação ao sol e tipo de solo até como evitar as pragas no cultivo. Enquanto isso, a diretora da escola e a equipe da FSP se mobilizaram e localizaram um agricultor da região com documentação regularizada para vender alimentos à escola. Os produtos, apesar de já serem cultivados sem agrotóxicos, ainda não tinham a certificação de orgânicos, pois estavam passando pela fase de conversão.
Na segunda etapa do projeto, os produtos orgânicos deixaram de ser teoria para entrar de vez no cotidiano dos professores, merendeiras e, sobretudo, dos alunos, que a partir de novembro passaram a comer alface, acelga e repolho cultivados sem fertilizantes e outros produtos químicos. “A aceitação dos orgânicos por todos foi muito boa. Os alunos adoraram e acharam que a salada ficou, inclusive, mais saborosa. Até beterraba eles passaram a comer com gosto”, lembra Berenice Teixeira, coordenadora pedagógica da escola.
CULTIVO EM CASA
Como parte do projeto, uma turma de alunos foi visitar o agricultor. “Eles tiveram a chance de visitar e ver de perto o plantio das verduras e legumes que consumiam na escola”, conta a professora Isabel Carvalho. A horta feita na escola também serviu para aproximar os alunos das verduras orgânicas, pois puderam participar, inclusive, do processo de semeadura, graças ao apoio do CNPq, financiador do projeto, que forneceu equipamentos de jardinagem e sementes.
Alguns pais também se envolveram. “As crianças aprenderam que esse alimento é saudável e passaram a levar isso para casa”, diz Gorete Carvalho, mãe de uma aluna da Reverendo Erodice. “Muitos moram em lugares com espaços para canteiros, e esse projeto despertou o interesse deles pelo cultivo de alimentos em casa”, ressalta a professora Isabel.
O sucesso dos produtos orgânicos foi tanto que houve um aumento de mais de 30% no consumo de salada. Para a diretora, Maria Aparecida dos Santos, o projeto, que se encerrou em fevereiro, foi muito positivo. “Todos se conscientizaram e começaram a perceber a importância de uma alimentação saudável.” Os alimentos consumidos durante o projeto se concentraram em verduras (alface, acelga, repolho e couve), alguns legumes (beterraba, cenoura e pepino) e banana, a única fruta cultivada em abundância na região. O período em que os orgânicos foram servidos na merenda durou de novembro até meados de dezembro, quando se encerrou o ano letivo. “O projeto serviu para mostrar que temos condições de servir alimentos orgânicos e os produtores da região podem nos fornecer esses ingredientes. Pretendemos continuar comprando dos agricultores locais”, conta a diretora Maria Aparecida.
Para dar prosseguimento às ações, a coordenadora pedagógica Berenice Teixeira avalia que seria ideal a existência de uma parceria que continuasse fornecendo pessoas preparadas (agrônomos, nutricionistas e outros técnicos), para dar suporte à escola, principalmente na manutenção da horta. O resultado desta bem-sucedida experiência será apresentado à diretoria regional da Secretaria de Estado da Educação, para ser estendida às outras escolas da região. A Reverendo Erodice, então, poderá mostrar aos vizinhos que foi um caso de sucesso.
Saiba mais
- E. E. Reverendo Erodice Pontes de Queiroz – Tel. (11) 5979-6959
- No site da Faculdade de Saúde Pública da USP (www.fsp.usp.br), leia textos sobre esta experiência
- Tese de mestrado da pesquisadora Ana Flávia Borges Badue sobre o projeto de Parelheiros http://www.teses.usp.br/
teses/disponiveis/6/6135/tde-03102007-142517
- Sites sobre orgânicos: www.portalorganico.com.br e www.planetaorganico.com.br
- Vídeos Alimentação Sustentável, realizado pela Fundação Banco do Brasil
www.fbb.org.br/portal/pages/publico/pubBiblioteca.fbb?tema=0







