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O caminho das peças

By Lívia Perozim

Artista plástico ensina jovens de baixa renda a fazer marchetaria com pedaços usados de madeira

 Lâminas e sobras de madeira transformam-se em tabuleiros de xadrez, caixas, bandejas, porta-copos e marcadores de livros. É de ensinar a arte de juntar pedaços para revestir ou construir objetos e móveis que o artista plástico Danilo Blanco vive há mais de dez anos. O que seria lixo em marcenarias, obras e feiras livres é matéria-prima nas mãos desse artesão que ensina a técnica da marchetaria para adolescentes e adultos. E, mais do que ajudá-los a transformar restos em renda, Blanco vem plantando uma idéia: a madeira é reutilizável.

Há quatros anos no Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista, na zona sul da capital paulista, Blanco e o designer Fernando Zelman reúnem, nas tardes de sábado, um grupo de 20 alunos, entre pais e adolescentes matriculados na organização não-governamental, para ensiná-los a transformar restos de madeira. A turma, que desconhecia a arte de marchetar, descobriu uma possível profissão e passou a garimpar o material e a se preocupar com o destino e o uso da madeira. “O curso ensina na prática o que é sustentabilidade. Queremos que os alunos se tornem observadores das sobras de madeira, porque para o plástico, o papel e as latinhas já têm muita gente olhando”, afirma Blanco. Depois disso, completa, o caminho das pedras é dado: “Queremos agora que eles aprendam a buscar fornecedores, conheçam as possibilidades de criação com a madeira, saibam como divulgar o trabalho no bairro e para quem vender”.

No início, os alunos levavam lâminas de madeira que encontravam em caçambas, feiras e perto de suas casas – a maioria deles mora a uma hora e meia do Lar das Crianças e estuda em escolas públicas da região, onde seus pais trabalham. Com o tempo, conta Blanco, as sobras de madeira passaram a chegar à instituição. “Quando as pessoas souberam da oficina, começaram mandar os restos de madeira para cá, porque não tinham onde deixar. São poucos os que a reutilizam, inclusive marceneiros.”

Novos talentos
Com régua de metal, estilete e fita crepe, os alunos de mais de 12 anos aprendem a revestir objetos com cores e formas variadas da madeira. A partir dos 15 anos, aprendem também a manusear as máquinas e a trabalhar com madeira maciça. Muitos dos artefatos feitos por eles são vendidos em bazares da própria instituição e suprem os gastos dos materiais.
Nas aulas, talentos também são descobertos. Danilo Santos Nogueira nunca tinha ouvido falar de marchetaria e entrou na oficina “de bobeira”. Acompanhou os três primeiros anos do projeto e começou 2008 como monitor das aulas. “Eu gostei muito de mexer com madeira. Queria ser jogador de futebol, mas, quem sabe, eu possa trabalhar com isso”, vislumbra o garoto de 16 anos. Algumas das peças que produziu nas oficinas e levou para casa foram vendidas. “Todo mundo sabe que eu faço de tudo um pouco”, orgulha-se. Como Danilo, o estudante Darlam Magalhães, de 15 anos, também é um dos primeiros alunos da oficina de marchetaria do Lar das Crianças. Começou o curso na companhia da mãe, que depois desistiu. “Eu até pensei em parar, mas minha mãe me incentivou a continuar. Antes eu não sabia fazer nada e agora até tabuleiro de xadrez já faço”, diz.

Geração de renda
Um tabuleiro de xadrez, por exemplo, tem um baixo custo de produção e é vendido por 50 reais. No entanto, como ressalta Katia Regina Honora, coordenadora-administrativa do Lar das Crianças, “ganhar dinheiro” não é a finalidade da oficina na instituição. “A gente não tem condições de aceitar encomendas de peças, por exemplo. Toda a nossa produção é feita em aula. Nossa proposta está crescendo e é educativa, até porque trabalhamos com menores”, conta.
Este ano, a ONG, antigo semi-internato que abrigava filhos de imigrantes do Pós-Guerra e que hoje oferece educação infantil e atividades socioeducativas para jovens em idade escolar, abriu as portas para alunos de três escolas públicas do bairro em que está inserida, Santo Amaro. A parceria deu certo, mas a procura pelo curso foi maior do que as vagas disponíveis. “A gente teve de selecionar, porque não dava para receber todo mundo”, explica Katia.
Durante as aulas, ao desenhar e recortar as folhas de madeira, os alunos desenvolvem habilidades motoras e espaciais e aprendem a planejar e construir uma obra. “A evolução pedagógica é nítida. O Lar acompanha o desempenho deles na escola. Dá para notar que eles melhoraram em cálculo, aprenderam a usar régua e outra linguagem a partir da pintura e do desenho”, destaca Nanci de Lima, coordenadora pedagógica do Lar das Crianças.

Protagonismo
A oficina de marchetaria, que trabalha conceitos pedagógicos e de sustentabilidade, além das possibilidades de geração de renda, foi desenvolvida por Danilo Blanco em 1995, ano em que o artista plástico fechou seu ateliê no bairro de Vila Madalena para ensinar o que mais sabe aos meninos e meninas da periferia de São Paulo: transformar materiais recicláveis.
Multiplicar o conhecimento passou a ser o lema de Blanco, que, depois de trabalhar com jovens de São Mateus e Capão Redondo, bairros da periferia de São Paulo, reabriu seu ateliê num galpão de 200 metros quadrados, no bairro de Santa Cecília, região central da capital. De 2002 a 2007, Blanco e Fernando Zelman comandaram a Galeria Central, um local que recebia crianças, jovens e adultos em situação de rua ou em abrigos.

Com oficinas de marchetaria e grafite, a Galeria Central também era um espaço aberto aos alunos de escolas públicas da região central. “Lá, todo mundo ficava junto e era igual. Trabalhamos a arte para incluir, gerar renda e desenvolver o ser humano. Uma transformação que tem como protagonista o próprio jovem”, resume Zelman. Para os meninos em situação de rua, diz ele, as oficinas funcionavam como um processo educativo e de sociabilização. “Também encaminhávamos os jovens que queriam ir para abrigos e outras organizações”, ressalta.

A renda gerada pelos materiais produzidos com a técnica da marchetaria era utilizada para pagar as despesas mensais do espaço e os custos com o material. O que sobrava, era dividido entre os participantes. “A gente fez um esquema de cooperativa. Todo mundo sabia quanto custava e quanto entrava de dinheiro. Só não podemos dar dinheiro aos jovens que moram na rua porque tem a questão da droga”, explica Blanco.

Na Galeria Central, em cinco anos, passaram 8 mil alunos na oficina de marchetaria. Mas, desde 2007, o local foi fechado por falta de recursos para manter o espaço, cujo gasto mensal era de 4 mil reais. O imóvel é hoje um estacionamento. “Tivemos dificuldade financeira e não soubemos administrar. Não recebemos o apoio de nenhuma empresa porque não somos uma ONG, o que é uma injustiça”, afirma Blanco. Mas ele e Zelman não desistiram da região central de São Paulo e estão à procura de um novo espaço para voltar com os projetos da Galeria Central. “A luta pela inclusão social e pela sustentabilidade por meio da arte continua”, garantem.


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