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Por que a escola deve se preocupar com sustentabilidade

By Suzana Pádua, Presidente do IP - Instituto de Pesquisas Ecológicas (www.ipe.org.br), doutora pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília

Durante anos, a humanidade tratou o meio ambiente como se não fizesse parte dele. Até que essa relação tornou-se sustentável

A temática ambiental parecia ser, até pouco tempo atrás, moda ou capricho de alguns excêntricos. Muitas vezes ridicularizados, os ambientalistas não conseguiam ser ouvidos na esfera das decisões regionais, nacionais ou, menos ainda, nas globais. Com o passar do tempo, os problemas aumentaram e o mundo deparou-se com a poluição das águas e do ar, assoreamento de rios, contaminações por dejetos humanos ou resíduos industriais, desaparecimento de espécies e ecossistemas naturais e, mais recentemente, aquecimento global. Esses são alguns dos desafios que demonstram que nosso cuidado com o meio ambiente tem deixado a desejar. Estamos diante de questões que determinam a sobrevivência da vida no planeta, inclusive a nossa.

Muito do que ocorre hoje é resultante de termos priorizado por séculos a fio, e até por milênios, progresso a qualquer custo. A humanidade tratou a natureza como se não fizesse parte dela. Esquecemos que somos 70% água, respiramos continuamente o ar, que deveria ser puro para a garantia de nossa saúde, dependemos de alimentos que demandam ambientes apropriados e em equilíbrio para sua produção. O próprio planeta necessita de condições atmosféricas adequadas que, por conta das atividades humanas, estão em perigo.

Esse cenário reflete ter prevalecido o lado racional do ser humano em detrimento do sensível e intuitivo. Deixamos de lado o cuidado e o amor pelo todo, pelo outro ser vivo, seja ele humano ou não. Focalizamos em atividades que exigem competição e que acabam por representar ganhos em curto prazo, mesmo que signifiquem o uso insustentável da natureza ou a exploração de outros seres humanos. Por conta de comportamentos que refletem valores inadequados, temos agora de reaprender a sermos responsáveis, despertando para nosso papel de interventores e protagonistas de mudanças positivas que incluam o bem-estar de todos.

A POSTURA INCONFORMISTA
A tendência de favorecer o racional é facilmente observada na maioria das salas de aula. O aluno com pensamento claro, matemático e lógico tende a ser mais valorizado do que aquele que apresenta sensibilidade artística, seja para música, escultura, pintura ou até quem detém dons literários. Na verdade, esses nem sempre têm a chance de descobrir seus talentos, pois os currículos e a programação escolar quase nunca incluem tempo ou materiais apropriados para o desenvolvimento desses potenciais. O ideal seria que cada aluno tivesse na escola o ambiente propício para descobrir em qual área mais tem chance de brilhar, qual o talento que merece ser explorado, qual o caminho a ser seguido.

A oferta de emprego ainda tende a pesar nas escolhas profissionais. Mais abundantes nas áreas tecnológicas, preparar o aprendiz “para o mundo” muitas vezes significa valorizar seus aspectos racionais. Todavia, as necessidades do mercado mudam com o tempo e com o progresso e ampliam seu leque de interesse. Muitos campos industriais modernos estão aderindo a responsabilidades sociais e ambientais, o que exige profissionais de visão ampla e com especialidades diferenciadas. Além disso, sempre que se faz algo com qualidade aparecem as devidas oportunidades. E é essa a educação que deve ser disponibilizada para todos: aquela que ajuda a descobrir talentos.

Nos cenários atuais a educação é apontada como um dos meios para se chegar à sustentabilidade planetária. No entanto, a própria educação precisa ser reformulada e repensada. Em vez de incentivar alunos passivos e cordatos, é necessário que estimule questionamentos e reflexões sobre os processos históricos que nos trouxeram à realidade de hoje. Deve estimular ações e engajamentos em resoluções de problemas. Tais princípios podem parecer simples, mas trata-se de uma mudança drástica na maneira de se atuar diante do ensino, e os professores precisam estar dispostos a ousadias e preparados para incertezas.

CAMINHOS DA TRANSFORMAÇÃO
A “educação ambiental” surgiu das crises modernas como um caminho para responder às necessidades desse desenvolvimento insustentável que caracteriza a modernidade. Percebeu-se que a educação estava falhando, pois o aprendizado não incluía valores que refletiam respeito e celebração pela vida no planeta. A educação ambiental emergiu, assim, com o diferencial de se trabalhar valores juntamente com conhecimentos. O “ter” ou possuir, mola propulsora do sistema industrial, passou a ser questionado. Percebeu-se que câmbios deveriam ocorrer para incentivar um estado de “ser”, no qual a integridade do outro e da natureza são contemplados, onde exista solidariedade, justiça e esperança não apenas para alguns.

Fica claro que a qualidade das relações entre indivíduos e entre estes e os demais seres vivos ou elementos naturais precisa mudar. A educação deve alertar para os riscos de se preferir ganhos pessoais àqueles que beneficiem a coletividade. Nesse processo, no entanto, o fortalecimento individual é indispensável, pois somente com auto-estima elevada o aluno se sente apto a agir, capaz de transformar o indesejado e motivado a participar de propostas que visam mudar o mundo para melhor.

Como promover tal transformação? São muitos os caminhos. É importante ter a coragem de questionar a vida atual. Um olhar pela história pode ajudar a identificar aspectos que se quer manter e aqueles que precisam ser reformulados. É importante que se dê ao aluno a chance de desenvolver seu potencial de transformar realidades indesejadas. Reflexões sobre problemas locais na escola, bairro ou cidade podem despertar idéias criativas de como enfrentar os desafios identificados.

O contato com a natureza é reconhecido como um dos meios mais eficazes de nos religarmos às nossas raízes naturais. Todavia, com a concentração humana nos grandes centros urbanos, a sociedade vem se distanciando da natureza, o que facilita a aceitação de projetos que a agridem. Daí a importância de se freqüentar áreas naturais, promover visitas de campo.

Discussões e projetos em grupos ajudam a trazer à tona possíveis caminhos de se transformar aspectos merecedores de atenção. Expressões artísticas como desenhos, fotos, esculturas, maquetes, músicas ou poesias podem, também, desenvolver a sensibilidade, contribuindo para que o aluno demonstre de maneira criativa as questões que analisou e as transformações almejadas.

Trata-se de uma grande mudança de postura e o professor nem sempre está preparado, principalmente porque exige que se abra mão do controle. Os resultados passam a ser construídos coletivamente, o que significa que no início de cada projeto ou etapa não se sabe qual será o fim. Mesmo nesse ambiente instável, o mestre terá de demonstrar entusiasmo e respeito pelas diversidades, oferecendo oportunidades para que cada um desenvolva seu potencial, sua responsabilidade para com o todo, sempre incentivando valores que reflitam amor pela vida e pelo planeta.

Não são muitas as oportunidades disponíveis para o professor se preparar para assumir novas posturas como as aqui propostas. Cursos de especialização e pós-graduação podem ajudar, mas são poucos no Brasil e mesmo em outras partes do mundo. Vale a busca, que sempre representa o primeiro passo no caminho das mudanças que se deseja.


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