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Transformações sustentáveis

By Maria Lidia Bueno Fernandes

Como buscar soluções que melhorem a vida da comunidade em que sua escola está inserida, sem deixar de se preocupar com o futuro do planeta

Ao lançar o Prêmio Minha Comunidade Sustentável, a revista Carta na Escola permite que se discuta o conceito de sustentabilidade, inserindo-o no contexto escolar. É uma boa oportunidade para compreender, na prática, o que é uma comunidade sustentável. E, para isso, precisamos necessariamente pensar em uma forma de atuação que tenha caráter sistêmico, que envolva, em conjunto, as variáveis ambiental, social e econômica.

A noção de sustentabilidade traz uma concepção integradora em que a abordagem particularista dá lugar a uma perspectiva mais ampla, que contempla também um compromisso com a construção do futuro. Assim, podemos pensar em projetos realizados a partir de uma escola que desencadeiem transformações e levem a uma espiral crescente de compromissos, preocupações e reflexões com o ambiente, o social e o econômico.

Tal forma de pensar e agir permite que outras ações e mudanças significativas sejam empreendidas para melhorar a qualidade de vida de uma determinada comunidade. Essa atuação contribui ainda para uma aprendizagem significativa no âmbito escolar.

A noção de sustentabilidade, nos dias atuais, tem um caráter multidimensional e deve incluir a redução da pobreza e das desigualdades sociais e o direito a uma vida digna, a promoção de justiça, o respeito à alteridade e aos símbolos e valores dos diversos povos do planeta, o acesso à educação e à saúde de qualidade para todos, segurança ambiental, respeito à natureza e democratização das esferas de tomadas de decisão.

Essa discussão é preponderante em um mundo marcado por conflitos, guerras e problemas ambientais. Está colocado o desafio da construção de um mundo plural, mais eqüitativo e ambientalmente mais saudável.

Conforme o sociólogo e economista Henrique Rattner, um dos grandes pensadores do tema desenvolvimento sustentável no Brasil: “Os impactos dramáticos do desenvolvimento desigual, aumentando o fosso entre ricos e pobres, ajudaram a lançar a reivindicação central de nosso tempo – direitos humanos – não como uma visão utópica ou idealista, mas como condição básica para a sobrevivência da sociedade e a sustentabilidade de suas instituições. Esse é o cerne de uma ética universal que transcenda todos os outros sistemas de crenças e valores, como síntese da consciência humana, ciente da preciosidade de todas as formas de vida e da necessidade de cooperação, solidariedade e interdependência. Essa ética é fundamentada em valores de alcance universal – a conquista do bem-estar e da felicidade, através da liberdade. Ela se refere a um devir, uma visão do futuro da humanidade”.

Falando em termos práticos, o que poderia vir a ser um projeto escolar que contribua para a construção de uma comunidade sustentável?

Podemos citar alguns exemplos, mas todos consistem necessariamente em romper com os muros que distanciam a vida escolar da vida da comunidade. Implica a construção de um olhar qualificado para a realidade que o circunda em busca de soluções, e de uma intervenção que movimente a vida da comunidade em que a escola está inserida.

Exemplos de comunidades sustentáveis:
Um projeto que envolveria a escola, estabelecimentos comerciais do bairro e uma cooperativa de costureiras. Na escola os alunos estudam a questão do lixo e do tempo que os produtos feitos de plástico necessitam para serem decompostos, o que pode envolver os cursos de Geografia e Ciências. Podem-se estudar as experiências concretas de diferentes materiais enterrados e os alunos observariam o processo de decomposição de cada um deles.

Com isso, perceberiam o impacto que o plástico causa ao ambiente e discutiriam o excesso de resíduos que nossa sociedade produz. Isso permite introduzir o debate sobre a lógica da sociedade de consumo e suas conseqüências para a vida social e para o ambiente. Pode-se propor uma intervenção na comunidade buscando diminuir o consumo de saquinhos de supermercado.

Por meio de cartazes, os alunos desenvolveriam uma campanha para sensibilizar os consumidores sobre os problemas do consumo excessivo desses saquinhos. Ao mesmo tempo, os estudantes entrariam em contato com uma cooperativa de costureiras para se desenvolver conjuntamente modelos diversos de sacolas de pano com o intuito de substituir os sacos plásticos no mercado local.

No projeto que envolve a escola, os comerciantes e a cooperativa, dá para prever a crescente substituição dos saquinhos plásticos pelas sacolas de pano, envolvendo consciência ambiental e mudança de atitude quanto à utilização de um produto descartável. Assim como geração de renda para pessoas da comunidade e uma postura pró-ativa, cidadã, dos alunos da escola.

Esse projeto, se bem embasado, levaria a reflexões sobre o uso de descartáveis, o elevado consumo de plástico, a saturação dos aterros sanitários, e abriria caminho para um olhar em que as perspectivas social, ambiental e econômica estejam presentes.

Um outro projeto relevante pode ser o de reaproveitamento do óleo de cozinha, normalmente utilizado em frituras e despejado nos ralos, comprometendo a qualidade das águas e aumentando em muito o custo de tratamento. Novamente é possível pensar em um projeto que nasce na escola e chega à comunidade na forma de material de divulgação que chame a atenção da população para os problemas dessa prática. Além de oferecer a possibilidade de coleta desse óleo e geração de renda para alguns integrantes da comunidade que produzirão sabão em pedra, sabão líquido, entre outros produtos.

A escola, com o envolvimento dos professores e alunos, poderia desenvolver uma campanha de divulgação do projeto, cadastramento dos interessados em participar de oficinas, monitorias e divulgação do produto. Uma vez implementado, isso se reverteria em fonte de renda para a comunidade, aprendizado para os alunos e melhoria na qualidade das águas sem o despejo cotidiano de óleo nos ralos.

Outro exemplo seria a proposta de trabalho conjunto com cooperativas de catadores de papel e oficinas de produção de papel reciclado, posteriormente vendido em estabelecimentos comerciais ou utilizado pela própria escola.

Hortas comunitárias que contribuam para melhorar a qualidade de alimentação de alguns membros da comunidade e que culminem com a formação profissional de jardineiros e horticultores também são um exemplo de uma comunidade sustentável desenvolvida em parceria com a escola. Idem para um trabalho de formação de membros da comunidade em agentes ambientais ou mesmo agentes de saúde da família, com a preocupação de melhorar a qualidade de vida da comunidade.

Citamos alguns, entre tantos exemplos que poderiam ser dados. Sabemos que neste imenso País já existem muitas iniciativas criativas, arrojadas e inovadoras. Gostaríamos de salientar que, para a realização desses projetos, a busca de parcerias entre a escola, o poder público, a iniciativa privada, os movimentos sociais, as organizações não-governamentais, entre outros, é desejável e pode trazer muitos benefícios.

Está dado o pontapé inicial para ajudar a transformar esses projetos numa prática que reforça o nosso compromisso com o futuro.


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