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Nossa praia mais sustentável

By Roseana Chaves

Escola localizada em uma comunidade pesqueira do Ceará ensina a preservar a lagosta e o sustento das futuras gerações

A primeira impressão que se tem é que a tranqüilidade e a calmaria imperam na Prainha do Canto Verde, localizada no município de Beberibe, a 120 quilômetros de Fortaleza, no estado do Ceará. A comunidade de pescadores surgiu a partir do casal Joaquim Caboclo Fernandes e Filismina Maria da Conceição, que em 1870 chegou ao local para dali extrair seu sustento com a pesca da lagosta. Seus descendentes permaneceram no lugar, que, atualmente com mais ou menos 1,2 mil habitantes, ocupa uma área de 750 alqueires. Para a comunidade do Canto Verde, as principais ameaças ao modo de vida herdado dos pioneiros vêm da pesca predatória e da especulação imobiliária. São estes os espectros que rondam os 5 quilômetros de praias entre lagos, dunas e vazantes que formam uma imensa riqueza ecológica e onde seus moradores subsistem da pesca de peixes e lagostas vermelhas e verdes.

 

O regulamento da terra, elaborado pela Comunidade da Prainha do Canto Verde após dois anos de discussão entre os moradores, que promoviam palestras durante as novenas e outras ocasiões, significou uma vitória importante contra a Imobiliária Henrique Jorge, interessada em vender lotes na região para turistas. Durante os debates que abrangeram quase todos os moradores da comunidade, contaram com a participação da Escola Municipal Bom Jesus dos Navegantes, que envolveu os alunos no projeto pedagógico “Minha Terra, Minha História”, para que entendessem o movimento pela posse da terra e compreendessem também o que seria sustentabilidade, em especial em respeito à pesca. Em 2006, definiu-se a posse da terra em nome da comunidade. O passo seguinte será dado em breve, com a criação de uma reserva extrativista vinculada ao Ministério da Pesca. Os moradores entendem que esta é a melhor forma de preservar os recursos naturais e o desenvolvimento responsável e sustentável da comunidade. A área a ser protegida, de 54 quilômetros, ficará na divisa de Beberibe com as cidades de Fortim e Cascavel. Os pescadores de Beberibe pretendem, assim, continuar com sua pesca artesanal nessa área, que passará a ser protegida pela Marinha, pela legislação e pelos próprios pescadores.

 

Escola e Sustentabilidade

Quando se fala em sustentabilidade numa região como a da Prainha do Canto Verde, chega-se rapidamente ao que vem fazendo a Escola Municipal Bom Jesus dos Navegantes, porque seus projetos estão, de fato, integrados a tudo o que acontece na comunidade. São inúmeras as ações que escola e comunidade realizam, a maioria idealizada por René Schärer, um suíço que estava de passagem e resolveu se estabelecer na Prainha. Uma “passagem” que se provaria definitiva.

 

A escola, fundada em 1980, nasceu sem recursos e com apenas duas salas de aula. Em 1996, segundo a diretora Marlene Fernandes, os pais de alunos, juntamente com a comunidade, procuraram obter melhorias, inclusive no tocante à estrutura física do prédio da escola, tornando-o mais amplo. Também foram feitas mudanças no projeto pedagógico com o objetivo de torná-lo mais próximo da realidade local.  

 

Atualmente a escola conta com 300 alunos divididos em dois turnos do Ensino Fundamental I e II, além de 22 alunos do grupo de adolescentes, jovens e adultos matriculados à noite na Educação de Jovens e Adultos. Ali se desenvolvem atividades nas aulas de Arte, como a confecção de toalhas em labirinto, trabalhos de “fuxico” e madeira, em salas adaptadas com maquinário. Os produtos são comercializados na Loja Bodega Solidária, em casas de famílias da região, nas pousadas ou em festas improvisadas no galpão de propriedade de um morador. O objetivo com a venda de produtos artesanais é o de valorizar os saberes locais, além de suprir as necessidades das famílias, pois a renda financia melhorias para o povo do lugar.

 

Outro projeto de grande relevância, explica Milena Machado de Carvalho, coordenadora da Escola Municipal Bom Jesus dos Navegantes, é o Regata Ecológica, no qual as crianças e os jovens criam desenhos e pinturas com motivos de sustentabilidade e meio ambiente, que são ampliados e colocados nas velas das jangadas dos pescadores da Prainha do Canto Verde durante a festa anual da regata ecológica. 

 

Pesca no Currículo

A pesca também é ponto de destaque no currículo. A maioria dos alunos do Ensino Fundamental e Médio tem conhecimentos adquiridos através de seus pais, quase todos pescadores. Entre os temas estudados, há o Projeto Catamarã, que prevê a gradual substituição da jangada por um tipo de barco mais bem adaptado, mais confortável e com tecnologia de pesca adequada ao trabalho extenuante feito pelos pescadores, que passam a maior parte do tempo no mar, isolados da família.

 

Já o Projeto Escola dos Povos do Mar visa incluir os pescadores que desistiram de estudar na 5ª série para sustentar suas famílias. Para os alunos que retornavam ao ambiente escolar, buscou-se uma aprendizagem diferenciada, com ênfase nos aspectos tecnológicos, econômicos e culturais da pesca artesanal. De quebra, o projeto serviu para desenvolver nos alunos (muitos deles futuros pescadores) noções do que seria um desenvolvimento sustentável – e desejável – para a região.

 

Outra proposta que mira o desenvolvimento sustentável da comunidade é A Arte de Viver, em que se utiliza a agroecologia orgânica em área de 1 hectare, onde se usa a água proveniente das chuvas, também chamada de vazante. Essa água existente 2 metros abaixo do solo é captada e utilizada de maneira ecológica no plantio. Há dois anos, quatro famílias de pescadores utilizam as novas técnicas de plantio e irrigação da chamada permacultura, fazendo uso, também, da energia eólica obtida através dos cataventos. Existe uma família que optou pelo uso de catavento artesanal feito por eles mesmos de madeira. Há também uma horta comunitária na vazante que utiliza um catavento instalado na praia da região. Já os canteiros da horta da escola são irrigados por meio de poço profundo com a utilização de motor. A horta da escola surgiu há dois anos com o Projeto Geração Muda Mundo, financiado pela Ashoka, uma fundação internacional com sede em Washington (EUA) que promove o empreendedorismo social. A experiência envolve atualmente seis grupos de jovens da comunidade e levou os alunos participantes a um encontro em Limoeiro do Norte, no Ceará. O grupo ganhou um prêmio de 1.500 reais pela iniciativa.

 

Há cerca de 15 anos, a pesca na Prainha do Canto Verde caminhava para a insustentabilidade, devido ao grande número de atividades ilegais e predatórias. Havia o problema dos atravessadores e empresas que praticavam a captura ilegal de lagostas ainda não inteiramente formadas. A mudança a meio caminho do desastre econômico e ambiental deu-se com a criação de uma cooperativa. Foi um passo importante no sentido de, juntos, os pescadores ganharem força competitiva diante de outras empresas. Atualmente, todos os pescadores da comunidade são conscientes de que não podem pescar exemplares muito pequenos para repor os estoques. Em decorrência dessa conscientização criou-se a Lei de Pesca, que não está em nenhum papel, mas vale como lei entre as famílias de pescadores da Prainha do Canto Verde. Como também vale como lei o que os pescadores de amanhã aprendem hoje na escola da comunidade: o bom pescador sabe pescar sem comprometer as futuras gerações de humanos e de um de seus alimentos preferidos, a saborosa e preciosa lagosta.


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